8 de março: Entre as flores e o luto, a realidade das mulheres assassinadas por
Luis augusto do Carmo
Nos feeds das redes sociais, desfilam flores virtuais, corações, mensagens bonitas e molduras cor-de-rosa. “Feliz Dia das Mulheres!”, dizem. Mas que felicidade é essa? Uma felicidade que veste luto, que chora sangue, que grita e não é ouvida? Uma felicidade que se perde em estatísticas, que some em áreas de mata, que se apaga na frieza das manchetes?
Em 2025, apenas nos primeiros meses do ano, a brutalidade contra as mulheres no Brasil já somava dezenas de casos. Um dos nomes mais recentes é o de Vitória Regina de Sousa, 17 anos. Desapareceu no dia 26 de fevereiro após sair do trabalho. Antes, enviou uma mensagem para uma amiga, com a voz embargada pelo medo: dois homens a seguiam. Uma semana depois, seu corpo foi encontrado, quase sem cabeça, sem cabelo, sem futuro. Mais um nome. Mais um corpo. Mais uma vida ceifada.
O padrão se repete. Rayane Paulino, 16 anos, em 2018, foi sequestrada ao voltar de uma festa e encontrada dias depois, jogada como um objeto quebrado. Beatriz Angélica Mota, 7 anos, foi assassinada dentro da escola com 42 facadas em 2015. O tempo passa, mas a violência não cessa. A cada ano, novos nomes ocupam o espaço deixado por tantas outras.
Sou jornalista. Meu ofício é narrar os fatos, dar voz ao que não pode ser esquecido. Mas há algo insuportável nessa rotina: escrever sobre mais um caso, mais um nome, mais uma tragédia anunciada. A violência contra as mulheres não é uma pauta esporádica, é um ciclo que se renova, um padrão que se repete. E, por mais que manchetes sensibilizem por um instante, o horror logo se dissolve na normalização de um país onde ser mulher é um risco diário.
E eu, como homem, me pergunto: até quando? Caminho sem medo pelas ruas, entro em um carro de aplicativo sem hesitar, não preciso avisar a ninguém que cheguei em casa. Essa é uma realidade que nunca me ameaçou. Mas isso não me faz cego. Não me faz indiferente.
Todo ano se repete: discursos vazios, estatísticas recicladas, hashtags efêmeras. Todo ano as flores murcham, os posts perdem força e a realidade segue implacável. A impunidade escorre pelas ruas, a violência se esconde nos becos, nos lares, nos olhares de quem já sabe o que pode acontecer. Quem será a próxima?
O Dia das Mulheres não é feliz. Ele é um lembrete amargo de que ser mulher é viver sob ameaça. É carregar o medo no bolso. É desconfiar do caminho de volta para casa. É saber que o sistema que deveria proteger, muitas vezes, fecha os olhos.
Hoje, não direi “feliz dia”. Direi que estou aqui, ouvindo, aprendendo, me posicionando. Direi que essa luta não é só delas, mas minha também. Direi que ser homem não me isenta da responsabilidade de combater essa realidade. Não quero que os nomes das próximas vítimas cheguem até mim como estatísticas – quero que deixem de existir como vítimas. Quero que vivam.