Meu nome é Djalma Aparecido Moraes da Silva, conhecido como Djalma Moraes, ator e escritor, tenho setenta anos de idade, sou formado em Psicologia. Na juventude fui jogador profissional de basquete, viajei por vários lugares dentro do Brasil e estive em um campeonato internacional no Uruguai. Desde a adolescência demonstrei facilidade para escrever, tinha o hábito de ler clássicos da literatura infantojuvenil brasileira e revistas em quadrinhos. Minha vida profissional foi bastante diversificada, trabalhei em várias empresas de diversos ramos o que me permitiu viver várias experiências e conhecer pessoas diferentes e interessantes que estimularam a minha criatividade para colocar em palavras minhas observações. Apesar de tudo, só comecei a publicar após os sessenta anos durante a pandemia, lancei três livros e posteriormente mais dois, de lá para cá tenho participado de concursos literários e coletâneas nacionais, saraus nacionais e internacionais. No momento, estou dando andamento à finalização de dois novos projetos, um abordando a vida boêmia na cidade de Santos nos anos sessenta e outro sobre as relações de uma família negra de classe média com valores tradicionais de seus ancestrais que fortalecem a convivência, o altruísmo e proteção mútua como forma de lidar com os problemas e desafios da vida em sociedade e as mudanças causadas no comportamento humano na atualidade.
Quando criança ficava observando meu pai, que era semi analfabeto escrever cartas para os seus amigos do interior de São Paulo. Ele tinha um bloco de papel de cartas com uma capa muito bonita cujo nome era Copacabana, aquilo me encantava, principalmente porque ele soletrava cada palavra que escrevia com sua caneta tinteiro “Oxford”. Aos treze anos me apaixonei por Florinda, uma adolescente como eu mas, ela não quis namorar comigo, então para aliviar a minha tristeza comecei a escrever poemas que nunca foram lidos por ninguém além de mim.Eu também adquiri o costume de escrever cartas, comprei um bloco de papel e vários envelopes para me corresponder com a família e amigos após de mudado de cidade e me descoberto sozinho em meio à uma grande metrópole.O tempo passou e, quando aos dezoito anos comecei um namoro com uma colega de escola a veia poética brotou novamente, foram várias cartas de amor e poemas escritos diariamente, eu chegava a ir ao correio várias vezes na semana para enviar minhas declarações de amor. Os poemas que não enviava eram guardados para posteriormente virar um livro, como era meu sonho, o que não ocorreu pois ao lê-los, percebi o teor trágico e dramático que possuíam, resolvi então destruí-los. Nunca deixei de expressar meus sentimentos através das letras quer seja através de cartas, poemas, crônicas e alguns contos, o que me levou a lançar meus primeiros livros em 2021 e mais alguns outros em 2022 e 2023, sendo o mais recente “Crônicas de minha rua”, cuja foto se encontra abaixo.
Por que escrevo?
Escrevo para deixar fluir toda emoção e sentimento que carrego dentro de mim.
Papel de carta
Aprendi a escrever cartas ao observar meu pai, ele costumava enviar missivas para seus amigos que moravam no interior do estado. Apesar da pouca instrução, fazia questão de ocasionalmente pegar bloco de papel especial “Copacabana”, sua caneta tinteiro “Oxford”, sentar-se à mesa da cozinha e, com uma letra quase desenhada graúda, soletrar enquanto escrevia, parecia que estava ditando para si mesmo. Eu, ainda pequenino, ficava admirado ao ver as palavras se formando aos poucos enquanto o ouvia soletrar lentamente cada uma delas, para mim era um momento cheio de magia e encantamento.
O velho Jonas mantinha contato com seus antigos parceiros de uma maneira toda especial, eles eram praticamente seus irmãos já que nunca teve um. Ele os conhecera durante a lida nas lavouras de café, trabalho que conseguiu após migrar de Caetité (Bahia) para Vera
Cruz (|SP), eram tratados por ele como camaradas pois, dividiram durante algum tempo as agruras do trabalho braçal na lavoura, as moradias instaladas na colônia, as histórias e aventuras do dia a dia, os nascimentos e as mortes dos integrantes daquele recanto marcado pelo trabalho árduo que gerava riqueza para nosso país.
Eu, menino curioso e atento, via meu pai sentar-se munido do bloco, cuja capa era muito bonita, o papel finíssimo quase transparente, a caneta cuja tinta era de um azul escuro vinda de um tinteiro de formato de hexágono, sempre começando com a data, mês e ano, em seguida vinha a frase que eu considerava a porta de entrada para todos os relatos, “Prezado senhor”, para logo em seguida na linha de baixo iniciar o relato perguntando como estavam indo as coisas e, depois contar como estavam indo a vida, os filhos e o trabalho. Me encantava ver também o envelope branco onde na frente era colocado o endereço do amigo e na
parte de trás, onde se lia remetente, o nome e o endereço de quem escreveu.
A resposta às vezes demorava já que a carta ia para uma caixa postal da agência de correio localizada na cidade e, posteriormente era retirada quando alguém vinha comprar algum item para casa, remédio ou defensivo para a lavoura, aproveitando o tempo para
pegar as cartas endereçadas aos moradores da colônia. Receber uma missiva era motivo de muita alegria para meu pai, assim como para seus amigos, através dela ficavam sabendo de quase tudo, principalmente do nascimento de filhos, mortes de companheiros,
colheitas e convites para visitas ou batizados.
Ainda me lembro das inúmeras vezes em que meu pai encomendou leitões para nossa ceia de Natal, o animal era colocado em um engradado de madeira e enviado através da estação ferroviária local em uma viagem que durava cerca de doze horas em um trem da
“Companhia Paulista”, depois conhecida como “Fepasa” que cortava a região noroeste do estado até chegar na bonita estação localizada em Santos, de lá era entregue de caminhão na porta de nossa casa. Quase sempre, eu era encarregado de colher capins para complementar a alimentação do animal, já que a quantidade de lavagem recebida era consumida
rapidamente.
Algumas vezes, recebíamos meio saco de sessenta quilos de amendoim com casca vindo da colheita anual, motivo minha mãe separar uma parte para nossa família e dividir o restante com suas irmãs e até com alguns vizinhos. Eu ficava ansioso ao ver o forno sendo aceso, a forma retangular forrada de grãos entrando no fogaréu para depois sentir o cheiro da torra e saborear
avidamente com um pouco de sal aquela delicia que quase queimava meus dedinhos de criança.
Para mim, aquelas cartas tinham o poder de alcançar um mundo mágico onde tudo era possível, assim aos dez ou onze anos, comecei a escrever para uma prima com a qual tinha alguns segredos. Ela morava em uma fazenda cujo endereço era bem complexo para ser
escrito, isto não me incomodava pois, mensalmente eu, munido do meu bloco de papel, meu envelope branco, sentava-se na cadeira de napa vermelha e pés cromados com uma caneta esferográfica na mão e desfilava uma série de notícias e perguntas, agindo como se estivéssemos frente a frente em uma conversa animada. Durante anos trocamos nossas confidências.
O hábito desencadeado por meu pai me fez gostar de tanto de cartas que passei a me corresponder também com empresas estrangeiras usando um inglês capenga para pedir materiais de divulgação como, catálogos, fotos, adesivos para colecionar ou trocar com amigos que tinham o mesmo hábito, foi assim que acabei tendo contato com o programa espacial americano e recebido muitos materiais e fotos de astronautas, foguetes, relatórios de missões em torno da Terra e de viagens à Lua. Através de um amiguinho consegui o endereço de uma esquadrilha de caças sediada no deserto de Nevada que era semelhante à nossa
“Esquadrilha da Fumaça”, foi chocante receber o envelope branco com meu nome escrito de maneira atrapalhada, talvez como recíproca pelo inglês manco que usei e ao abrir, me deparar com imagens de aviões supersônicos fazendo manobras sob um céu de um azul espetacular, formando desenhos de vários tipos, inclusive usando as cores da bandeira americana, para
um garoto no princípio da adolescência era o máximo sentir que tinha o poder de atravessar fronteiras com a força de um pedaço de papel e uma caneta.
Escrever cartas me tornou um assíduo frequentador das agências de correio, freguês inveterado da lojinha de armarinhos da dona Angelina, uma portuguesa de meia idade, muito gorda e simpática que me vendia dois tipos de envelopes, os brancos para envio por via marítima e os com borda verde e amarela para via aérea. A diferença ia além da cor, o envio marítimo levava cerca de três meses para ter retorno, o aéreo somente um mês.
O prazer de escrever era tão grande que passei a me corresponder com vários amigos e amigas do tempo de escola mensalmente, sempre tínhamos algo para comentar, assuntos para discutir, principalmente com as meninas, estas mais românticas, recebiam poemas, citações de livros como, “O pequeno príncipe”, “O lobo da estepe”, “O terceiro olho”, entre tantos, além de desenhos feitos por mim de maneira minimalista e caprichada, eu fazia meus próprios cartões de natal para enviar. Foi com o advento do CEP em meados dos anos setenta que tudo ficou mais fácil, me dando a chance de enviar e receber cartas em até vinte quatro horas, assim eu tinha chance de ir ao correio ou até mesmo comprar selos para utilizar as primeiras caixas de correio de cor amarela e azul escuro espalhadas pela cidade para exercitar minha verve de missivista. Escrevi milhares de cartas que cruzaram o estado de São Paulo, chegaram a outros locais e cidades, levaram fotos e notícias para muitos amigos e amigas, eram o meio de me comunicar com meus pais quando não tinham possibilidade de possuir um telefone fixo, foi através delas que troquei juras de amor com minha futura ex-esposa e com tantas outras mulheres que despertaram minhas paixões quando jovem. Foi através de cartas que mantive contato com meus filhos após a separação pois, morávamos em cidades distantes, nelas sempre contava histórias criadas com muito amor que geravam sentimento de proximidade, carinho e
atenção.
Tudo começou com meu pai, à ele minha eterna gratidão por um gestão tão simples, cheio de significado que me abriu um horizonte imenso de possibilidades de revelar muito do carrego na alma.




Sensacional!!!!👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Que história!!!!!
Também mandei muitas cartas, mas nada perto deste belo relato!!!
Linda história de vida, família. Amo cartas. Enviei muitas aos amigos usando os Correios. Também gostava de enviar postais das viagens que fazia e cartões de datas comemorativas. Tenho praticamente todas que recebi antes da chegada da tecnologia… Parabéns e sucessos sempre!
É interessante sua história eu também comecei tarde a publicação do meu livro, ainda tenho muitos a publicar, porém é fascinante o mundo dá escrita, parabéns.👏👏👏
Parabéns Djalma , foi ótimo ler seu texto, cheio de momentos de outrora. Veio em um dia muito bom, pois hoje em sala de aula a comentar com meus alunos sobre o Caminho de Santiago, percorrido por mim há 14 anos me emocionei, tal como agora. Um grande abraço.
Parabéns belo trabalho sucesso sempre
Querido Djalma, fiquei encantada com sua história e me emocionei quando lembrei-me que escrevia cartas a pedido da minha avó que era analfabeta para sua família que morava em Recife. Ela ditava e eu com capricho na letra escrevia com muito carinho. Sempre a primeira frase era: “Primeiro do que tudo, como você está?….”. Oh! Que lembrança boa! Obrigada por trazer-me a este momento.
Gostei de ler a sua história dentro e fora da literatura por mim és um guerreiro força aí mano
Olá, Djalma! Estou lendo.