SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA- ITAMAR ROTER

 

Ele é poeta, escritor, capista, colaborador de uma revista literária, também organiza coletâneas poéticas, mas por termos vindo antes da internet ao pensar neste texto de abertura o que me veio a mente foram os torneios de futebol Rio-São Paulo, sou do Estado do Rio de Janeiro, contudo, é bom deixar isto bem explicado: antigamente além da rivalidade, dos estádios com muito mais torcedores, alguém em algum momento começou a registrar lances das partidas de futebol no que veio a ser conhecido como Canal 100, paro por aqui. Assim como o canal transformava o futebol arte numa arte ainda mais atraente, o entrevistado, generosamente, abrilhantou com suas artes as capas de muitas das obras do Projeto Literário Palavras Sem Fronteiras. O Sem Fronteiras Entrevistas trás hoje: Itamar Roter…

 

 Renato Lannes Chagas: Estamos novamente em setembro e assim no fim do inverno. Aquela imagem, que tão bem retrata a passagem do tempo, para coletânea 1,2… Setembro! foi criada com facilidade?

Itamar Roter: Facilidade talvez seja uma palavra perigosa para quem trabalha com arte. Às vezes a imagem parece nascer pronta; outras vezes ela fica rondando a cabeça até encontrar o momento certo de existir. 1,2… Setembro tem uma alusão a data de meu aniversário, 12 de setembro, acredito que foi a primeira obra do Projeto Literário Palavras Sem Fronteiras que eu sugeri o nome e fiz a apresentação. A imagem me vem de vista de um ano todo, dose momentos diferentes, e talvez uma forma de brindar mais um ano de vida. A proposta de 1,2… Setembro! tinha justamente essa relação com o tempo, com a mudança de momentos, com aquilo que vai embora enquanto outra coisa começa. Então procurei transformar setembro não apenas em uma data no calendário, mas em uma sensação. A imagem acabou surgindo de maneira bastante natural. Quando existe uma conexão entre aquilo que o artista sente e aquilo que a obra pretende transmitir, o processo costuma fluir melhor.

 Renato Lannes Chagas: Você começou em qual das artes primeiro? Escrevendo ou desenhando? Escreve prosa e poesia?

Itamar Roter: Creio que comecei desenhando, nada artístico de apresentação, mas já recebia elogios de colegas. O desenho não veio primeiro que a poesia de forma publica, afinal aos 12 anos ganhei meu primeiro concurso de poesias. Todavia, talvez porque antes de aprender a apresentar certas coisas com palavras eu já tentava apresentá-las com imagens, uma porta se abriu primeiro que a outra. Pois veio a escrita e, com ela, a poesia. A poesia acabou encontrando um espaço muito particular dentro de mim. Gosto da liberdade dos versos, mas também gosto do desafio das formas mais tradicionais, como o soneto. Escrevo principalmente poesia, embora também tenha interesse pela prosa. Acho que, no fundo, não vejo essas linguagens como coisas separadas. Para mim, escrever e desenhar são maneiras diferentes de observar o mesmo mundo. Já me aventurei em contos e livros infantis, e agora venho trabalhando em meu primeiro romance/ficção.

Renato Lannes Chagas: Qual a importância da leitura para você enquanto escritor? Antes das participações nos livros do projeto você já tinha contato com a poesia contemporânea dos países falantes da língua portuguesa?

Itamar Roter: A leitura é uma espécie de combustível para quem escreve. Não acredito muito nesse escritor que se fecha em si mesmo e acha que só a própria experiência é suficiente. A gente escreve melhor quando também aprende a ouvir outras vozes.
A literatura portuguesa, brasileira e de outros países de língua portuguesa amplia muito essa percepção. São culturas diferentes dividindo uma língua e, ao mesmo tempo, mostrando que uma mesma palavra pode carregar histórias completamente diferentes. Participar do projeto também me aproximou de autores e perspectivas que talvez eu não encontrasse sozinho. E isso é uma das coisas mais interessantes da literatura: você começa escrevendo uma página e termina descobrindo um mundo inteiro.

 

Renato Lannes Chagas: Em agosto do ano passado suas obras estiveram expostas num Centro Cultural aqui na Cidade de Itaboraí, no Rio de Janeiro, qual foi a sua sensação?

Itamar Roter: Foi uma sensação muito especial, mesmo eu não tendo estado presente fisicamente no local. Saber que minhas obras estavam expostas em um Centro Cultural, em Itaboraí, no Rio de Janeiro, foi algo que me deixou muito feliz e, principalmente, muito grato.

Para um artista, existe algo emocionante em saber que uma obra que nasceu dentro da nossa imaginação, que passou pelas nossas mãos e que talvez tenha começado apenas como uma ideia, agora está ocupando um espaço público e sendo vista por outras pessoas. Mesmo não estando ali para acompanhar de perto, eu consegui imaginar aquela cena e confesso que senti uma satisfação enorme. A arte tem esse poder curioso de viajar sem o artista. A obra vai, encontra outras pessoas, desperta interpretações, provoca sentimentos e continua sua trajetória. De certa maneira, é como se uma pequena parte de nós pudesse chegar a lugares onde nem sempre conseguimos estar pessoalmente. Mas eu não posso falar dessa experiência sem falar do Renato. Na verdade, acho que essa é a parte mais importante da minha resposta. Renato, eu sou muito grato a você. Talvez você nem tenha dimensão do quanto suas iniciativas e, principalmente, a confiança que deposita nos artistas significam. Você não apenas organiza livros. Você abre portas. Você cria oportunidades, aproxima pessoas e dá visibilidade para trabalhos que poderiam permanecer restritos ao nosso círculo pessoal. E, no meu caso, teve ainda a generosidade de enxergar em mim não apenas o poeta, mas também o artista plástico, permitindo que minhas imagens fizessem parte desse universo que você vem construindo. Isso para mim tem um valor que vai muito além de uma publicação ou de uma exposição. É uma forma de incentivo. É alguém dizendo, através de uma oportunidade: “Eu vejo valor no que você faz.” E todo artista precisa, em algum momento, encontrar alguém que acredite nele. Por isso, quando penso naquela exposição em Itaboraí, não penso apenas nas minhas obras ocupando um espaço cultural. Penso na oportunidade que você me proporcionou e na confiança que colocou no meu trabalho. E é por isso que minha sensação é, acima de tudo, de gratidão. Obrigado, Renato, pela parceria, pela confiança e por esse olhar generoso para a arte e para os artistas. Ter meu trabalho fazendo parte de algo que você idealizou e construiu é, para mim, motivo de orgulho. E espero continuar retribuindo essa confiança da melhor maneira que sei: criando.

Renato Lannes Chagas: Pessoalmente sempre serei grato pelas suas participações nas duas artes (plástica e poética) nos livros deste projeto, para você qual a importância de uma iniciativa como esta?

Itamar Roter: Eu fico muito feliz com suas palavras, Renato, mas quero inverter um pouco essa gratidão: eu também sou muito grato a você. Às vezes quem está organizando um projeto não percebe a quantidade de pessoas que ele acaba alcançando. Uma iniciativa literária
pode parecer, inicialmente, apenas um livro. Mas por trás daquele livro existem encontros, amizades, oportunidades e histórias que continuam depois que a publicação é lançada. O Palavras Sem Fronteiras tem justamente esse mérito. Ele não fica preso a uma única voz. Ele abre espaço. E para um artista, ser convidado a participar de algo assim é importante. Não apenas pela publicação em si, mas pela sensação de pertencimento. Você percebe que aquilo que produz tem espaço e pode dialogar com outras pessoas. Então, Renato, se você me permite dizer: muito obrigado também a você. Obrigado por confiar no meu trabalho, por me permitir participar e por manter esse projeto vivo. Tenho muito orgulho de ter colocado um pouco da minha arte nessas páginas e claro que também com minhas singelas participações poéticas.
 Renato Lannes Chagas: Há quem pense que tudo precisa estar voltado para o pilar central deste sistema (o lucro), todavia você, gratuitamente contribuiu e muito para o desenvolvimento de um projeto que não é voltado para fazer dinheiro. Isto, na sua opinião, diminui a importância dessas obras?

Itamar Roter: Não. Talvez aconteça justamente o contrário.Eu não tenho nada contra o dinheiro. O artista precisa viver e é perfeitamente legítimo que seu trabalho seja valorizado financeiramente. Mas acredito que existem valores que não cabem em uma conta bancária. Nem tudo que é importante precisa gerar lucro. Uma poesia pode tocar alguém. Uma ilustração pode despertar uma lembrança. Um livro pode aproximar duas pessoas. Uma coletânea pode registrar a existência de escritores que, de outra maneira, talvez permanecessem desconhecidos. Isso também é riqueza. E talvez uma das coisas mais bonitas desse projeto seja justamente essa disposição de fazer algo porque se acredita naquilo. Eu participei gratuitamente porque acredito na literatura, na arte e na possibilidade de construir alguma coisa junto com outras pessoas. Se dependêssemos sempre do retorno financeiro para criar, muita coisa bonita jamais existiria.

 Renato Lannes Chagas: Este ano tenho acompanhado um urso motoqueiro, feito um personagem de história em quadrinhos. Há quanto tempo é piloto de duas rodas? Pilotar é também uma paixão? E como tem sido a recepção ao urso?

Itamar Roter: A motocicleta é uma paixão que já faz parte da minha vida há bastante tempo. Para mim, andar de moto é muito mais do que simplesmente sair de um lugar e chegar a outro. Tem a estrada, o vento, a liberdade, aquela sensação gostosa de colocar o capacete e deixar um pouco os problemas para trás. Quem é motociclista sabe exatamente do que estou falando. É uma paixão difícil de explicar para quem nunca viveu isso.E foi justamente dessa paixão por motos, misturada com o meu gosto pelo desenho e pela brincadeira, que nasceu o Irso, o nosso urso motociclista. E digo “nosso” porque ele começou muito mais como uma brincadeira com os amigos, principalmente com os amigos motociclistas. A ideia inicial nem era criar um personagem com grandes pretensões. Era simplesmente me divertir, fazer uma coisa diferente, provocar os amigos, brincar com situações que fazem parte do universo das motos e colocar um pouco de humor nisso tudo. Só que o Irso começou a ganhar personalidade. E aí a brincadeira foi ficando séria… ou melhor, o Irso foi ficando sério, porque eu continuo brincando! (risos)

Comecei a perceber que as pessoas estavam gostando do personagem, comentando, compartilhando e até esperando para ver qual seria a próxima aventura daquele urso. E isso foi muito legal, porque uma coisa que nasceu para divertir um grupo de amigos acabou alcançando outras pessoas. A recepção tem sido muito boa e isso me deixou bastante empolgado. O mais divertido é justamente poder continuar inventando situações para o Irso. Ele pode ser um motociclista, um personagem de história em quadrinhos, um sujeito metido em alguma confusão ou simplesmente aquele amigo que aparece para fazer uma piada. No fundo, acho que o Irso tem muito dessa nossa cultura de motociclista: amizade, companheirismo, histórias de estrada e aquela capacidade que nós temos de transformar qualquer parada para tomar um café em uma conversa de horas. E talvez seja essa a maior graça do personagem. Ele não nasceu de um projeto comercial ou de uma estratégia.

Nasceu de uma vontade de brincar, desenhar e compartilhar alegria com os amigos.

 Renato Lannes Chagas: Você tem algum gênero literário preferido? Dentro da poesia você é um dos que gostam de escrever sonetos, versos livres, quando começou com os sonetos?Itamar Roter: Tenho uma relação muito forte com a poesia, mas não gosto de ficar preso a um único formato. Gosto do verso livre porque ele permite respirar. Mas gosto muito do soneto justamente pelo contrário: ele impõe limites. E curiosamente, às vezes, é dentro do limite que a criatividade fica mais interessante. O soneto exige disciplina, ritmo, escolha de palavras e uma arquitetura própria. É quase como construir uma casa pequena onde você precisa aproveitar cada espaço. Comecei a me aproximar mais dos sonetos quando percebi que queria não apenas dizer alguma coisa, mas também brincar com a forma de dizer.

 Renato Lannes Chagas: Você, deve ter sido um leitor regular ou daqueles que gostam de ler, continua lendo e vai ler até quando a saúde permitir. Você leu para os seus filhos e lê para os seus netos? Desenha com eles?

Itamar Roter: Eu gosto de pensar que a leitura não é uma fase da vida. É uma companhia. Enquanto houver curiosidade, existe motivo para continuar lendo. E talvez essa seja uma das maiores virtudes da literatura: ela nos permite continuar descobrindo coisas mesmo quando achamos que já vimos quase tudo. Ler para os filhos e para os netos também tem outro significado. Não é apenas transmitir uma história. É compartilhar um momento. E desenhar com uma criança é ainda mais interessante, porque ela não está preocupada se o desenho ficou bonito. Ela simplesmente desenha. Talvez nós, adultos, devêssemos aprender um pouco disso.

 Renato Lannes Chagas: Deixe a citação de uma ou duas obras da literatura universal ou brasileiro para o leitor. Deixe os links de livros seus à venda, página da internet, caso possua ou algum local onde suas artes possam ser admiradas pelos leitores.

Itamar Roter: Se eu tivesse que indicar duas obras que considero fundamentais, escolheria Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.

Grande Sertão: Veredas é uma obra que, para mim, demonstra de maneira extraordinária a força da literatura brasileira. Guimarães Rosa não utiliza a linguagem apenas para contar uma história; ele transforma a própria linguagem em parte essencial da obra. É um livro que exige do leitor atenção, mas que também recompensa essa atenção com uma riqueza enorme de pensamentos, imagens e reflexões sobre a existência humana, o bem, o mal, o amor, a coragem e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Já O Pequeno Príncipe pode parecer, à primeira vista, uma leitura simples, mas considero justamente essa aparente simplicidade uma de suas maiores qualidades. É uma obra que pode ser lida na infância, mas que talvez seja compreendida de maneira muito mais profunda quando chegamos à maturidade. Algumas histórias mudam porque nós mudamos. Aquilo que parecia apenas uma narrativa passa a carregar outros significados conforme acumulamos experiências. São duas obras muito diferentes entre si, mas que têm algo em comum: ambas mostram que a literatura pode ultrapassar a história que está sendo contada. Um bom livro não termina necessariamente quando chegamos à última página. Ele continua dentro de nós, provocando pensamentos, lembranças e perguntas. E talvez essa seja, para mim, uma das maiores razões para continuarmos lendo: há livros que nos contam uma história e há livros que, de alguma maneira, acabam contando também um pouco da nossa própria história.

 

3 thoughts on “SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA- ITAMAR ROTER

  1. Mais uma vez agradeço a parceria com o Johnny Ribeiro e o site Poesias e Cartas por estar sendo o veículo onde estas pessoas têm aparecido.
    Gratidão ao Itamar Roter por ter me concedido esta entrevista e deixar registrado para todos nós todo este conteúdo.
    Gratidão🙏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼🤝🏼🤝🏼🤝🏼🤝🏼

  2. Foi um prazer responder cada pergunta e participar da revista, ninguém sabe quem alcança ou nunca alcançará, mas existir em marcos como uma entrevista, abre o leque de ser antes do artista.

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