Alô, alô, meus queridos ouvintes!
Está começando mais um programa Dr. Love, o único programa de rádio onde você entra com um problema amoroso e sai com dois: o problema que já tinha e a dúvida se deveria ter contado para o Dr. Love!
Aqui a gente fala de amor, casamento, traição, dinheiro, sogra, vizinha, cartão de crédito, boletos e daquela pergunta que atormenta a humanidade:
Por que, quando finalmente parece que tudo vai dar certo, alguma coisa resolve dar errado?
Pois é…
Hoje o assunto é sério.
Ou quase.
Porque o tema do programa de hoje é:
A BRUXA ESTÁ SOLTA!
Mas antes de começarmos, eu quero avisar uma coisa.
Se você está passando por uma fase maravilhosa, não se preocupe
A vida já está preparando alguma coisa.
Você ainda não sabe o que é.
Mas ela sabe.
Pode ser uma conta.
Uma dor nas costas.
Uma multa.
Uma infiltração no banheiro.
Ou aquela mensagem:
“Amor, precisamos conversar.”
Essa frase, meus amigos, deveria vir acompanhada de desfibrilador.
Porque ninguém manda “precisamos conversar” para dizer:
— Amor, comprei um bolo para você.
Normalmente é alguma coisa entre:
— Precisamos conversar.
E:
— Você lembra daquela sua amiga que você disse que era só amiga?
Mas vamos devagar.
QUANDO A VIDA COMEÇA A DAR CERTO
Você passa meses apertado.
Economiza.
Corta as despesas.
Deixa de sair.
Troca o restaurante pela marmita.
Troca a cerveja pelo cafezinho.
E, de repente, chega aquele dinheiro inesperado. 
Um abono.
Uma gratificação.
Um dinheiro que você nem estava contando.
Você abre o aplicativo do banco e pensa:
— Agora eu respiro!
Respira mesmo.
Dois dias depois, começa uma dor estranha.
Você pensa:
“Deve ser postura.”
No terceiro dia, já está pesquisando no Google se dor no peito pode ser excesso de preocupação.
No quarto, está no consultório.
Consulta. Exame. Retorno. Medicamento.
E pronto.
O abono que chegou para salvar o mês foi promovido a patrocinador oficial da indústria farmacêutica.
E você ainda olha para o extrato bancário e pensa:
— Mas eu nem comprei nada!
Não comprou.
Seu corpo comprou.
Sem consultar você.
TOCA O TELEFONE
Alô?
Sim…
Quem está falando?
Ah, é a dona Maria?
Pode falar, dona Maria.
Como?
Seu marido recebeu um aumento e, duas semanas depois, apareceu uma despesa inesperada?Minha senhora…
Isso não é azar.
Isso é casamento.
E falando em casamento…
AGORA ESQUEÇA A BRUXA…
Vamos falar de outra coisa.
O casamento.
Porque eu também sou casado.
E tenho esposa.
Então, por experiência própria, eu posso afirmar:
casamento é maravilhoso.
Principalmente quando os dois estão dormindo.
Mas existe uma coisa curiosa
Quando o relacionamento está ruim, tudo parece contribuir para piorar.
Você já está brigando com sua esposa.
Aí quebra alguma coisa em casa.
O cartão fica vermelho.
A escola do filho aumenta.
A viagem de fim de ano precisa ser cancelada.
O carro apresenta problema.
E você começa a pensar:
— Não é possível! Parece que o universo está contra mim!
Não está
O universo só não tem boleto para pagar.
Quem tem somos nós.
E o cartão de crédito, esse sim, é uma entidade sobrenatural.
Você compra uma coisa hoje e só vai descobrir o tamanho do arrependimento daqui a quarenta dias.
O cartão é o único objeto que consegue transformar uma alegria de segunda-feira em uma crise existencial na sexta.
E agora, uma mensagem importante aos nossos ouvintes:
Está cansado de gastar dinheiro com coisas que não precisava?
Apresentamos o novo Cartão Dr. Love!
Com ele você pode comprar:
– Presentes para pedir desculpas;
– Flores para justificar o atraso;
– Jantar para compensar uma discussão;
– E até aquela roupa que você comprou escondido.
Mas atenção!
O Cartão Dr. Love possui uma tecnologia revolucionária:
ele não perdoa.
A fatura chega.
Com juros.
Taxas.
E lembranças.
Porque toda compra parcelada vem acompanhada de uma pequena frase:
“Eu não acredito que fiz isso.”
Cartão Dr. Love.
Seu amor pode até ser eterno.
Mas as parcelas também.
A TENTAÇÃO
Agora vamos falar de uma coisa delicada.
Porque a bruxa não aparece somente quando a vida está ruim.
Às vezes ela aparece quando está tudo bem.
Você está casado há quinze anos.
O relacionamento está tranquilo.
Vocês têm problemas, claro.
Todo casamento tem.
Mas existe respeito.
Companheirismo.
Uma rotina.
E você pensa:
— Finalmente encontrei paz.
É justamente aí que aparece a vizinha
E, por algum motivo misterioso, ela começa a sorrir para você.
Não é um sorriso comum.
É aquele sorriso que o cérebro masculino interpreta como:
“Existe uma possibilidade.”
Quando, na verdade, pode significar apenas:
“Bom dia.”
Mas o homem apaixonado pela própria imaginação já construiu uma novela inteira.
E tem também a secretária.
Aquela pessoa que sabe quando você chega.
Sabe como você toma café.
Percebe que você cortou o cabelo.
E ainda diz:
— Você está diferente hoje.
Pronto.
O cidadão passa o resto do dia tentando descobrir o que está diferente.
A camisa?
O perfume?
O cabelo?
A alma?
Não
Provavelmente nada
Mas o ego masculino é uma criança carente usando sapato social.
E é aí que mora o perigo.
Porque muitas vezes a tentação não aparece porque o relacionamento está ruim.
Ela aparece porque a novidade tem uma característica maravilhosa:
ela ainda não apresentou os defeitos
A vizinha parece perfeita porque você ainda não descobriu que ela deixa a toalha molhada na cama.
A secretária parece encantadora porque você ainda não sabe que ela reclama de tudo.
A paixão é barata porque ainda não chegou a conta.
E é por isso que muita gente confunde desejo com amor.
Desejo é o trailer.
Amor é o filme inteiro.
E o filme tem boleto, mau humor, dor de cabeça, TPM, ronco, sogra, filhos e discussão sobre quem deixou a luz acesa.
TELEFONE DO OUVINTE
Vamos atender mais uma ligação.
Alô!
Quem fala?
Paulo?
Pode falar, Paulo.
Como?
Você está apaixonado pela vizinha?
Mas você é casado!
Ah…
Sua esposa também conhece a vizinha?
Então você não está apaixonado pela vizinha.
Você está com medo da sua esposa.
Meu amigo, preserve seu casamento.
E, principalmente, preserve seu patrimônio.
Porque divórcio é a única situação em que você consegue perder a mulher, a casa, metade dos bens e ainda continuar pagando a escola das crianças.
QUANDO A CABEÇA COMEÇA A TRABALHAR CONTRA NÓS
Existe uma coisa interessante na psicologia humana.
Quando alguma coisa dá errado, nosso cérebro começa a procurar outras coisas erradas.
Você perde dinheiro
Depois quebra alguma coisa.
Depois briga com alguém.
Depois recebe uma conta.
E pronto:
— Minha vida está uma desgraça!
Mas talvez não esteja.
Talvez você só esteja prestando mais atenção no que deu errado.
Nós somos assim.
A felicidade acontece e passa.
O problema acontece e ganha residência fixa na nossa cabeça
Você recebe dez elogios e lembra daquele único comentário desagradável.
Faz tudo certo durante uma semana e fica remoendo uma coisa que deu errado.
O cérebro humano é um contador estranho.
Registra prejuízo em tinta permanente.
E felicidade em lápis.
Por isso, quando a bruxa aparecer, não entregue a ela o controle remoto da sua cabeça
Porque se você deixar, ela começa com uma conta atrasada e termina dizendo que sua vida inteira foi um fracasso.
E atenção!
Se você está ouvindo este programa e hoje alguma coisa deu errado…
Ligue para a rádio!
Peça uma música alegre.
Qualquer uma.
Pode ser samba.
Pode ser sertanejo.
Pode ser pagode.
Pode ser até aquela música que você odeia.
Mas peça.
Porque, às vezes, quando a tristeza chega, a gente precisa confundir a bruxa.
Ela espera encontrar você chorando
E encontra você dançando.
Isso deixa a bruxa sem saber o que fazer.
Porque a vida é isso.
Uma sucessão de coisas que não pediram nossa autorização para acontecer.
Você pode planejar.
Pode economizar.
Pode cuidar.
Pode amar.
Pode ser fiel.
Pode fazer tudo certo.
E ainda assim alguma coisa vai sair do lugar.
O carro quebra.
O dinheiro acaba.
O filho adoece.
A viagem é cancelada.
O relacionamento atravessa uma crise.
A conta chega.
A geladeira faz barulho.
O cachorro fica doente.
A sogra liga.
E você pensa:
“A bruxa está solta.”
Talvez esteja.
Mas talvez seja apenas a vida sendo vida.
Porque nós queremos controlar tudo.
Queremos garantia.
Queremos previsibilidade.
Queremos fazer tudo certo e receber, em troca, uma existência sem surpresas.Só que a vida não assinou esse contrato.
Ela não prometeu que quem economiza não terá despesas.
Não prometeu que quem ama nunca será tentado.
Não prometeu que quem trabalha duro nunca terá dificuldades.
E não prometeu que depois de uma coisa boa virá outra coisa boa.
A única coisa que a vida parece garantir é que alguma coisa vai acontecer
E talvez maturidade seja justamente aprender a não transformar cada acontecimento em uma sentença.
O carro quebrou?
Conserta.
O dinheiro apertou?
Organiza.
O casamento está ruim?
Conversa.
Apareceu uma tentação?
Lembra por que você escolheu ficar.
A viagem foi cancelada?
Planeja outra.
O cartão estourou?
Guarda o cartão.
Pelo amor de Deus!
Guarda o cartão!
E se tudo estiver dando certo…
Não fique aí esperando a tragédia.
Aproveite.
Agradeça.
Viva.
Porque talvez a bruxa nem esteja solta.
Talvez ela esteja apenas esperando você terminar de reclamar para perguntar:
“E aí? Vai continuar vivendo ou vai ficar esperando alguma coisa dar errado?”
DESPEDIDA
E assim termina mais um programa Dr. Love.
Hoje aprendemos que a vida não é uma sequência de dias bons.
Nem de dias ruins.
É uma mistura.
Um pouco de amor.
Um pouco de boleto.
Um pouco de esperança.
Um pouco de preocupação.
Uma conta paga.
Outra chegando.
Um abraço.
Uma discussão.
Uma vitória.
Um susto.
E, de vez em quando…
uma bruxa.
Mas se ela aparecer…
Não dê conversa.
Coloque uma música alegre.
Dance.
Dê risada.
Abrace quem você ama.
E, principalmente, não tome nenhuma decisão importante depois da meia-noite.
Principalmente se houver álcool, saudade ou uma mensagem da vizinha envolvida.
Eu sou o Dr. Love.
E deixo para vocês a receita de hoje:
Quando a vida apertar, não aperte o botão do desespero.
Respire.
Olhe ao redor.
Talvez esteja tudo menos pior do que parece.
E se não estiver…
Amanhã a gente resolve.
Porque hoje…
a rádio está no ar.





