Feliz Ano Novo, ou de Novo?
A contagem regressiva para a virada do ano carrega em si uma espécie de magia coletiva. Dez, nove, oito, sete, seis… e assim o tempo parece tomar um novo fôlego. No primeiro segundo de um ano novo, brindamos, abraçamos, rezamos, vestimos branco, desejamos o melhor e, principalmente, prometemos. Prometemos mudar, recomeçar, estudar mais, trabalhar menos, rever os amigos de infância, aquele parente distante, ser melhores. Mas, à medida que os dias passam, muitas dessas promessas se dissolvem na rotina, como espuma de champanhe. Por quê? Estamos prometendo demais ou cumprindo de menos?
Na virada do ano, somos capturados por um sentimento de renovação. As redes sociais nos inundam de mensagens inspiradoras, a mídia reforça a ideia de um ciclo novinho em folha, pronto para ser escrito. Psicologicamente, essa é uma estratégia poderosa. Chamamos isso de “efeito do recomeço”: a crença de que uma nova fase traz consigo uma oportunidade única de transformar nossos hábitos e metas. Mas, junto a essa esperança, carregamos o peso cultural de expectativas quase inalcançáveis.
Prometemos muito porque somos movidos pelo otimismo ilusório, um viés psicológico que nos faz superestimar nossa capacidade de realização. Achamos que vamos finalmente entrar na academia, perder peso, economizar mais dinheiro, passar mais tempo com a família, ler um livro, plantar uma árvore, comer melhor, parar de fumar, de beber. Alguns até prometem ir ao psicólogo. A data carrega uma aura simbólica de redenção, como se todos os erros pudessem ser apagados com uma simples mudança no calendário. É reconfortante pensar que um novo ano nos torna, automaticamente, novos também. Quase super-heróis, com o poder de fazer nos próximos 365 dias, tudo o que não fizemos em uma vida.
Mas a realidade é bem diferente. As promessas de Ano Novo raramente sobrevivem à pressão da rotina. Um dos principais motivos é a falta de planejamento realista. Nossas metas são tão vagas quanto grandiosas: “ser mais saudável”, “ter mais tempo para mim”, “ficar rico”, “viajar pelo mundo”. Sem passos concretos, essas metas se tornam nuvens passageiras. Por que não, só ensinar um filho a andar de bicicleta, passear com o cachorro, dar bom dia ao vizinho, comer uma fruta por dia ou usar protetor solar.
Outro ponto é o viés de confirmação: procuramos justificar nosso fracasso dizendo que o mundo é que é muito difícil, que o tempo é curto, que não foi culpa nossa. Isso ocorre porque, em vez de reconhecermos nossas limitações ou repensarmos nossas estratégias, procuramos explicações externas para aliviar o desalento de não realizar o que prometemos. Essa tendência a culpar tudo e todos, como a falta de tempo ou as circunstâncias desafiadoras, nos impede de assumir a responsabilidade pelas mudanças que desejamos e, consequentemente, de encontrar formas de superá-las.
Culturalmente, o Ano Novo é um ritual de transição. Ele funciona como um marcador do tempo, dando sentido à passagem das nossas vidas. Para muitos, é também uma forma de resistir ao peso do cotidiano. Afinal, acreditar em recomeços é uma maneira de manter a esperança viva. E isso não é de todo ruim. Mas é importante lembrar que as transformações reais acontecem na constância dos pequenos gestos, e não no impacto das grandes resoluções. Como já dizia meu avô: “Quem promete, em dívida se mete”, “Mais vale não prometer do que prometer e faltar”. Lembre-se, que é de grão em grão que a galinha enche o papo. Isso significa que as promessas devem ser cumpridas, pois as dívidas não cumpridas podem fazer com que as pessoas pareçam incompetentes, ineficientes e desleixadas.
Talvez seja hora de reavaliar a forma como encaramos essa data. Em vez de prometer mudanças radicais, que tal focar em ajustes pequenos, mas sustentáveis? Você não precisa bater ponto em nenhum lugar para que o dia tenha valor, comprar uma passagem para começar algo novo ou bater um recorde para se sentir realizado. Em vez de traçar metas que dependam de condições externas, como mudanças no trabalho ou a aprovação dos outros, que tal escolher aquelas que estão sob nosso controle, como acordar cinco minutos mais cedo para alongar o corpo ou reservar um momento para apreciar a natureza? O Ano Novo é um convite para repensar, mas não precisa ser uma obrigação; ele pode ser um sussurro gentil para cuidarmos um pouco mais de nós mesmos, com passos simples, como beber mais água, sorrir para alguém ou simplesmente respirar fundo e viver o momento presente.
E assim, quando a contagem regressiva terminar. Cinco, quatro, três, dois, um. Talvez possamos brindar não apenas ao que desejamos, mas ao que estamos dispostos a construir. Feliz Ano Novo, ou talvez, apenas um novo dia para fazer um pouco mais do que ontem — sem pressa, mas com vontade. Afinal, a vida é mesmo feita de pequenos ciclos dentro do grande ciclo do tempo.
Até o próximo giro!
Carlos Lopes
CRP 04/49834
CICLOS DO AGORA
Dez, nove, oito, sete,
o tempo respira, renasce, promete.
No brilho efêmero do champanhe, brindamos,
abraços e sonhos em palavras voamos.
Prometemos mudar, ser mais, ser além,
mas será que sabemos o peso que isso tem?
A espuma da promessa na rotina se dissolve,
como se o novo, no velho, logo se envolve.
Vestimos branco, pedimos perdão,
mas esquecemos que ação vale mais que intenção.
Um “bom dia” ao vizinho, um momento no jardim,
vale tanto quanto planos que nunca têm início, nem fim.
Nas redes, mensagens de inspiração,
mas será o recomeço fruto da ilusão?
Achamos que o calendário tudo apaga,
mas sem passos reais, a esperança esmaga.
E se, em vez de um salto, dermos um passo?
Se a mudança vier no gesto mais escasso?
Ensinar uma criança a pedalar,
ou simplesmente ao espelho se olhar.
Seis, cinco, quatro, três, dois, um,
o novo ano começa, ou o mesmo comum?
Talvez, em vez de metas inalcançáveis,
sonhemos com gestos reais, palpáveis.
Não é preciso passagem ou recorde a bater,
basta respirar, olhar, e o presente viver.
Porque a vida não é feita de grandezas repentinas,
mas de pequenos ciclos, sementes divinas.
Então, feliz ano novo, sem mais demora,
O tempo é eterno, mas a chance é agora.
Que o novo traga vontade e não obrigação,
pois é no simples que mora a transformação.
Carlos Lopes, 31/12/2024
Parabéns pelo lindo poema! Mensagem mais que precisa para que saibamos que só temos o agora pra construir a nossa história. Paz e Luz pra ti!!!
Muito obrigado Lucia Ferraz. Um grande abraço.
Que bom participar desta, divulgando nossas Poesias, Poemas e contos inenditos!