A VIOLÊNCIA CONTRA A MEMÓRIA por Luis Augusto do Carmo
Há roubos que doem mais do que o prejuízo material, doem porque são feridas abertas na memória coletiva. O assalto ao Museu do Estado, uma das instituições culturais mais relevantes do país, ultrapassa os limites da violência urbana e atinge aquilo que nos constitui enquanto nação: nossos acervos, nossas histórias, nossa capacidade de preservar o que somos.
Na manhã de domingo, 7 de dezembro, dois homens armados entraram no museu como quem invade um templo, não para se nutrir de beleza ou conhecimento, mas para violá-lo. Renderam funcionários, cruzaram salões históricos e fugiram levando gravuras de Candido Portinari e Henri Matisse, nomes que representam parte essencial do patrimônio artístico da humanidade. Foram subtraídas cinco gravuras da série Menino de Engenho, de Portinari, e oito gravuras de Matisse. Uma violência silenciosa, planejada e precisa.
Não é um episódio isolado. Portinari já havia sido alvo em 2007, quando obras suas foram roubadas do Masp. Mas há algo de ainda mais simbólico e devastador quando o ataque acontece dentro de um museu público, um espaço que existe para ser aberto, democrático e formador. Com mais de um século de história, o Museu do Estado se tornou um ponto de encontro, estudo e fruição cultural. Todos os anos, milhares de pessoas entram pelaquelas portas em busca de arte. No domingo, entraram também aqueles que só reconhecem valor quando podem vendê-lo.
As autoridades afirmam que havia câmeras, vigilância e seguro. O poder público diz que os suspeitos foram identificados e que as buscas estão em andamento. A engrenagem institucional tenta funcionar. Mas a questão central ultrapassa a esfera policial e escancara uma vulnerabilidade estrutural: como obras dessa importância continuam tão expostas em um país onde o patrimônio cultural sempre foi tratado com descaso? Como conciliar a necessária abertura dos equipamentos culturais com a segurança mínima para preservar o que pertence ao povo?
A cultura brasileira convive há décadas com negligência, sucateamento e descontinuidade de políticas públicas. Quando não é atingida por cortes orçamentários, é ferida pela própria realidade violenta que atravessa o país. O roubo dessas gravuras é mais um capítulo de uma longa história de abandono institucional, somado à falta de uma política nacional robusta de preservação e segurança de acervos.Portinari, que pintou o Brasil dos trabalhadores e da infância pobre, certamente não imaginaria suas imagens sendo carregadas em fuga apressada pelas escadas de um museu. Matisse, com suas cores vibrantes, também não caberia nesse cenário cinzento de crime rápido.
O que foi levado não são apenas obras de arte. É um fragmento da nossa história.
E quando a história é arrancada das paredes, o país se torna menor.Que as obras sejam recuperadas. Que os responsáveis sejam punidos. Mas, acima de tudo, que o Brasil finalmente aprenda a proteger aquilo que é seu. Porque quem rouba arte não leva apenas objetos. Leva também o futuro.


