Entre Linhas- Crônica esportiva-O apito, a cegueira e o crime do Morumbis

O apito, a cegueira e o crime do Morumbis
por Luis Alladin Bambá

Há jogos que não terminam com o apito final. Ficam presos na garganta do torcedor, como se o grito de gol tivesse sido arrancado à força. O clássico entre São Paulo e Palmeiras foi um desses. Não foi um jogo: foi um ritual de injustiça, uma cerimônia da vergonha. O Morumbis estava cheio, o São Paulo voava em campo, o torcedor acreditava, e a arbitragem decidiu que acreditar, no Brasil, ainda é um pecado.
O primeiro tempo foi um hino à bola. O São Paulo jogou com a nobreza de quem ainda acredita no futebol como arte e não como produto. Luciano abriu o placar com categoria, Tapia ampliou com alma, e o estádio rugiu como se o tempo voltasse à era dos ídolos de mármore e chuteira suja. O Palmeiras parecia pequeno, assustado, e por um instante o futebol foi justo. Mas justiça, no Brasil, é sempre provisória. O segundo tempo começou e, com ele, veio o colapso da razão.
Aos sete minutos, Tapia foi derrubado dentro da área. Pênalti escandaloso. Até o cego de Nelson Rodrigues, aquele que enxergava o invisível, veria o empurrão. Mas o árbitro Ramon Abatti Abel não viu. Ou fingiu não ver, o que é pior. O VAR, essa promessa tecnológica de redenção, preferiu o silêncio. Nenhum chamado, nenhuma revisão, nenhuma coragem. O São Paulo poderia fazer o terceiro gol e encerrar o jogo, mas o jogo já estava decidido, não pelo talento, mas pela conveniência.
O futebol brasileiro tem um velho vício: ele sempre ajoelha diante do poder. O Palmeiras, gigante dentro e fora de campo, virou símbolo dessa influência. E a arbitragem, covarde e seletiva, fez questão de lembrá-lo. Soladas ignoradas, cotoveladas invisíveis, faltas não marcadas, o manual completo da impunidade. E, no meio do caos, o São Paulo, valente, ainda tentou resistir. Mas resistir contra o apito é como soprar contra o vento: inútil, mas necessário.
Quando o árbitro apitou o fim, o que havia em campo não era um vencedor e um vencido, era uma encenação de derrota. O Morumbis inteiro sabia que o jogo tinha sido roubado, não apenas no placar, mas na essência. O São Paulo perdeu dois pontos e ganhou um trauma. E o futebol perdeu, mais uma vez, o pouco de credibilidade que lhe restava. Porque quando o erro deixa de ser acidente e vira método, o esporte deixa de ser jogo e passa a ser teatro.
Depois, na súmula, o árbitro registrou as palavras indignadas dos dirigentes tricolores — “Filma ele! Filma a vergonha aí!”. Como se a vergonha estivesse no protesto e não no que o provocou. Mas é assim que o sistema se protege: transformando indignação em infração, e covardia em protocolo. A CBF promete investigar, mas o torcedor já aprendeu: no futebol brasileiro, o inquérito é sempre mais longo que a memória.
O São Paulo jogou bola, o Palmeiras jogou com a sorte, e a arbitragem jogou fora o respeito. O resultado foi o que sempre é quando a balança pende para o lado dos poderosos: o injusto venceu. Mas, paradoxalmente, o torcedor são-paulino saiu maior. Porque há derrotas que inflamam mais do que vitórias mornas. E porque o verdadeiro amor pelo futebol não nasce do título, mas da revolta.
Nos túneis do Morumbis, uma frase ecoou entre as sombras: “O VAR não veio.” E talvez nunca venha mesmo. Porque a justiça, no futebol brasileiro, ainda é ficção, e das mal escritas.

2 thoughts on “Entre Linhas- Crônica esportiva-O apito, a cegueira e o crime do Morumbis

  1. Uma vergonha perpetrada em nome da força, não o futebol – força tão propalado nos anos setenta do século passado, mas a força da grana que ergue e destrói coisas belas, parafraseando a célebre canção de Caetano.
    O futebol se apequenou e se ajoelhou perante as Crefisas da vida. Triste sina, eu que não torço para nenhum dos times senti vergonha… Lamentável!

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