Onde o Vento Não Passa: Dez Anos do Desastre em Mariana

Por Jacilene Arruda – Mariana, MG

O calor é insuportável. Quarenta graus sob um céu que parece pesar sobre a pele. O ar não se move. Não há vento, não há alívio. Só o silêncio — espesso, denso, quase sólido. Um silêncio que não é ausência de som, mas excesso de dor.

Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), o cenário ainda carrega marcas profundas. A terra, coberta por rejeitos químicos, parece uma ferida aberta que nunca cicatriza. Cada passo levanta poeira e memória. Não há vegetação que resista, não há água que brote. A única água que chega vem em caminhão-pipa, como se até ela tivesse desistido de nascer ali.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que aconteceu

Em 5 de novembro de 2015, por volta das 15h30, a barragem de Fundão — operada pela mineradora Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton — se rompeu. Cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração foram liberados, soterrando o distrito de Bento Rodrigues. A lama tóxica percorreu mais de 600 km, contaminando o Rio Doce e chegando ao litoral do Espírito Santo.

Impacto humano

O desastre matou 19 pessoas e deixou centenas desabrigadas. Comunidades inteiras foram destruídas, incluindo aldeias indígenas e áreas rurais. O trauma psicológico permanece. Uma mãe relata que seu filho, mesmo com acompanhamento psicológico, ainda dorme de sapatos. Ele tem medo. Medo de que tudo aconteça de novo. Medo de não ter tempo de correr. Medo de que o chão volte a engolir o mundo.

Como dizer a uma criança que está tudo bem, quando nem a terra parece acreditar nisso?

Impacto ambiental

O Rio Doce foi profundamente contaminado, afetando fauna, flora e abastecimento de água. A recuperação ambiental ainda é incerta. Muitas áreas permanecem inviáveis para cultivo ou moradia. A água, em diversas regiões, só chega por caminhão-pipa — um símbolo da precariedade que se instalou.

Justiça e reparação

Movimentos sociais e familiares das vítimas continuam cobrando reparação justa e efetiva. Em 2025, protestos marcaram os dez anos do desastre. Autoridades e lideranças indígenas reforçaram que “não foi acidente”. A tragédia expôs falhas graves nas políticas públicas de prevenção, fiscalização e resposta a desastres.

 

 

 

 

 

 

Memória e resistência

Em Bento Rodrigues, cruzes com os nomes das vítimas foram colocadas na fachada da igreja local. A dor virou símbolo de luta: por justiça, por memória, por dignidade.

O lugar não é só físico. É emocional. É espiritual. É um território onde o tempo se partiu, onde o futuro ficou suspenso. Onde o vento não passa — talvez por respeito, talvez por luto.

Ali, cada sombra é uma lembrança. Cada pedra, um nome. Cada silêncio, um grito que não foi ouvido. E mesmo assim, há quem resista. Há quem plante esperança em solo contaminado. Há quem olhe para o horizonte e ainda veja possibilidade.

Porque a dor não precisa ser o fim — ela pode ser o início de uma memória que transforma, de uma justiça que cura, de um vento que um dia volte a soprar.

 

 

 

 

 

 

 

Esta reportagem foi redigida a partir do relato de Lydia Rubinete, estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), durante visita técnica ao território atingido pelo rompimento da barragem de Fundão. O texto também reflete sua vivência e envolvimento em projetos de justiça social, como o Coletivo Anticapitalista, coordenado pelo professor André Mayer. Também estiveram presentes no ato Emides, Vânia, Madalena, Alex, Emanuele e Duda, fortalecendo a mobilização coletiva e o compromisso com a memória e a reparação dos atingidos.

Créditos das imagens: Lydia Rubinete e Coletivo Anticapitalista

2 thoughts on “Onde o Vento Não Passa: Dez Anos do Desastre em Mariana

  1. Foi Triste o que Aconteceu com a Barragem Tantas Família Perdidas e Sonhos Mesmo Depois de 10 da Recuperação Mesmo Assim Ai Vai Ficar as Lembranças Triste Deus Abençoe a Todos !

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