Reportagem: O caminho de Jacilene até a reversão ao Islã

Ainda recordo da época em que um conhecido me mostrou vídeos que, na época, eram considerados “divertidos”: homens com mochilas jogadas em lugares, numa referência ao terrorismo. Cinco anos atrás, eu mesma produzi um vídeo sobre poligamia versus monogamia. Porém , o tempo passou.  

Tenho formação em Turismo e aprendi, entre tantas coisas, a não me limitar ao preconceito — ainda que a maioria das pessoas escolha viver dentro dele. Eu rompi a bolha.  

Em 2020, estudava sobre religiões, história, psicologia e eras. Uma das leituras que fiz foi do Alcorão (livro sagrado do Islã, revelado ao profeta Maomé através do anjo Gabriel ao longo de 23 anos). Lembro que todos os dias eu ouvia uma parte até concluir. Foi uma das leituras que mais gostei. Ao terminar, tornei-me vegetariana.

No ano de 2025, tive contato com estudantes paquistaneses de doutorado em Ciências da Natureza que são muçulmanos e residem em Viçosa (Minas Gerais) e Ouro Preto (Minas Gerais). Esse encontro me chamou atenção: senti-me mais conectada à natureza, aos fenômenos naturais, à observação científica, assim como outrora fazia na infância. Constantemente, percebia uma espécie de elevação e conexão com anjos.

Essa sensação me remeteu a um episódio da adolescência. Aos 15 anos, numa noite em que estava muito triste, vi diante de mim um ser iluminado. Naquele momento, senti que não estava sozinha.

Em 2020, também deixei de consumir bebida alcoólica e comecei a fazer doações. Minha mentalidade mudou. Sentia falta de pessoas com hábitos semelhantes. Por isso, considero 2025 um presente: Allah me apresentou pessoas que transformaram minha vida.

Fui batizada na Igreja Católica, mas nunca me senti confortável nesse meio. Sempre pensei diferente, sempre fui curiosa. Estudei meu DNA e compreendi muitas coisas. Infelizmente, no Brasil, pessoas de religiões não católicas são estimuladas a desistirem de sua fé. A história mostra que houve diversas migrações: judeus, mouros (africanos muçulmanos), entre outros, foram perseguidos, escravizados e impedidos de praticar sua fé. Povos indígenas foram catequizados e privados de sua espiritualidade ligada à natureza. Esses conflitos deixaram marcas que ainda hoje se manifestam como repressão religiosa.  

Na primavera de 2025, lancei meu livro autoral Não beba das águas de quem finge matar a sua sede. A protagonista se chama Maria. Penso em traduzi-lo e, nesse processo, decidi que também modificaria os nomes dos personagens em outro idioma. O livro terá continuidade: já trabalho no Volume 2. A contracapa revela muito sobre quem escolhi ser agora.

Após o lançamento do livro, um amigo me relatou um sonho: nele, eu aparecia junto a uma lua em formato crescente no céu. Esse detalhe, tão simbólico dentro da tradição islâmica, reforçou em mim a certeza de que estava trilhando um caminho de revelação e pertencimento.

Houve também uma época em que mudei de residência e dei nome a um canto do terreno: chamei-o de Jardim de Allah. Naquele momento, eu não sabia que me tornaria quem sou hoje, mas já havia em mim uma intuição de fé e entrega.

Conheci também pessoas oriundas de migração advindas do Líbano. Uma delas tinha tatuado em árabe a palavra Allah. Curiosamente, eu amava aquele desenho que via, mesmo sem saber nada sobre o assunto. Mais tarde, percebi que aquele símbolo já me conectava, de forma inconsciente, ao caminho que eu viria a trilhar.

No dia 25 de janeiro de 2026, realizei um evento com temática árabe, fazendo alusão à Revolta dos Malês — levante histórico de africanos muçulmanos escravizados na Bahia — como símbolo de resistência cultural e espiritual. Esse evento foi também uma forma de honrar a memória daqueles que, mesmo perseguidos, mantiveram viva sua fé e identidade.

Meu nome de batismo é Jacilene, que significa “o que a lua reflete ou a luz do sol”. Sempre admirei as luzes do céu. Hoje, 18 de fevereiro de 2026, vivencio o meu primeiro Ramadã (nono e mais sagrado mês do calendário islâmico, marcado por 29 a 30 dias de jejum diário, orações intensificadas, caridade e reflexão espiritual). Escrevo este relato em jejum, com lágrimas de gratidão.

O Islã chegou à minha vida também pelas conversas com meu chefe de departamento, um homem culto e viajado. Aprendi muito sobre o outro lado do oceano, o que ampliou minhas buscas por identidade. Li artigos científicos, relatos de experiências, vivenciei práticas e segui o que meu coração pedia. Assim, nos dias que antecederam o Ramadã, fiz minha reversão ao Islã.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: arquivo (Centro Islâmico de Minas Gerais)

Agora sou muçulmana. A palavra muçulmano vem do árabe muslim, que significa “aquele que se submete” — referindo-se à submissão a Deus (Allah). O nome Allah, por sua vez, significa simplesmente “Deus” em árabe. É importante lembrar que os muçulmanos também acreditam na existência de Maria (Maryam) e de Jesus (Isa), reconhecendo-os como figuras sagradas e respeitadas dentro da tradição islâmica.

Outro conceito que me marcou foi Maktub, palavra árabe que significa “estava escrito” ou “destino”. Para os muçulmanos, Maktub expressa a ideia de que tudo o que acontece já está escrito por Deus, e que há uma sabedoria maior guiando cada passo da vida.

Sei que o preconceito existe. Sei que enfrentarei desconfianças, rejeições e apontamentos. Mas sou grata por estar mais conectada a Deus, a Allah, ao sopro divino. No fim, será sempre sobre mim e Deus, no Dia do Juízo Final.

Nunca me imaginei seguindo uma religião. Nunca me imaginei aprendendo árabe. Mas hoje estudo o idioma por causa do Islã — e percebo que, depois de começar a praticar a fé, outras línguas também se tornaram mais fáceis de aprender. Essa abertura me trouxe não apenas conhecimento, mas também pertencimento.

Hoje tenho muitos contatos com pessoas de várias partes do Brasil e de outros países. Essa rede de amizades e trocas me faz sentir que pertenço mais ao mundo, porque sei quem sou. 

Entre os muçulmanos, o cumprimento tradicional é dizer: “As-salamu ‘alaykum” (ٱلسَّلَامُ عَلَيْكُمْ), que significa “Que a paz esteja contigo”. Essa saudação, muitas vezes acompanhada do gesto de colocar a mão sobre o coração, expressa respeito, sinceridade e humildade diante de Deus e do próximo.

Infelizmente, poucas pessoas buscam sabedoria. Muitas apenas leem informações sem pesquisar, sem questionar, sem pensar fora da caixa. Seus corações permanecem voltados ao preconceito. Recordo de um colega de trabalho que, ao saber que eu tinha amizade com muçulmanos, exclamou: “O que eles são? Homens-bomba? Estão fugindo da guerra?”. Achei lastimoso. Mas também lembrei que, tempos atrás, eu mesma não sabia o que sei hoje. O conhecimento liberta do preconceito.

É preciso lembrar: intolerância religiosa é crime. Vivemos em um país laico, onde todas as crenças devem ser respeitadas. A islamofobia — preconceito e hostilidade contra o islã e seus praticantes — não é apenas intolerância religiosa, mas também uma forma de racismo, pois atinge comunidades inteiras por sua fé e identidade cultural. Assim como o racismo, a islamofobia pode levar à responsabilização judicial. Atacar ou discriminar pessoas por sua religião significa violar a Constituição e a dignidade humana, além de comprometer os valores de convivência democrática. No Brasil, denúncias podem ser feitas pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100), coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Também é possível registrar ocorrências na Plataforma Fala.Br, da Ouvidoria Nacional, ou diretamente em órgãos estaduais e municipais de promoção da igualdade racial.

Revista Poesias e Cartas, 18 de fevereiro de 2026, 16:16 do horário de São Paulo (Brasil)

Texto assinado por Maryam Arruda

+55 31 99531-5732 

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