Conto-Primeiro Sabor de Paixão

O primeiro amor — quem não se lembra? A experiência de se apaixonar pela primeira vez é inesquecível; por mais que amemos alguém, ainda mais do que o primeiro, as recordações, os momentos bons, a primeira briga e a primeira vez que esse amor é consumado ficam marcados. Normalmente acontece na adolescência, e neste conto há uma pequena retratação de Leandro e Clara, e uma paixão inesquecível que, até hoje, ambos não esqueceram.

Maio do ano de 2002, ano de Copa do Mundo. Leandro, um jovem de 16 anos, em seu emprego numa peixaria na Zona Oeste da cidade de Ribeirão Preto, uma cidade do interior paulista com clima quente, que mesmo no inverno a temperatura passa dos 30 graus. Quinta-feira, dia de feira na rua do seu trabalho, com a barraca de pastel da Lurdinha e do Sr. Walter, que ficava bem em frente à peixaria, e ao lado a barraca de bugigangas do Sr. Carlos. O dia começa e Leandro abre as portas e começa a arrumar as coisas. Lurdinha chega e dá um bom dia para o garoto:
— Bom dia, Leandro!
— Bom dia, Lurdinha!
— Tem sardinha hoje?
— Chegou ontem, bem fresquinha.
— Separa 2 quilos, vocês estão fazendo entrega?
— Se não for muito longe, te levo no almoço.
— É para minha irmã e aqui no bairro mesmo consegue entregar por volta das 11 horas?
— Só o Sr. Roberto chegar que já levo lá.
Sr. Roberto era o dono da peixaria em que Leandro trabalhava e, fora ele, lá também trabalhava Wellington.
São 10 horas da manhã. O Sr. Roberto chega e, junto dele, Wellington. O movimento era bastante naquele dia e Leandro já tinha atendido várias pessoas e, quando eles chegam, ele tira o jaleco, pega a encomenda de Lurdinha e vai levar.
Com sua bicicleta azul metálica ele vai indo até o endereço; chegando lá, uma casa bonita, portão com aquela pintura de ouro velho, uma textura bonita. No portão ele aperta a campainha e diz de quem é que atende: é uma jovem morena, cabelo encaracolado preto, pele branca, baixinha, bonita, uma beleza diferente, estilo estudante.
— Bom dia, tudo bem?
— Bom dia, vou bem e você?
— Vou bem também.
Ela diz um bom dia tão mágico que logo Leandro se encanta pela educação com que ela o recebe.
— Vim trazer a encomenda da Lurdinha. É você a irmã dela?
— Não sou a sobrinha, ela é irmã mais nova da minha mãe.
— Ah, sim.
— Achou que éramos irmãs e que a genética da família é boa? Espero que daqui a 20 anos tenhamos a mesma cara e a mesma disposição de minha tia.
Leandro começa a rir e ela se apresenta:
— Meu nome é Clara e o seu?
— Me chamo Leandro, um prazer te conhecer.
— Obrigado. Vocês trabalham com todo tipo de peixe e também têm frutos do mar?
— Sim, temos uma grande variedade de peixes frescos toda quarta-feira e também tesouras recheadas. [Observação: ajuste de expressão para manter coerência]
— Hum, interessante, me passe o endereço para eu falar para minha mãe.
Leandro passa o endereço e vai embora; gostou da conversa com Clara, pela educação e pela beleza que, na mente dele, era simplesmente original, era como as garotas da sua sala, mal-educadas e folgadas.
O dia passa; sexta-feira, nove da manhã, Clara aparece com a mãe Suzana na peixaria. Quando ela vê Leandro, dá um belo sorriso e ele logo vai atendê-las.
— Oi Leandro, tudo bem? Disse que viria e ainda trouxe até mamãe; qual peixe vocês têm para fazermos assado?
— Olá, tudo bem com vocês. Seria para hoje?
— Seria para o domingo, no almoço.
— Temos o nosso peixe temperado e recheado, muito bom; temos dele.
— Podemos experimentar. Você vem para a gente no domingo?
— Levo sim por volta das 9 horas. Está bom?
— Perfeito, apesar de ser muito cedo, talvez eu esteja dormindo e você não vai me ver.
Clara diz isso e Leandro apenas sorri; elas fazem a encomenda e vão embora.
Domingo chega e Leandro, todo eufórico, caprichou no peixe e vai até a casa de Clara levar a encomenda; ele tem a certeza de que não vai ver Clara, mas seria muito bom.
Ele toca a campainha e quem aparece é ela, Clara.
— Bom dia querido, tudo bem?
— Não estava muito bem, mas te vendo acabou de melhorar, bom dia!
— Acordei cedo só para te ver.
— Assim você me deixa com vergonha.
— Não tenha vergonha; é justamente para isso que você trabalha hoje o dia todo?
— Não, só até o meio dia.
— E vai fazer o que depois?
— Provavelmente vou beber uma cerveja com o meu patrão; depois ele me deixa em casa, vou escrever um pouco, quem sabe jogar futebol.
— Sério, você escreve também?
— Quando a inspiração aparece, você também escreve?
— Me deixa ver algum poema seu?
— Sim.
— Ótimo, que horas que fecha a peixaria?
— Meio dia.
— Que horas vamos nos encontrar hoje?
— Sério que você quer ver meus poemas?
— Também, se não percebeu que eu tô interessada em você.
— Tá bom, às 16h no shopping do centro.
— Ok, nos encontramos lá.


A ansiedade toma conta de Leandro; a cada 5 minutos ele olha o relógio para ver se as horas passam e já pensa em tomar um belo banho para tirar aquele cheiro horrível de peixe. Chega em casa e separa o seu caderno com seus poemas, pensando no sorriso e na alegria em que Clara falava com ele.
Leandro chega no shopping e ela já está lá, à sua espera, de shorts jeans, blusa branca, tênis e capacete na mão. Será que ele dirige ou veio com algum amigo? Uai, mas será que ela é maior de idade? Leandro pensa consigo mesmo, até que ela o encontra, abraça-o e lhe dá um beijo no rosto. Sentam-se em um sofá e começam a conversar.
Leandro pergunta a Clara:
— Você veio de carona?
— Não, por quê?
— Está com um capacete na mão?
— Este é para você!
— Você dirige, sendo menor de idade?
— Não é por que eu sou pequena que eu sou menor de idade; tenho 20 anos já.
— Sério, achei que você tinha a mesma idade que eu?
— Não tenho, mas sei que você é menor de idade; já procurei saber. Deixa eu ver seus poemas.
— Aqui estão; quero ver os seus também.
Eles começam a ver o caderno um do outro e, assim, vão se descobrindo. Clara fica fascinada com a escrita de Leandro, enquanto o mesmo se derrete a cada verso que lê naquele caderno de capa roxa com adesivo do CPM 22.
A conversa entre os dois vai fluindo: Clara conta a Leandro que faz faculdade de Direito em Uberlândia (MG) e que vem a cada 15 dias para casa dos pais para lavar roupas; que mora em uma república, é filha única, o pai é aposentado da polícia e a mãe, sempre foi dona de casa; ela gosta de todo o estilo de música, adora beber vinho e se encanta por tudo o que é belo; bonito e tudo é poesia no mundo.
Leandro contou sua trajetória de vida, seus problemas, suas lutas, e sua vontade de algum dia ser reconhecido, falou de sua família, das preferências musicais. Eles, naquele momento, se encantaram um com o outro. Leandro via em Clara uma princesa — não igual às demais, tão delicadas, e sim um jeito novo de ser princesa, aquela que mostra sua vontade sem ter medo de ser julgada. E Clara viu em Leandro um apoio, alguém que estaria lá sempre para ela, que podia abraçar e compartilhar seu dia. Eles se olham nos olhos, se beijam e as emoções começam a surgir.
Aquele dia ficaria marcado como o dia deles — a paixão entre Leandro e Clara, o primeiro beijo e a sensação do amor acontecendo.

Não percam o próximo episódio.

3 thoughts on “Conto-Primeiro Sabor de Paixão

  1. Adorei a edição atual da revista! Os temas abordados foram muito interessantes e enriquecedores. Parabéns aos editores e colaboradores pelo excelente trabalho!

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