Os dias vão passando e todo dia Leandro escreve um poema e o envia para Clara em forma de carta, e também sua amizade com Paula vai crescendo e ficando mais íntima.
Todos os dias Clara e Leandro falam ao telefone e, em uma conversa, Leandro fala sobre Paula em tom de intimidade e admiração:
— Nossa, Clara, hoje a Paula me contou um pouco de sua vida. Sabe, a minha é difícil, mas daquela menina é bem mais complicada; admiro como ela dribla tudo.
— Mas quem é Paula?
— Uai, a menina que senta comigo nas aulas de Português e Matemática.
— Você nunca me falou dela?
— Sério? Achei que tinha dito algo do nosso trabalho e do poema que escrevi para você e ela leu.
— Um poema para mim e eu não sou a primeira pessoa a lê-lo?
— Escrevi na aula e ela pediu para ver; eu deixei.
— Por quê?
Leandro se enrola ao falar e Clara, morrendo de ciúmes, briga com ele ao ponto de desligar o telefone e não atender às 48 ligações que ele fez, deixando-o triste, sem dormir, sem saber onde ela estava, para pelo menos explicar que era apenas uma amiga.
No dia seguinte, às 7 da manhã, Clara manda apenas um SMS dizendo:
“Não me ligue mais; quando eu voltar, conversamos.”
Leandro lê aquilo, seus olhos se enchem de lágrimas, o coração fica apertado, ele respira fundo e vai trabalhar.
Na peixaria, pela manhã, cabisbaixo, ele trabalha como sempre. Por volta das 11 horas, a mãe de Clara aparece:
— Bom dia, querido!
— Bom dia, senhora. Tudo bem com a senhora?
— Sim, e com você?
— Estou bem também.
— Com saudades da Clara?
— Estou sim, mas espero ansioso a volta dela.
— Está perto; na próxima semana é o aniversário do pai dela; com certeza ela virá.
— Ótimo.
Ela pede salmão e pergunta a Leandro como deveria fazê-lo. Ele explica que, com molho de maracujá, fica muito bom; ele ensina como fazer e ela pergunta:
— Quantas vezes você fez?
— Olha, na realidade, sempre que podemos a gente faz almoço aqui e o Roberto vive inventando umas receitas; da última vez eu fiz filé de salmão assado no molho de maracujá com alcaparras. Particularmente, não gostei muito, pois não gosto de alcaparras, mas os meninos comeram bem.
— Além de fazer minha filha sorrir, você cozinha?
— Na vida é bom aprender de tudo.
A mãe de Clara vai embora e Leandro fica pensando no porquê daquela briga tão inútil. O dia se passa e a noite chega; Leandro vai para a aula. Triste, meio desanimado, encontra seus amigos, conversa pouco, vai para a sala de aula, abre o caderno e escreve, como sempre faz quando está triste, e no caderno aparecem versos melancólicos, que diziam:
“Coração que bate lentamente
A Saudade que sufoca o peito
E nós estamos completamente
Distantes, tô perdido sem rumo
Quero você aqui.”
Paula chega e vê os olhos de Leandro cheios de lágrimas e pergunta o que houve.
— Leandro, o que aconteceu?
— Nada, só uma briga.
— Mas você já tentou falar com ela?
— 48 vezes; ela não me atendeu, só me enviou um SMS dizendo para eu não ligar.
— E o que você fez?
— Escrevi e enviei uma carta.
— Hum, fica calmo; vai dar tudo certo.
Paula fica consolando Leandro, e até brinca.
— Faz assim: se ela não te quiser mais, eu te quero.
— Não brinco com essas coisas.
— Tô falando sério.
— Tá, nada; só quer me animar.
— Então está. Vamos fazer uma coisa.
— O que?
— Vamos embora beber.
Ela insiste para Leandro ir; ele topa. Próximo à escola há um barzinho; eles vão para lá e começam a beber. Leandro fala de Clara para Paula, como ela é espetacular, do jeito que ele a vê, e diz que ela foi a primeira mulher com quem ele fez sexo, que assim como ele, ela também escreve e foi ela que apresentou Neruda para ele. Paula ouve o que ele diz, mas quer desviar o assunto, então ela começa a falar sobre sua primeira vez.
— Leandro, sabia que a minha primeira foi muito romântica?
— Como foi?
— Na chuva, na rua, com meu primeiro e único namorado.
— Mas como na chuva? Não pode ser romântico?
— Pelo fato de ele ter feito isso.
— E o que ele fez?
— Bombons pela manhã no dia do meu aniversário, flores no almoço e, à noite, jantamos; depois do jantar, começamos a nos pegar no carro; ele tinha quatro anos a mais que eu, eu com 15 anos e ele com 19. Estávamos próximo a uma praça deserta e a chuva começou a cair; eu disse que era dele naquele momento. Saímos do carro e fizemos sexo.
— Bom, ele já pretendia isso, né? A chuva só veio pra inflar.
— Sim, depois fomos para um motel e dormimos juntos.
O celular de Leandro começa a tocar… é Clara. Ele atende e ela diz:
— Estou na porta da sua escola; vim ver quem é essa Paula!
Leandro, com a voz treme, diz para Clara:
— Não estou na escola.
— Aonde você está?
— Estou perto; fique aí que já chego.
— Não, eu vou até você.
— Clara, com uma voz de raiva, e Leandro, sem saber o que dizer, está com Paula. O que será que vai acontecer?




E agora Leandro aguenta a bomba rapaz !