SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA

PROFESSORA MARIA DE LOURDES

Não sei dizer qual foi o primeiro texto que ela leu; sei, todavia, que num certo dia, nesses aprende e desaprende da era da informação, mostrei para senhora minha esposa, que uma senhora, professora, havia repostado mais de cem textos meus em sua página pessoal no Facebook…
Não tem outra pessoa nesses três anos de atividade ininterrupta, que tenha lido com tanta atenção, carinho e respeito o que brota desta mente (ou do coração?).
É difícil cada vez mais definir essas bobagens. O que de fato conta é que em meio a uns que pouco caso fazem, e a outros que vem quase para só apontar o óbvio (não existe escritor que não conheça seus escritos, são como filhos), ali está uma pessoa, altamente gabaritada quando o assunto é a Língua Portuguesa, a Literatura, eis que esteve por muitos anos nas salas de aula deste nosso país, com uma série de limitações de ordem física, com uma generosidade ímpar. Ela não só lê: ela encoraja; ela comenta; ela incentiva; ela doa seu tempo ao outro, isto é, foi e sempre será essencial para todo aquele que escreve: ter quem leia; quem leia com boa vontade, quase como se fosse a professora que quer ver o desenvolvimento do aluno, aquela que pega na mão para o erre sair o mais bonito possível, e se na centésima vez não sair, ela ainda sorri. Quem não guarda com carinho uma Professora assim? Essa pessoa surgiu, salvo engano no grupo Flor de Lótus, e de lá para cá é só gratidão a Deus pela vida desse ser humano; tão humano, que este ano ainda irá abrilhantar com uma das suas poesias o primeiro livro do Projeto Literário Palavras Sem Fronteiras, acompanhe mais uma entrevista da coluna:

Sem Fronteiras

Em razão das limitações visuais a Professora escreve suas mensagens em letra caixa alta, para que o leitor entenda bem este fato, as partes iniciais de cada uma das respostas enviadas será mantida conforme foram enviadas pela mesma.


RENATO LANNES CHAGAS: Professora Maria de Lourdes:
A senhora sempre gostou de ler poesias?
Fale um pouco para nós leitores sobre a senhora enquanto leitora:
Quais os seus gêneros preferidos?
Cite algumas leituras que marcaram a sua infância.
Enquanto esteve em sala de aula, incentivava seus alunos a lerem? E eles liam? O quê liam?PROFESSORA MARIA DE LOURDES: EU SEMPRE ME INTERESSEI POR TODOS OS GÊNEROS.
Eu lia (e leio de tudo).
Em criança, havia o Sr. Floriano que lia “A Noite”. Depois, se não mandavam fazer nada, ia para o sótão ler. Era o meu universo, já que não falavam comigo. Isso foi depois de ter encontrado um livro de Monteiro Lobato. Nele, aprendi a ler. Com cotocos de lápis, fazia lista de palavras que achava bonitas. A partir disso, parei de ficar de castigo na sala da Professora Nilce. Era uma turma alfabetizada. Eu não.

NÃO HAVIA DIA QUE NÃO LEVASSE COM A PALMATÓRIA E FICASSE DE CARA PARA A PAREDE.
A escola era José Pedro Varela no Estácio. Era linda, com muitas árvores, hoje sua arquitetura foi modificada. No dia em que consegui ler, também fiquei de castigo, estava mentindo…
O MOMENTO MAIS BONITO: UMA PROFESSORA, DO SEGUNDO ANO, CHAMOU-ME PARA DAR UM PEDAÇO DE BOLO.
EU NÃO TINHA AMIGOS: FOI LINDO. NINGUÉM RIU DE MIM.
Eu nada dizia a minha mãe.
De quinze em quinze dias, ela (doméstica na Rua Gomes Carneiro), perguntava: Tudo bem. Só comecei a ler em sala de aula, ao aprender a usar a biblioteca. Tudo era estranho. Eu era mal arrumada. A saia era segura de noite com pregadores. Era muito clara.
TODOS ZOMBANDO.
TODOS FAZIAM FILA INDIANA A ESCOLA ERA EM FRENTE À CASA, PORÉM, EU IA SOZINHA.
Isso foi até 11 por anos. Nesse período, ganhei um prêmio de desenho. Em papel que revestiam as latas de Leite Ninho (o único), desenhei a fundação da cidade. Ninguém foi buscar. Meu irmão, mais velho 9 anos, intuia tudo.
VOLTANDO, O QUE MARCOU MINHA VIDA, ATÉ 11 ANOS FORAM RESTOS DE JORNAIS E O RÁDIO GRAVAVA NA MENTE.
Aos 11 anos, minha mãe casou de novo. Recebemos o pior barraco de meus tios (ainda tenho prima viva. Uma na Espanha é advogada renomada, com sobrenome quilométrico). Assim, após essa data, fui feliz, sem nada, mas feliz. Comemos fubá com bofe durante meses. Meu padrasto perdeu o que tinha e minha mãe lavava e passava por fora, passei e engomei muito com ferro a carvão.
ENQUANTO ESTIVE EM SALA DE AULA, COM DUPLA LINCENCIATURA, LECIONAVA LITERATURA, LÍNGUA E REDAÇÃO.
Quanto ao incentivo aos alunos, normalmente, levava frases de obras. Os grupos se formavam, eram trechos diferentes. Eles discutiam, depois, com auxílio do livro didático, faziam o fichamento da obra. Só depois, vinha o estilo e época. Improvisava dramatizações, eles (várias turmas), eu era 40h, com 24h em sala de aula, teatralizavam, por exemplo:
A Cartomante, de Machado de Assis e Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Teles.
Os alunos eram de cursos técnicos, mas adoravam.

RENATO LANNES CHAGAS: PROFESSORA PERDOE A MINHA TOTAL IGNORÂNCIA: A SENHORA DISSE QUE ESCREVE À MÃO USANDO LÁPIS E PAPEL.
COMO CONSEGUE?
ACHEI QUE PARA LER E ESCREVER USAVA ALGUM APLICATIVO?
PROFESSORA MARIA DE LOURDES: COM LUPA, SEGURA PELA MÃO ESQUERDA, CONSIDERANDO QUE, POR ENQUANTO, NAO TENHO MAIS NOTEBOOK.
ELE PERMITE MAIS RECURSOS.
Além disso, de certa forma, sempre usei as duas mãos. Predomina a direita, mas, no quadro, por vezes, escrevia com a esquerda. Além disso, tenho vários tipos de letras uma predomina: é inclinada para a esquerda.
SÓ PARA LEMBRAR, EU FIZ DISCURSOS, TRABALHOS PARA A IMPRENSA E CORRESPONDÊNCIA, DURANTE 27 ANOS E SEIS MESES PARA O CDL RIO.
Comecei como redatora e cheguei a executiva. Tinha 52 funcionários, por exemplo, esta separação de sílabas seria absurda.
HOMENAGENS: Justiça, Imprensa, Forças Armadas, Zico, Como Pai do Ano, outras…
HOJE, de 1400 funcionários, tem menos de 66. Uma que eu ainda preparei, porém, não faz discursos, eles pagam a terceiro. Eu e mais 400 de uma vez, fomos demitidos em 2003. Comecei tudo. Eu sempre dei aula. Concursada primeiro sec. depois FAETEC.
COM 52 ANOS, FIZ CONCURSO PARA A PREFEITURA DO RIO. CLASSIFIQUEI-ME EM DÉCIMO OITAVO LUGAR.
Trabalhei em dupla regência para o projeto da Fundação Ayrton Senna, no Jacarezinho, terceira cre…
Era multidisciplinar: só não lecionava matemática e inglês, pois ultrapassaria a carga horária. Esse projeto era supervisionado semanalmente. Assim, fui pagando o único bem que tenho, o apartamento no qual moro.
LECIONEI EM TODOS OS LUGARES, CARÁTER PARTICULAR.
ISSO FEZ QUE EU TENTASSE ME LEVANTAR. QUANDO ACHEI QUE ESTAVA CONSEGUINDO, COMECEI A TER PROBLEMAS DE RETINA…

RENATO LANNES CHAGAS: Posteriormente, na medida do possível, a Professora Maria de Lourdes enviou outras informações, a pedido deste entrevistador, por gentileza dela, por crer que uma história com tanta riqueza merece ser registrada e lida, embora com muitos altos e baixos e a dureza dos fatos, especialmente para os que estão dentro do sistema educacional. Peço que o leitor tenha paciência, se aparentemente não houver uma ordem, eis que os envios foram feitos dentro das possibilidades da entrevistada, sempre com uma enorme gentileza.

VOU PULAR UMA PARTE…
JÁ COMO NORMALISTA, NA ESCOLA NORMAL CARDEAL LEME, PARTICULAR E COM BOLSA DE ESTUDOS, FUI PRIMEIRO LUGAR GERAL.
Eu não tinha como estudar, mas prestava atenção em tudo. Cheguei a brigar com o diretor Noroes por 0,2, pois a nota tinha que ser sete. Continuava “um bicho do mato.”
AOS 17 JÁ DAVA AULA, EM CASA. DEPOIS O CURSO DIAMANTINO, UM PREPARATÓRIO PARA CONCURSO.
Eu dava aulas para adultos.
Um dia a diretora me chamou atenção, porque eu subia as escadas na frente dos alunos. Eu não usava saias curtas, mas ficavam felizes. A partir de então, deixei de ser tola. Ainda tenho alunos que alfabetizei.
 EU SEI QUE NÃO CHEGUEI AO PONTO QUE QUER. MAS, AINDA HOJE, A TARDE, FAREI.
Estou tentando fazer mais.
Eu escrevo a lápis. Não gosto. Rasgo. Peço perdão por não ter enviado a parte que prometi, que considero a última, já está pronta, mas manuscrita. Ocorre que, dei uma queda (outra), na cozinha. Bati com a cabeça, fiquei meio tonta (mais do que já ando). Fui medicada, estou bem. Amanhã digitarei.
MINHA HISTÓRIA É COMUM. HÁ MUITAS ASSIM.
SE FOSSE A DE MINHA MÃE, SERIA UMA HISTÓRIA MELHOR…
Gostaria de ainda poder lecionar, deficientes visuais trabalham, porém, a perícia não permite.
Já havia digitado bastante, sem querer, deletei.
A fase que passei lecionando em carárer particular, foi a constatação do quanto

*AS DEFICIÊNCIAS DE APRENDIZADO FRUSTRAM O SER HUMANO. ALUNOS QUE SE PREPARAVAM PARA CONCURSOS, MAS ODIAVAM LÍNGUA PORTUGUESA, REDAÇÃO E SIMILARES. ALGUNS COM VERGONHA DA PRÓPRIA LETRA E COM UM ÍNDICE MÍNIMO DE LEITURA.
UM UNIVERSO EM QUE O PROFESSOR É UM POUCO DE TUDO E VOLTA NO TEMPO PARA AJUDAR. FOI GRATIFICANTE.
MAS, ESTOU PROIBIDA.
O PIOR É QUE ISSO ME AFETOU DEMAIS.
SEM DÚVIDA NÃO É SÓ ISSO.
PARECE QUE RETORNEI NO TEMPO.*

RENATO LANNES CHAGAS: A minha letra, já que mencionou o assunto, sempre foi feia, mesmo com o uso de vários cadernos de caligrafia. Ainda acho graça com o espanto dos alunos ao vê-la

PROFESSORA MARIA DE LOURDES: A LETRA NÃO É FEIA. ELA PODE NÃO SER O QUE GOSTARIA… DEPOIS FALAREI.

IMPORTANTE: QUANDO SELECIONEI TEXTOS PARA O LIVRO, EU, AINDA, TINHA OUTRO FOCO.
Hoje faria diferente. Eu virava a noite escrevendo, depois de chegar da escola. Minha mãe me fazia um sanduíche de pão com ovo (vou escrever). Também escrevia algo para mim. Mas rasguei tudo. Foi muito difícil sair do fundo do poço. Minhas reservas tinham ido para compra do apto.
EU TENHO CONTATO COM UM DOS PRIMEIROS ALUNOS QUE ALFABETIZEI…
Tinha 17 anos (eu fizera o normal).

RENATO LANNES CHAGAS: Sobre Miguel Torga

PROFESSORA MARIA DE LOURDES: EU TENHO OS LIVROS ” “CONTOS DA MONTANHA” DE MIGUEL TORGA. ALÉM DE POETA, É EXCELENTE CONTISTA. ESCREVE COMO SE FOSSE UM ALDEÃO. É EXCEPCIONAL!
ESSE NÃO LI (DIÁRIO D’OURO)
Ele é um grande escritor. O Senhor Ventura está na categoria de novela. É um herói, meio ao contrário, quase uma metáfora do próprio Portugal, que fez coisas boas, outras péssimas.

P/S: QUANDO FIZ A PRIMEIRA GRADUAÇÃO, PRECISEI ANALISAR: “AS CIDADE E AS SERRAS”, DE CAMILO CASTELO BRANCO. FOI NECESSÁRIO ENCOMENDAR…

PROFESSORA MARIA DE LOUDES: IMPORTANTE UMA REFERÊNCIA NOVA AO PROJETO DA FUNDAÇÃO AYRTON SENNA.
Esse projeto realizado pela Prefeitura em convênio com a Fundação foi uma experiência profunda e uma reflexão maior ainda.
NÃO HÁ ALUNOS INCAPAZES DE APRENDER A LER, EXCETO CONDIÇÕES PATOLÓGICAS. A VERDADE, CREIO, QUE O SISTEMA EDUCACIONAL, COM EXCEÇÕES, IGNORA QUE HÁ MUITO A RECOMEÇAR (DE VERDADE).
NO PROJETO, HAVIA UM ADOLESCENTE QUE SEMPRE IA SUJO PARA A ESCOLA.
(O cheiro do menino, que era o mais baixo da turma) era de falta de banho e o uniforme, que precisava ser lavado. A turma (já disse que era pequena) o isolava (não existe nada pior). O chamavam de ratinho. CHEGUEI A ENCAPAR OS CADERNOS DELE E A PEDIR QUE CORTASSE AS UNHAS.
Ao outro dia, ele veio de unhas limpas e um dedo ferido (ele próprio as cortara e se feriu). Ele só tinha avó que nunca ficava sem beber demais.
NO FINAL DO PERÍODO, ESSE GAROTO, LIA FLUENTEMENTE E APRENDEU A GOSTAR DE HISTÓRIA, MAS, A BIBLOTECÁRIA MEIO DE CARA FEIA, PELO CHEIRO DO MENINO, as pessoas são preconceituosas, no entento, no dia de irmos à coordenação, eu escolhi o menino de que se afastavam e mais dois.
NO ENTANTO, NO DIA DE IRMOS ‘A COORDENAÇÃO ” (CRE^), EU ESCOLHI O MENINO DE QUE SE AFASTAVAM E MAIS DOIS. LEU PARA OUTROS E MOSTROU QUE ERA CAPAZ.
ISSO FOI EM 2009.
HOJE, ELE FEZ O NÍVEL MEDIO. CURSOS PROFISSIONALIZANTES.
ESTÁ CASADO E TEM UMA LINDA FAMÍLIA.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9 thoughts on “SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA

  1. MAIS UMA VEZ É AGRADECER A DISPONIBILIDADE DESTA PESSOA!!! GRATIDÃO PROFESSORA MARIA DE LOURDES🙏🏼🙏🏼🙏🏼
    Agradeço a Deus que mais um trabalho permitiu ser concluído.
    Ao Johnny pela parceria, pelo espaço para estas entrevistas que dão voz a essas GRANDES PESSOAS!!!
    Grande é a alegria por poder estar fazendo uso dessa ferramenta sem igual que é a palavra! Boas palavras!!!
    Leia, deixe seu comentário!!!

  2. Estou encantada com todo esse espírito de bravura e resiliência. Uma história de vida marcante e excepcionalmente linda! Uma entrevista que nos prende pela sensibilidade e pelo valor de seu conteúdo. Embora carregado de obstáculos e sofrimentos, não se deixou perder o objeivo principal, seus sonhos! Tem toda minha admiração. Parabéns!

    1. Ela é uma pessoa de uma generosidade e gentileza ímpares!!!
      Um privilégio imenso poder trazer ao público cada uma dessas entrevistas já publicadas, que tocam mesmo e nos fazem conhecer um pouco de cada uma dessas grandes pessoas. Em breve chegará a sua vez, será uma outra grande alegria. Obrigado pela leitura e pelo comentário!!!!

  3. É uma história de vida marcante, pois carrega muita experiência e amor pela leitura e a literatura.

    As palavras / respostas da Professora Maria de Lourdes parecem conselhos. Dá primeira até à última resposta.

    É sempre bom escutar a voz da experiência, enfim aprender todos os dias.

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