
Onde está o meu retrato?
Um garoto sozinho. Em meio a uma rua fria e indiferente à sua dor – oculta, sim, mas aparente no seu olhar – Ricardo tem 11 anos de idade e ainda não sabe muito sobre a vida. Ele sabe sobre a encomenda que sua avó mandou que ele comprasse na vendinha. Fiado, outra vez, é claro. Pois o salário dela já não bastava para o mês. Seu coração ainda está inquieto e se perguntando: quem foi que achou a foto que eu guardei? Quem teria coragem de me tomar o que é meu?
Ricardo havia escondido no fundo de sua gaveta um mini-pôster: um loiro alto, forte e bem parecido, belo, brilhante aos olhos do garoto. Mas ele é um garoto e não pode ter esses sentimentos. Não ele! Alguns anos se passaram e Ricardo agora já conta seus 13 anos de vida. Já entendia um pouco o que sentia quando mais novo. Mas ainda se perguntava: quem encontrou aquela foto? Ah, não importa. Sua avó lhe mandou novamente ir ao mercado comprar mais alguma coisa. Fiado, como sempre.
Ricardo chegava sempre no mesmo lugar com a mesma cara: menino tímido, zoado por ser criado com a avó. Para os garotos, ele deveria já estar namorando, ‘azarando’ as garotas da escola. Não. Ricardo só queria agora cuidar da sua avó que, já doente, estava em casa com as pernas sobre um tamborete de madeira, inchadas devido à doença venosa que lhe acometia dia a dia: erisipela. Era a enfermeira que ia todas as terças-feiras trocar o curativo.
O tempo, impiedoso, então se passa e ele encontra os rios da adolescência. Lhe parecem atraentes, mas nada o apetece de verdade. Debutava os seus 15 anos agora. Estudar e estudar. A sua avó agora já descansava em espírito, e ele lida dia a dia com a saudade dela. Liga a TV e lá assiste ao noticiário que, com sensacionalismo, relata que um garoto foi morto pois foi encontrado beijando outro garoto na escola. Gay. Era isso então? Lembra então que era assim que chamavam os garotos que se envolviam. E logo veio o susto! “Não. Eu não quero morrer assim! Eu não quero ser assassinado no meio da rua. Não! Deus, tira isso de mim! Tira esse mal de dentro de mim!”
Veio a era dos 20 e ele ainda lutava uma luta interna. Mas agora ele tinha outras coisas para fazer. Há 3 anos na igreja, nada poderia dar errado. Ricardo era feliz e próspero. Um garoto que dava orgulho às irmãs senhorinhas que com ele dialogavam. Uma régua para os outros garotos. O orgulho do seu pastor. Ajudava em tudo! Dava aulas dominicais, liderava grupos de jovens, uma bênção! As roupas, doadas, eram 3 números além de sua fina cintura. Mas dentro de si ainda havia a pergunta: quem escondeu aquela foto? Quem sabia do seu segredo? Não importava. Tinha culto à noite e precisava se arrumar. Na TV, uma travesti teve a morte anunciada. “Claro, se tivesse aceitado a CRISTO…” Na roda de oração da tarde, a irmã dava o recado: “Aqui nesta igreja tem um homem que gosta de outros homens”. De mãos dadas a outras irmãs, Ricardo sentia sua alma arranhar: “Não sou eu”.
Algum tempo se passa e ele, claro, namora e em 2 meses já estava noivo. Quatro meses depois, a esposa do pastor perguntava: “Cadê a noiva? Não vem para o culto de virada de ano?” Frio, Ricardo responde: “Não”. A aliança já estava no seu bolso. Não demorou para logo ele ter sua primeira experiência no seu corpo. Longe dali. Dos olhos de todos. Longe da cidade. Correndo, volta-se para a igreja, que o disciplina na frente de cerca de 50 olhares curiosos e escandalizados! Ele!? Todos os que viam nele o garoto perfeito. As pernas enfraquecem debaixo do último banco. Os olhos enchem de lágrimas. Ele amava tudo aquilo! Amava estar ali! Por que lhe deram as costas e não o abraçaram? Ele agora já caminhava sozinho…
Ricardo agora tem 30 anos e há seis que saiu da igreja. E com despedida formal e tudo. Agradeceu o prato que tanto o alimentou. Mas agora ele queria se encontrar. Pai e mãe nunca cruzaram seu caminho. Ricardo sempre gostou de escrever e registrava tudo em belos e dolorosos poemas. Até que, agora com 35 anos, se tornava um escritor reconhecido. Novos ciclos e um novo olhar sobre a vida e sobre si mesmo. Segurança! As pastas da antiga igreja ainda estavam guardadas. Os hinos também. Lindos, e que até o dia de hoje o fazem chorar… Mas ele seguiu. Entendeu que amar do seu jeito não era errado. Não era pecado. Não era sujo. Era apenas ele. E ponto.
Encontrou um garoto chamado Garcia, este já era forte e resiliente. Os dois se fundiram em um só. Agora estavam completos e escrevem esse texto com os olhos marejados. Caminham juntos para o Terreiro, ama o seu amor e tem bons amigos. E, por fim, descobriram o verdadeiro significado da palavra ORGULHO! E com o peito cheio de vida dizem ao mundo:
O AMOR CURA TODAS AS FERIDAS!
Viva! Viva a Diversidade!



Uma das histórias na sua sofridas que há li,e é a realidade de muitos . Eu sou totalmente apoio a vcs dois ,Garcia ,o terreiro é lugar sagrado tbm,ali se cultua Cristo tbm. E hoje vc está feliz ,um homem guerreiro,forte e se encontrou ,se precisar de psicanálise,estou aqui . Eu vi a vida de muitos ” gays ” que conheço , inclusive uma sobrinha afilhada e tantos outros ,passando em meus olhos marejados . Segam felizes queridos . Deus e os orixás os abençoem sempre.
Atenciosamente
Célia Penckal
Sou católica ,não concordo com tanta coisa,mas vou por amor a Eucaristia,sou Kardecista desde pequena,e tbm frequentei umbanda, achei ter encontrado o meu lugar ,a minha mediunidade poderia ter um lugar enfim…anis dedicados a casa ,e recebi foi insultos,desprezo e calúnias . Sai ,sem dar adeus ,sem nada ,agradeci a meus guias ,conservo uma comigo ,minha preta velha vó cambinda . Bjs de luz. Amém..axé . Namastê… Sou terapeuta Reiikiana nível mestre do eu interior,se precisarem ,estou aqui….
Lindo texto! Reflexivo, emocionante! Parabéns!
Garcia querido, quanta força nas entrelinhas!!!! Amei e aplaudo! Vocês são feitos para se amarem e o amor sincero não é fruto de nenhum pecado!!! É lei de Deus!
Parabéns pelo texto. Parabéns pela partilha.
Ana Mendes