Por q
ue eu escrevo?
Escrevo poesia porque é uma necessidade. A vida ganha novas cores as observar pequenas rotinas, nuances, gestos, cores, sabores, cheiros.
Vivendo no exterior e longe da cultura brasileira, a vontade de escrever ficou ainda maior. Você sente saudade da comida, das danças, da forma de convivência, de nossas memórias, festas, reuniões de família.
Ao ler os poetas e autores brasileiros, aproximo-me sem precisar viajar. Tento retratar parte do que sinto e misturar também com as novas vivências e influências da cultura belga em meus escritos. Isso gera um caldeirão de idéias, uma miríade de reflexões.
Não vejo a vida sem arte: sem música, literatura, cinema. Cada sentimento é um tema, cada encontro uma revelação. Somos convocados a colocar no papel as experiências.
A gratidão vem de ouvir que pessoas lêem e se identificam mesmo à distância com esses temas universais. Em cantos e ambientes distintos ainda temos a mesma essência, nossos desejos não são tão diferentes, nossa ânsia e nossos objetivos são similares. Escrevo pelo meu olhar particular, porém, é muito interessante notar que o comum surge no individual, que os sentidos afloram e são ativados de modo semelhante, que como coletivo humano somos uma grande tribo, e deveríamos nos olhar como tal em todos os problemas atuais.
Link:
YouTube: @paulorfbr
TikTok: @paulofaria1983
Poema
Entre secas e temporais
No bojo d’alma seca
Admiro esse temporal
Após esgotar a última
Gota de meus sentidos…
Dentro de meu abismo abissal
Assisto à chuva cair por fora
Enquanto o deserto que trago dentro
Implora por um naufrágio.
A terra fustigada racha e clama,
O céu desaba em choro violento,
Mas no centro exato do meu peito,
Resta apenas o eco do vento.
Sou a raiz que não bebe a água,
O galho seco que o raio partiu,
Nesse contraste de sede e mágoa,
Onde a tempestade me engoliu.
E no vazio que restou do estrago,
Entre o relâmpago e a solidão,
O temporal vira o espelho amargo
Da minha própria inundação.
Cidade, Estado e País
Saint-Gilles – Bruxelas – Bélgica
Best regards,
Paulo Renato.



Show poético-literário 👏 🎼 👏
Parabéns!!!👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼 É sempre interessante e gratificante ver as palavras em todos os cantos deste planeta nesta mesma língua portuguesa!!!
Há algo muito bonito neste texto: a distância de casa acaba deixando de ser apenas geográfica e passa a ser interior. Em “Entre secas e temporais”, a chuva está do lado de fora, mas a verdadeira tempestade acontece dentro, e talvez seja justamente aí que a poesia encontre sua força.
Gostei especialmente desse contraste entre a água que cai e a alma que permanece seca. É uma imagem simples, mas carregada de significado: às vezes estamos cercados por movimento, pessoas, lugares e novas experiências, e ainda assim existe dentro de nós um lugar que continua sentindo falta de alguma coisa que nem sempre sabemos nomear.
Viver entre culturas também parece produzir esse tipo de escrita: não se deixa completamente uma terra para trás, mas também já não se é exatamente a mesma pessoa que partiu. Entre uma margem e outra, nasce uma nova identidade, e a poesia acaba sendo uma das formas de habitá-la.
Um texto que mostra como uma experiência tão particular pode tocar em sentimentos que, no fundo, são universais. Parabéns, Paulo Faria.