“A instrução era só beliscar 🤏” — disse ele.

“A instrução era só beliscar 🤏” — disse ele.
Mas não precisava exagerar, não é?

A violência doméstica é silenciosa. E, pior, muitas vezes silenciada.
Ela acontece todos os dias em lares do Brasil e do mundo, disfarçada de amor, de cuidado, de rotina.

Claro que posso te dizer: denuncie.
Ligue 180. Vá à delegacia. Faça atendimento psicológico. Procure um advogado.
Mas prepare-se: pode receber um chá de cadeira institucional — e seguir violentada pela omissão.
A impressão que fica é de que juízes, promotores e policiais estão sempre à espera do pior. Só quando acontece o pior é que “justificam” alguma ação.

A raiz do problema não está nos órgãos. Está em quem os representa.
Ainda não entendo como homens podem avaliar e julgar casos de violência contra mulheres, se o problema está justamente no gênero masculino.

“E esse olho roxo? Essas marcas pelo corpo?”
Disse o suposto agressor:
“Ela caiu sobre a porta do guarda-roupa.”
Por que não levou ao hospital?
“Meu filho, que é médico, esteve aqui.”
Por que não levou ao hospital?
“Ela é pesada demais.” (Ela com 56kg.)

A violência física não começa com pancadas.
Ela começa no sutil:
“Você está louca.”
“Seu ex estava certo.”
“Ninguém vai te amar como eu.”
“Você está velha.” (Disse ele, aos 60, para ela, com 30.)
“Você precisa de remédios.” (Disse ele, depois de envenená-la.)
“Você é borderline.”
“Eu tenho altas habilidades, você é autista.”
“Você só fica linda do meu lado.”
“Você mereceu apanhar.”
“Vou me encontrar com seu ex.” (O antigo agressor.)
“Todo mundo te odeia.”
“Você já tem vários boletins na polícia. Denuncie, ninguém vai acreditar em você.”
Ele foi o segundo. E último.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa sou eu, a Jacilene.
A minha imagem convivendo comigo mesma.
Nunca foi sobre a porta do guarda-roupa.
Nem o beliscão.
Nem se eu era louca.
Foi sobre o caráter agressor, manipulativo e violento que estava ao meu lado.

“Pessoas são ecossistemas. Cuidado com o ambiente que você convive.”

Ainda sem querer.
Ainda por tanto me odiar e invejar.
Ele fez questão de me coroar com a glória — suposto agressor.

Vítima ou algoz?
Mulher: na primeira oportunidade que tiver, escolha você.
Antes viva em um documentário na Netflix do que morta em silêncio.
Você precisa reconhecer sua força.

A velha Jacilene morreu.
Não do jeito que ele queria — fisicamente.
Mas morreu para aquela mulher que achava que amar era sofrer.
Morreu para a que tratava como normal as violências cotidianas de um relacionamento fracassado.
Violência psicológica é o primeiro passo para o último.

Entendi que era hora de curar o padrão doentio herdado da minha mãe.
Não é fácil. São limites profundos do subconsciente.
Mas é necessário: exige nova programação mental, mudança de percepção, e dizer não logo no início.
Até que o padrão se rompa.
E você já não precise mais se preocupar com o que está atraindo.
Porque o amor, quando é amor, é leve.

Escrito por Ela, na Voz para Elas – Jacilene Arruda

Dois nomes. Duas mulheres. Um país que ainda não aprendeu a protegê-las.

Eliza Samudio teve sua vida interrompida antes mesmo que pudesse ser plenamente vivida. Jovem, mãe, vítima de um feminicídio brutal — foi silenciada por um homem que se recusava a aceitar as consequências de suas escolhas. O corpo dela nunca foi encontrado. O luto da mãe permanece suspenso no tempo, como uma ferida aberta que o Brasil insiste em ignorar.

Elize Matsunaga, por outro lado, sobreviveu. Mas sua sobrevivência veio carregada de dor, julgamento e estigma. Também foi marcada por uma relação abusiva, pela traição e pelo desespero. Ao reagir, cometeu um crime que a fez perder a liberdade, a filha, e o direito de ser lembrada como mais do que um erro.

🌺 Ambas foram protagonistas de histórias que chocaram o país — não apenas pelos atos violentos, mas pela frieza da sociedade ao julgá-las com rótulos simples: a vítima e a assassina. Mas as verdadeiras histórias de Eliza e Elize são mais complexas que isso. São retratos de como mulheres ainda enfrentam ciclos de violência, invisibilidade e abandono.

🤰 Que legado essas histórias deixam para nós, mulheres?

– Que nosso corpo e nossa voz não podem ser propriedade de ninguém.
– Que o silêncio nunca deve ser normalizado.
– Que justiça não é só punição — é empatia, prevenção e reparo.
– Que a forma como a mídia nos retrata importa.
– Que precisamos olhar para essas histórias e perguntar: Quantas Elizas e Elizes ainda estão ao nosso redor, sem nome, sem escuta, sem apoio?

💡 Podemos transformar dor em consciência. Que essas vidas não sejam apenas tragédias exploradas, mas chamadas urgentes para mudança.

 

 

 

 

 

 

Escrito por Jacilene Arruda, autora do livro “Não beba das águas de quem finge matar a sua sede” @editora.manufaturadasletras
Livros para ficarem na história.

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