Mano Azagaia-Por Renato Lannes Chagas

*Mano Azagaia*

 

*Venha quem vier*
Com a guerra
*Eu dou paz*
Às vezes que o sorriso congela*
*E dói mais*
Mas eu sei
*Que Deus é mais forte que Satanás*
E vai mudar até a sorte das pessoas más.”
Esse é o refrão de “Orelha Negra”. Não é a música com mais visualizações, não é a música com maior apelo político, não é…
É, porém, a primeira música de Mano Azagaia que me foi apresentada pelo também rapper, outro que se tornou um desses irmãos que a arte, por imensa graça de Deus, colocou no meu caminho.
A arte é apenas um meio pelo qual Deus nos alcança. São muitas as pessoas que conheço de Moçambique e, gostando ou não da obra de Azagaia, a maioria menciona conhecê-lo. O que me causa estranheza — e até certa dor — é perceber que justamente aqueles que dizem admirá-lo, muitas vezes, jamais fizeram qualquer menção à sua obra. Talvez este não seja um caso isolado; as evidências parecem confirmar isso.
Seja qual for o país, a Língua Portuguesa produziu — e continua produzindo — artistas de inteligência privilegiada, além de todos aqueles que participam da construção de obras extraordinárias como esta.
Para alguns, “Orelha Negra” pode ser apenas mais uma música. Para mim, porém, ouvir esse refrão pela primeira vez foi como receber uma lufada de ar impossível de explicar completamente.
Desde então, ouvi, ouvi e tornei a ouvir. Anotei o refrão. Observei cada frame do videoclipe. Analisei-o à luz das obras literárias que carrego na memória.
O cenário, as atuações, cada elemento da composição, a presença do próprio Mano Azagaia e os acordes… Mesmo sem entender tecnicamente de música, sei reconhecer quando um piano fala. Ali percebi ecos de Bach, lembranças das sonatas de Beethoven e um instrumental que conduz toda a narrativa do videoclipe, culminando naquele silêncio final que, paradoxalmente, grita.
Termino afirmando que, se outra obra tivesse sido a minha porta de entrada para Mano Azagaia, talvez essa azagaia não tivesse atravessado com tanta força a guerra cotidiana que todos enfrentamos.
Não posso afirmar se a sorte realmente mudará. Aliás, até hoje não perguntei aos meus queridos amigos moçambicanos o significado de “malagatana”. Mas de uma coisa não tenho qualquer dúvida: da admiração e do talento desse artista que, infelizmente, já não está entre nós.
Mano Azagaia deixou muito mais do que músicas. Fez da arte um manancial de manifestos, versos inteligentes, coragem e consciência. Demonstrou que a língua, a instrução e o amor jamais poderão ser separados desse fenômeno extraordinário que continua reunindo tantos de nós: a poesia em suas mais diversas manifestações.

Viva o filho de Jorge Jesus e Lucinha Simão, sempre!

Obrigado, Rad_Black!
Viva Mano Azagaia e sua obra, sempre!
Um salve para todos os povos dos países de língua portuguesa!
Especialmente, neste texto, aos queridos irmãos moçambicanos.
Moçambique e Brasil: *o amor continua sob o mesmo céu anil.*

 

32 thoughts on “Mano Azagaia-Por Renato Lannes Chagas

  1. Gostei muito de saber sobre Azagaia. Uma história interessante! Fez de sua música um manifesto para mostrar, através de sua voz, o descontentamento do povo onde vive. Diante das injustiças, direitos e preconceitos. Parabéns!

  2. Obrigado Johnny. Obrigado Rad_Black. Não há muito mais a dizer sem repetir algo que já vai escrito no texto. O artista vai, a sua arte fica. Sempre ecoando: cape diem!!! Com certeza Mano Azagaia aproveitou o dia e fez um uso, como os colegas gostam de dizer por lá: pesado da sua caneta e como era bela e tinha tinta a dele!!! A obra viva está sempre!!! Viva a arte!!! Viva a integração entre todos os países falantes da língua portuguesa!!!! Gratidão aos colegas que permitiram esta escrita nascer e agora ser publicada. Gratidão 🙏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼

      1. Graças a Deus, por intermédio das músicas de profunda reflexão do mano Azagaia, muitas gerações, sociedades, povos e culturas passaram a compreender que a discriminação racial é fruto da ignorância, da má educação, da desobediência aos valores humanos e do desumanismo, sendo, por isso, algo injustificável e desnecessário.

        As suas canções despertam mentes que viveram ou ainda vivem cativas no obscurantismo intelectual e espiritual. Incentivam o valor a negritude,o amor ao próximo e crer que Deus vai mudar tudo incluído os de corações por maus que destroem Moçambique e a África.

        Por meio de estrofes e versos marcantes, manifesta a sua rejeição às injustiças sociais e familiares, convidando o ouvinte à reflexão e à consciência crítica.
        A arte tornou-se o seu principal instrumento de intervenção.
        Aquilo que talvez não pudesse dizer de outra forma, expressou por meio da música, onde encontrou inspiração para denunciar a opressão e defender a liberdade e a emancipação das sociedades submetidas à injustiça.
        Azagaia compreendeu que o mau comportamento de uma única pessoa pode trazer consequências para muitos. Vivendo numa sociedade marcada pela desigualdade, pela exclusão e por diversas formas de injustiça, recusou-se a permanecer em silêncio. Por isso, cantou, questionou e desafiou consciências.
        Assim, continuará vivo na memória de muitos povos e sociedades, porque a sua arte ultrapassa o tempo. Enquanto existirem injustiças, as suas canções continuarão a suscitar reflexão, consciência e esperança por um mundo mais humano e mais justo.

      2. Obrigado mais uma vez pela presteza e pela edição de mais este belo trabalho!!!👊🏼👊🏼👊🏼👊🏼🇧🇷💛🇲🇿

  3. Graças a Deus, por intermédio das músicas de profunda reflexão do mano Azagaia, muitas gerações, sociedades, povos e culturas passaram a compreender que a discriminação racial é fruto da ignorância, da má educação, da desobediência aos valores humanos e do desumanismo, sendo, por isso, algo injustificável e desnecessário.

    As suas canções despertam mentes que viveram ou ainda vivem cativas no obscurantismo intelectual e espiritual. Incentivam o valor a negritude,o amor ao próximo e crer que Deus vai mudar tudo incluído os de corações por maus que destroem Moçambique e a África.

    Por meio de estrofes e versos marcantes, manifesta a sua rejeição às injustiças sociais e familiares, convidando o ouvinte à reflexão e à consciência crítica.
    A arte tornou-se o seu principal instrumento de intervenção.
    Aquilo que talvez não pudesse dizer de outra forma, expressou por meio da música, onde encontrou inspiração para denunciar a opressão e defender a liberdade e a emancipação das sociedades submetidas à injustiça.
    Azagaia compreendeu que o mau comportamento de uma única pessoa pode trazer consequências para muitos. Vivendo numa sociedade marcada pela desigualdade, pela exclusão e por diversas formas de injustiça, recusou-se a permanecer em silêncio. Por isso, cantou, questionou e desafiou consciências.
    Assim, continuará vivo na memória de muitos povos e sociedades, porque a sua arte ultrapassa o tempo. Enquanto existirem injustiças, as suas canções continuarão a suscitar reflexão, consciência e esperança por um mundo mais humano e mais justo.

    1. Isto tudo é verdade de fato. Mas não há como deixar de pensar que muitas das canções do Mano Azagaia traziam muito mais que protestos e críticas, em várias delas ali aparecem pessoas do povo, porque a construção de um amanhã melhor sempre passa pela participação do povo, pela proteção das crianças, por uma boa instrução escolar, garantia de acesso a água e alimentos, etc. A parte técnica dos vídeos também é algo que sempre deve ser destacado. São muitos os elogios e sempre ficará algo de fora. Era um cidadão preocupado não só com seu país e seus problemas, bem como com todo continente africano e todas as injustiças que, infelizmente, perduram ao longo dos anos e, como sempre, faz a maior parte, que é a mais vulnerável da população sofrer.

  4. O Mano Azagaia foi de fato um verdadeiro poeta, daqueles com os pés bem assentes no chão, determinado e de uma coragem absurda. Pessoas como ele vivem para sempre!

  5. É maravilhoso ler esse texto, estou muito feliz por ter essa oportunidade, que Deus abençoe a vida de vocês.👏

  6. Que o legado desse artista continue encantando e enriquecendo a todos os que tiverem o privilégio de conhecer sua história.

    Parabéns pela matéria 👏👏👏

    1. Com certeza!!! Obrigado pela e pelo comentário!!! É mais uma oportunidade de conhecermos um grande artista que, como nós, enaltece o bom uso da Língua Portuguesa com letras maiúsculas!!! Oremos que as próximas gerações possam ver surgir, não só em Moçambique, mas em qualquer dos países falantes da língua portuguesa, pessoas tão esclarecidas quanto foi este genial Mano Azagaia!!!

  7. Acabei de ler o texto e quero deixar os meus sinceros parabéns. Mais do que uma homenagem, esta escrita resgata a dimensão humana e histórica de Mano Azagaia, um artista que transformou o rap em consciência, a palavra em resistência e o silêncio em denúncia.

    O texto não apenas recorda um grande músico; preserva a memória de um homem cuja arte continua a desafiar gerações a pensar, questionar e sonhar com um país melhor. Escrever sobre Azagaia é dialogar com uma consciência que se recusou a ajoelhar diante da injustiça.

    Sinto-me igualmente honrado por ter sido eu a apresentar a obra e a dimensão artística de Mano Azagaia ao escritor Renato Lannes Chagas. Ver esse encontro transformar-se numa homenagem literária tão sensível e tão bem construída enche-me de orgulho, pois demonstra que a arte verdadeira cria pontes entre diferentes linguagens e sensibilidades.

    Parabéns, Renato Lannes Chagas, pela profundidade da escrita e pela grandeza deste tributo. Como já dizia Mia Couto: “As pessoas morrem, mas não morrem os sonhos que elas semearam.” Que a voz de Azagaia continue a ecoar na literatura, na música e na consciência de todos aqueles que acreditam no poder transformador da palavra.

    1. Obrigado. É sempre interessante a sua análise. É preciso agradecer ao editor desta publicação também Johnny Ribeiro pela disponibilidade do espaço, pela edição e, claro, pela publicação. Mano Azagaia era desconhecido, com certeza saberei menos que qualquer dos seus compatriotas ou mesmo seus vizinhos dos outros países africanos, falantes ou não da língua portuguesa. Isto não diminui o mérito de estar disposto a ao menos parar para conhecer obras desconhecidas, ficar perplexo e passar a entender que Azagaia era antes de ser um artista, uma pessoa, um cidadão, preocupado e mostrar sua terra, seu povo, suas virtudes, sua coragem e com muita dessa mesma coragem e inteligência apresentar variadas formas de protestar e criticar, contudo, ainda que seja possível ver e ter contato com quinhentas de suas obras nada conseguirá ser mais contundente que o Amor ou a necessidade de se voltar para o amor racional afim de construir ou reconstruir aquilo que foi tantas vezes destruído, contando com o que Deus é capaz de fazer. Obrigado pela oportunidade de homenagear este grande ser humano, talentoso artista moçambicano que deve ter a sua obra e memória sempre conhecidas e preservadas mesmo em terras distantes. Gratidão, Gratidão, Gratidão 🙏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼

  8. Obrigada por enviar essas informações. Não conheci o Manoel Zagaia , agora, através de você, tenho conhecimento de suas obras. O que posso captar é que tinha um coração boníssimo e o pensamento direcionado para o bem. Que esteja na paz do Senhor 🙏

  9. Não conhecia este lado da poesia mas é revigorante ver a força da mensagem que o autor tenta deixar

  10. Temos arte em toda parte. O nosso idioma é o mesmo, porém, nada foge aos fatos: estamos isolados. E para grande maioria isto não é causa de incômodo, pelo contrário, segundo muitos (e são artistas, como o homenageado).O fato dos artistas daqui do porte de um Pixinguinha, Cartola, Elis Regina, Jovelina Pérola Negra, Luiz Melodia, e tantos que findaria muitos dias para elencar somente o que meus parcos conhecimentos sabem, serem desconhecidos pelos africanos, gera aquele tipo de expressão: “- Ahhh tanto faz como tanto fez”. De forma bem longe do que seria normal, ao perguntar sobre o conhecimento do Mano Azagaia, gera respostas quase surtadas: “- Ahhh mas todo mundo conhece o Azagaia”; “Azagaia é uma unanimidade nacional”, aí é necessário dizer o desnecessário: que a pessoa a questionar não está na África. E por quê afinal um artista deste porte nunca foi antes mencionado? Tendo em vista estarmos na prática constante da arte. A não ser que: poesias e letras de músicas não sejam mais feitos do mesmo material (versos, palavras e letras). A exceção, existe, claro, não há como esperar ser apresentado a arte de um rapper, se o colega não curte rap, ou não curte música. Já os que em sua grande maioria estamos em constantes trocas desde 2023, oficialmente desde abril de 2024, resta tristeza, foi preciso o também rapper: Rad_Black chegar em janeiro deste ano, para que essas interações passassem a estar também mais ligadas ao rap, mas vários, especialmente os músicos de Angola e Moçambique mencionaram conhecer o Mano Azagaia e desconhecer os brasileiros… O que veio a chegarmos até aqui. Afirmo sem medo de errar (não sou músico, só ouvinte), que milhares de Azagaias não serão nem “lançadas”, só as pessoas surtadas hão de ficar menos que atenta aos fatos, como sempre, sentimentos afastados. Entre nós me atenho aos fatos; só aos fatos. Já quando se tem afinidade com o artista, é certa a sua companhia. Em casa, a caminho do trabalho, no intervalo, indicando Orelha Negra, como um fã desses quase ridículos, porque a juventude já passou batido. Não tem um cabelo branco escondido.

    Itaboraí, 14 de julho de 2026.

    Renato Lannes Chagas

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