Paulo Renato de Faria- Poesia-Garrafinhas

Paulo Renato de Faria é um poeta belga-brasileiro cuja obra transita entre culturas, idiomas e memórias. Sua poesia explora temas como identidade, migração, pertencimento e a experiência humana, com uma escrita sensível e reflexiva. Vivendo na Bélgica, mantém forte vínculo com a língua portuguesa e com a tradição literária brasileira, promovendo o diálogo cultural por meio de sua produção poética e de sua participação em iniciativas literárias internacionais.

 

Garrafinhas ao mar

Amo o ofício — seja o teatro,
seja a poesia —
porque buscamos o impossível:
engarrafar sentimentos.
Mandá-los ao futuro.
E que, séculos depois,
Shakespeare ainda respire
na madeira úmida de um palco vazio,
na densidade
das questões sem resposta.
Fotografias de almas
cruzando oceanos. 
Vídeos em prisma
das tramas borbulhando emoções… 
Caligrafias de interiores
exteriorizados.
Em Márquez,
os recontos das avós;
em cada palmo da selva,
cheiros e sabores
de tempos de cólera.
É uma lâmpada mágica
da qual não sai gênio,
mas onde desejos
podem realizar-se.
Uma Odisseia em garrafinhas:
Homero atravessa mares;
Joyce navega consciências.
Numa delas,
os aforismos de Wilde
cintilam como vidro ao sol.
Lispector olha e não explica.
Sustenta o espanto.
G.H. conserva intacta
a vertigem do indizível.
Miguel guarda a névoa da infância;
mais tarde,
os buritis da memória.
E um grande Corpo de Baile
permanece à espera,
pronto para ser dançado outra vez.
Riobaldo condensa um sertão inteiro
em rios,
veredas,
montanhas
e desafios.
Shaw faz florescer
a linguagem de Pygmalion.
Woolf recolhe correntes de consciência;
Clarissa abre a manhã
como quem abre uma janela molhada de tempo.
Faulkner não explica nada.
Deixa apenas
o som quebrar.
A fantasia é embalada,
o instante ressignificado,
transmitindo medos,
dramas
e assombros.
Cada obra,
uma garrafa verde
arranhada de sal e ferrugem.
Como uma caixa de música
que preserva um balé conhecido:
reencontra sua beleza
e devolve movimento ao passado.
Vem a rumba africana
de Jocelyn Balu,
tons de alegria gravados.
Começa um xote.
O coração derrete.
E em seringa coletam
meu carinho.
Pois a arte preserva o efêmero:
guarda vozes,
afetos,
assombros.
E permite que alguém,
muito depois,
abra uma dessas garrafinhas.
E ali dentro —
ainda pulsa
um coração. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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