Em frente ao computador, relendo o romance que escrevi, sinto que as coisas não estão dando certo. É quinta-feira, só que nesta rua onde moro não tem feira e nem o pastel da Lurdinha, como na apresentação do início do meu livro. A formatação não bate e o desespero me enlouquece. A ansiedade de um ariano que quer tudo para ontem começa a me dominar. E esta merda de café expresso colombiano… Que diabos é isso? Parece que esqueceram da cafeína. Há quem goste, mas eu, como um viciado em café, achei a densidade dele fraca — assim como a minha paciência com tudo.
Deve ser trauma. Já cheguei aos quarenta, mas ainda penso nos meus vinte anos. Não que eu queira voltar no tempo, mas fico observando como era a minha época de jovem e pensando em todas as batalhas que os nascidos nos anos 80 e 90 enfrentaram; o que tiveram que aprender e evoluir, de forma tão diferente destes que nascem hoje. Vamos dizer, os nossos filhos, aos quais não queremos que passem pelo que passamos. Só sei que estou frustrado. Isto era para ser uma crônica falando do meu desgaste como escritor, mas está acabando por ser algo completamente diferente. Sabe de uma coisa? Não estou nem aí. Eu só quero pôr para fora um pouco da minha raiva e do meu descontentamento com tudo. Nem vou fazer piadinha.
Hoje li uma matéria sobre IA e fiquei admirado com a capacidade que ela tem de despejar livros em minutos. Eu, que demorei quase um ano para escrever o meu romance… Pode ser lento, porém o meu tem sentimento. É diferente de você pegar uma coisa mecânica e começar a ler. Se bem que, das antologias que organizo, existem vários escritores usando ferramentas para escrever. Eu também uso, não para me dar ideias ou escrever, mas sim para gerar imagens e fazer a correção de textos e poemas que crio. Apenas para isto. E, ainda assim, no final encontro erros em muitas correções que a própria IA faz. Sei que ela veio para ajudar, mas o ser humano ainda não sabe como usá-la.
Vivemos em um país que não lê. Pelo contrário: a leitura é pouca, falta incentivo e uma perspectiva maior do governo — o mesmo que quer que o povo continue burro. Bom, não queria falar de política, mas sempre que penso em educação e leitura, lembro que não existe político que queira os seus eleitores inteligentes, sem aqueles papinhos lindos de ex-professores que se tornam vereadores e que, para mim, já não colam mais. Penso que é por isso que ser escritor no Brasil é uma profissão sem muitos recursos financeiros. Eu, por exemplo, trabalho todos os dias em uma empresa como CLT, picando cartão.
Já até pensei em entrar em um edital da Lei Rouanet para a produção de um livro poético, mas aí me lembrei de que não sou famoso e provavelmente não aceitariam o meu projeto. Digamos assim: não sou a Claudia Leitte. Não desmerecendo a pessoa que ela é, mas sim enfatizando o oportunismo que ela teve (ainda bem que o bom senso veio a calhar e ela desistiu de fazer a sua biografia). Penso que estes editais, dos quais muitos participam, às vezes são forjados; deve haver alguém que leva uma boa parte do dinheiro que se ganha, uma porcentagem para aprovar a verba. Eu tenho o projeto de um livro onde reuniria 100 poetas de minha escolha, com talento e humildade, em cujos versos constassem sentimentos verdadeiros. Já até tentei fazer, mas infelizmente não consegui. Quem sabe um dia, se eu ainda continuar sendo escritor e poeta, consiga realizar a Antologia 100 Poetas, 1000 Poesias. Quem sabe eu me arrisque nas leis como a Rouanet, Paulo Gustavo, entre outras que existem para projetos culturais.
Mas também me lembro das palavras de uma amiga que escreve há mais tempo que eu. Ela diz que a maioria dos poetas e escritores de hoje quer se comparar a Drummond, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Pablo Neruda… Pois bem, tenho que concordar. Acho que o ato de escrever é um aprendizado constante e reconheço que se comparar a alguém no meio da escrita é uma armadilha, pois escrever é algo extremamente pessoal. Colocam-se sentimentos quando se escreve. E como eu, Johnny Ribeiro, vou me comparar a Drummond? Épocas, vidas e cotidianos completamente diferentes, sem contar os entusiasmos. Eu tenho os meus e ele tinha os dele.
Mas vou indo embora depois de desabafar. Posso dizer a todos que ainda estarei aqui, sem desistir, escrevendo e tentando me aperfeiçoar cada vez mais na escrita. Espero que gostem deste texto de desabafo. Ele me ajudou a refletir que eu preciso mesmo publicar o meu livro — e logo.
Até a próxima!

