A ligação de Cleo deixa Benício assustado.
— Mas o que aconteceu? O tom da sua voz me assusta.
— Estou chegando à cidade e, quando chegar, nós conversamos.
Benício fica ansioso e, ao mesmo tempo, com medo, sem saber ao certo o que pode estar acontecendo.
Cleo chega à cidade e ele vai ao seu encontro. Quando ela o vê, o abraça. Eles se sentam e ela começa a falar:
— Benício, já faz um tempo que era para ter vindo a minha menstrução e não veio. Estou sentindo enjoos, acho que estou grávida.
O jovem respira fundo. Ele se assusta, mas, ao mesmo tempo, sorri. Flutua com pensamentos positivos, dá um sorriso e diz:
— Então eu vou ser pai?
— Bom, Benício, eu não sei. Se eu estiver mesmo grávida, o filho é seu.
— Estou contente. Porém, como aconteceu se você sempre tomou o anticoncepcional?
— Então, de algum modo, algum dia eu devo ter esquecido. E também teve aquela vez que tive que tomar antibiótico por causa do inchaço no meu dente, lembra que eu até comentei com você?
— Tudo bem. Se for isso mesmo, eu assumo o filho e você.
— Mas não é assim, “assumir um filho”. Uma criança gera responsabilidade e a gente terminou. Eu não acabei a faculdade ainda, quero me formar, tem os meus pais e você nem tem um emprego decente para sustentar uma casa. Isso não é brincadeira. Você está preparado para isso?
— Sinceramente, eu não estou. Mas somos dois e, juntos, conseguimos. Você termina sua faculdade, eu falo com seus pais e vou dando um jeito de nos manter.
— Ok, vamos por partes então… Primeiro de tudo, vou fazer o exame e confirmar a gravidez. Aí sim podemos pensar em como contar e nos ajeitar.
Naquele dia, eles foram até a farmácia e compraram um teste que acusou positivo. Benício ficou alegre, enquanto Cleo estava apreensiva. Ela sabia que tudo era pesado para os dois e tinha planos para sua vida. Mas, ao mesmo tempo, queria estar com Benício; ele a fazia bem e ela sabia que o único jeito era aquele: uma gravidez sem planejamento com um jovem cinco anos mais novo que ela.
Com o teste positivo em mãos, os dias seguintes ganharam uma cor diferente. Passaram o fim de semana grudados, divididos entre o medo e a expectativa. Benício não conseguia disfarçar a alegria; cozinhou para ela, fez cafuné enquanto assistiam à TV e, por alguns momentos, os problemas financeiros e a faculdade pareceram sumir. Eles riram planejando o futuro e, ao ver o sorriso dele, Cleo se permitiu relaxar e esquecer a angústia por algumas horas. Foi um fim de semana perfeito, leve e cheio de cumplicidade.
Cleo voltou para a faculdade e Benício precisava de uma casa, móveis e dinheiro. Ele foi para a luta correr atrás de tudo aquilo. Já não sentia mais aquele amor de antes por Cleo, mas, acima disso, tinha uma criança vindo e ele precisava focar em apenas atender às necessidades daquele momento, que era seu filho.
Uma semana se passou após a notícia e Cleo não veio como havia sido combinado. Ele ligou várias vezes e nada de ela atender. Ele esperou e por volta das 21h da sexta-feira ela ligou:
— Benício, tudo bem?
— Tudo.
— Desculpe, não vai dar para ir hoje. Estou atolada de coisas para fazer e também me apareceu um bom emprego aqui. Eu aceitei e começo na segunda-feira.
— Tá, mas e a gravidez?
— Está indo bem. Senti um pouco de enjoo hoje, mas nada fora do normal. Marquei médico para segunda-feira.
— Ótimo. Mas e o emprego? Como vai trabalhar grávida?
— É uma grande oportunidade para mim, não posso perder!
— Tudo bem.
— Você sabe, né? Nossas vidas vão mudar completamente. Conversou com alguém, falou disso para um amigo?
— Não!
— Mas tem certeza de que é isso que você quer?
— Bom… Estou contente. Sei que não vai ser um paraíso, mas é o certo a se fazer e essa criança vai ter todo o meu amor.
— Só a criança?
— Vou cuidar muito bem de você também. Cumprirei com a minha obrigação de não te desamparar e farei tudo para ser presente em todos os momentos.
— Mas você quer ficar comigo mesmo ou é só por causa do bebê?
— Cleo, não vou mentir que o que eu sentia já não sinto mais. Mas te respeitarei e tentarei ser o melhor possível. O amor pode voltar, a convivência vai nos mostrar o que é certo fazer.
— Ok.
Conversaram mais um pouco e desligaram o telefone, mas Cleo ficou mexida pelo que Benício havia dito sobre os dois e também pensativa sobre o que o futuro podia reservar para eles.
Ela ficou uma semana praticamente sem falar direito com Benício; falava o básico e o necessário. Até que chegou o fim de semana e eles se encontraram. Fizeram sexo e Cleo ficou calada enquanto Benício cochilava ao seu lado. Ela respirou fundo e, com frieza, contou a ele:
— Benício, me desculpe, mas tive que tomar uma decisão.
— Que decisão?
— Fiz um aborto!
— Mas por quê?
— Porque você não me ama, e as oportunidades estavam aparecendo.
— Mas como você faz isso? Por quê?
— Imagina a gente morando junto, criando um filho com o salário que você ganha? Eu mudando meu mundo para ficar com uma pessoa que não me ama e que, vai saber se a convivência vai fazer você me amar de novo? Ou talvez essa convivência, ao invés de ajudar, nos prenda um ao outro por um filho. E como seria nosso lar?
— Mesmo assim, a criança não tinha culpa.
— Exato. Por que pôr no mundo para não criar direito? Quem seríamos nós?
— Mas Cleo…
Benício chorou e gritou. Olhou nos olhos de Cleo e disse:
— Nunca mais me procure! O pouco de amor que tinha acabou agora!



Gostei.
obrigado
👏🏻👏🏻👏🏻
Gostei. É a vida!
Parabéns pela obra ansiosa pelo próximo capítulo.
obrigado