Poeta selecionado para Coletânea Poesias e Cartas 3-Samara Gomes

 

Gosto de gente que me amanhece

Daquelas que chegam como o primeiro raio de sol beijando a madrugada, sem pressa de existir, mas com a delicadeza de quem devolve cor ao que a noite desbotou.

Há pessoas que entram como tempestades: derrubam telhados, arrancam raízes e vão embora levando consigo o silêncio. Mas há as raras… Ah, as raras. Essas florescem dentro da gente. Fazem da alma um jardim onde até as dores aprendem a descansar.

Gosto de quem conhece os meus invernos e, ainda assim, escolhe permanecer. De quem não teme o frio das minhas ausências nem se assusta com os ventos que às vezes atravessam o meu peito. Gosto de quem acende uma vela quando tudo em mim insiste em escurecer.

Porque amanhecer alguém não é iluminar apenas os dias felizes. É sentar-se ao lado da noite e esperar, em silêncio, até que a primeira claridade encontre coragem para nascer outra vez.

Gosto de gente que não faz barulho para amar. Que oferece abrigo sem construir prisões. Que segura a minha mão sem impedir os meus voos. Que entende que afeto não é posse, é presença.

São pessoas que carregam primavera nos olhos e paz na voz. Que chegam sem prometer eternidades, mas deixam eternos os instantes em que estiveram.

Depois de tantos crepúsculos, descobri que a vida não pede multidões. Pede encontros. Desses que devolvem o fôlego, reorganizam os cacos e fazem o coração acreditar, mais uma vez, na beleza de recomeçar.

Por isso, gosto de gente que me amanhece.

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