Luciane Cunha-Entrevista Nailson Guimarães

ENTREVISTA COM O POETA NAILSON GUIMARÃES por Luciane Cunha

A Revista Poesias e Cartas apresenta uma entrevista diretamente da região norte, mais precisamente do município de Ananindeua, área metropolitana de Belém do Pará.
Conheceremos Nailson Guimarães, poeta nato, confrade da Academia de Letras de Ananindeua (ALANIN), sendo um atuante e militante envolvido em vários grupos de causas literárias. Entre muitas atribuições, destaca-se , também, como designer gráfico e parceiro de uma editora que promove outros escritores principiantes a divulgarem suas obras.
Vamos conhecer um pouco mais sobre o nobre escritor nessa envolvente entrevista.

Luciane Cunha: Quem é Nailson Guimarães?
Nailson Guimarães: Nailson é um jovem escritor nascido em 60, com mente de 40 e atitudes de uma quinta série divertida (como dizem amigos), mas, que traz nas veias as letras impregnadas de sabor paraense e muitos estilos de escrita. Nailson é um publicitário premiado nacionalmente, designer gráfico, jornalista e empreendedor.
Luciane Cunha:Qual sua cidade de nascimento?
Nailson Guimarães: Nasci em Belém do Pará, na antiga Maternidade do Povo, em uma fria madrugada de 21 de abril, mas meu pai teimava em dizer que ainda era dia 20 (acho que ele odiava a Inconfidência), por isso, em vez de nascer no dia de Tiradentes, fui reconfigurado para um dia antes. Azar o meu: fique um dia mais velho.

Luciane Cunha: O que é ser poeta para você?
Nailson Guimarães: Ser poeta é um jeito de não enlouquecer sozinho. É transformar o que se sente – dores, saudades, amores, revoltas, memórias e os pequenos absurdos da vida – em palavras que encontram abrigo em outras pessoas. Nunca vi poesia como enfeite intelectual e sim como necessidade. Tem coisas que a gente não consegue guardar no peito sem adoecer um pouco, por isso, escrevo. Sobre gente comum, sobre perdas, sobre política, sobre amor, sobre a quase pontual chuva amazônica, sobre nossas lutas e histórias, sobre silêncios e barulhos e sobre essas conexões e confusões que existem na mente humana.
Poeta é alguém que observa demais. Enquanto muita gente apenas passa pela vida, poeta tropeça nela, sente o peso, a beleza, o cheiro, a saudade. depois devolve em forma de texto.
Eu escrevo porque acredito que palavras podem abraçar pessoas. Às vezes um poema salva uma tarde. Em outras, alguém por dentro. E, no fundo, ser poeta é isso: continuar sensível em um mundo que vive ensinando as pessoas a endurecer.
Luciane Cunha: Você acha que as mulheres sofrem algum preconceito no mundo literário?Nailson Guimarães: Com certeza absoluta! Eu acho que melhorou muito, depois de lutas constantes pelo reconhecimento, quando elas saíram de casa pra enfrentar o machismo. Mas, ainda existe muito preconceito. Às vezes escancarado, às vezes silencioso. Durante anos, mulheres escreveram obras extraordinárias, mas sempre foram tratadas como “literatura menor”, como se emoção, sensibilidade ou temas femininos fossem menos profundos que os universos masculinos, tão celebrados pela crítica.
Muitas precisaram usar pseudônimos masculinos para serem levadas a sério. Outras reduzidas à aparência, à vida pessoal ou ao fato de serem mulheres, enquanto os homens eram vistos apenas como escritores.
E acho curioso, porque as mulheres sempre escreveram sobre as dores mais humanas: amor, perdas, maternidade, violência, solidão, sobrevivência, liberdade. Tem muita literatura masculina que fala de guerras externas, enquanto muitas mulheres escreveram guerras internas — e isso exige uma coragem enorme.
Nesses exemplos de preconceito posso falar de Mary Shelley, autora de um dos maiores clássicos da literatura, “Frankenstein”. Ela revolucionou a literatura gótica, mas enfrentou resistência por ser mulher.
As irmãs Bronte, Júlia Lopes de Almeida, Cora Coralina e Conceição Evaristo. Cora Coralina, por exemplo, só conseguiu publicar seu primeiro livro aos 75 anos, após décadas de invisibilidade literária.
Conceição Evaristo, escritora negra e periférica, enfrentou exclusão estrutural e preconceito racial, mas tornou-se referência com sua “escrevivência”.
São apenas algumas que lembrei agora, mas tem muito mais. Hoje existe mais espaço, mais voz e mais reconhecimento. Felizmente! Mas ainda há desigualdade em premiações, críticas literárias, mercado editorial e até na forma como certas escritoras são lidas.
A boa literatura não deveria ter gênero. Palavra boa é palavra que toca, provoca, transforma. E nisso as mulheres sempre tiveram uma força gigantesca dentro da literatura.
Luciane Cunha: O que você acha sobre as inteligências artificiais na literatura?
Nailson Guimarães: A Inteligência Artificial (IA) pode – e deve – ser uma grande ferramenta de apoio para a literatura, principalmente como ajuda criativa, pesquisa, organização de ideias, correção de textos e até incentivo para quem tem vontade de escrever, mas não sabe por onde começar. Falei incentivo!
Entretanto, ela não substitui a alma humana, o sentimento – pelo menos neste momento. A tecnologia monta frases belíssimas, mas a verdadeira literatura ainda nasce das vivências, dores, memórias, emoções e da unicidade com que cada escritor enxerga o mundo. Vejo a IA como uma parceira, não como substituta. A caneta continua sendo humana, mesmo quando a máquina ajuda a iluminar o caminho.
Luciane Cunha: Qual livro que você leu mais te emocionou?
Nailson Guimarães:Todos! Do infantil ao de cunho mais adulto. Sempre vou além das letras, em busca do momento em que o escritor redigiu aquele momento ímpar.
Luciane Cunha : Diga uma frase de incentivo para um escritor iniciante.
Nailson Guimarães: Não espere perfeição para começar a escrever. As melhores histórias sempre nascem imperfeitas, mas verdadeiras. Escreva com coragem! Seja sem-vergonha (no bom sentido), porque técnica correta se aprende com o tempo, mas a sensibilidade de enxergar o mundo com profundidade, essa, já mora dentro de cada um. E é impar.
Luciane Cunha: Deixe suas redes sociais para que possamos acompanhar seu trabalho.
Nailson Guimarães:Minhas redes são parte do meu nome @Nailson Guimarães, @literamazônida.
Luciane Cunha: Em que instituição Nailson Guimarães fez sua especialização em Designer Gráfico?
Nailson Guimarães: Fiz especialização em Design Gráfico e Direção de Arte na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), instituição reconhecida internacionalmente nas áreas de comunicação, design e marketing.
Luciane Cunha: Com quantos anos Nailson Guimarães escreveu seu primeiro livro?
Nailson Guimarães: Aos 5 anos. Aprendi a ler e a escrever muito cedo, entre dois e três anos, algo que mais tarde entendi ter relação com minha superdotação e com o TDAH, descoberto apenas recentemente. Minha mãe – professora – foi fundamental nesse processo, pois mesmo sem perceber minha neurodivergência, me estimulava bastante à escrita, à leitura e ao desenho.
Aos 6 anos, escrevi minha primeira grande história: uma aventura sobre um mundo perdido na Amazônia, claramente influenciada pelas leituras de Júlio Verne, que já despertavam minha imaginação à época. Infelizmente o texto se perdeu no tempo e nunca mais consegui recuperá-lo. Talvez ele tenha sobrevivido dentro de mim, porque continuo escrevendo até hoje movido pela mesma curiosidade e encanto pelas palavras.
Na infância eu desenhava muito bem e criava minhas próprias revistas em quadrinhos, com personagens e histórias cheias de aventura e imaginação. Eram revistas simples, cheias de falhas infantis, claro, mas carregadas de criatividade e vontade de contar histórias. Lembro com carinho, que a diretora da escola admirava muito meu nível de conhecimento, mesmo criança. Todo mês ela fazia questão de comprar um exemplar daqueles gibizinhos artesanais que eu produzia, como um pequeno editor mirim. Isso aconteceu por cerca de três anos e, de certa forma, foi um dos meus primeiros incentivos reais como escritor e artista. Antes mesmo de entender o que era literatura, eu já criava mundos, para não caber apenas neste aqui.

Luciane Cunha: Qual foi o nome da obra lançada em 1980 em parceria e sobre quais temas ela falava?
Nailson Guimarães: Em 80, publiquei, em parceria com um amigo, a obra “Semente de Liberdade”, que fala de amores adolescentes, inquietações juvenis, poesias e sobre o clima de lutas políticas e sociais daquela época.
Foi um livro marcado pela intensidade emocional de um jovem que começava a enxergar o mundo com mais profundidade, misturando sentimentos, sonhos, questionamentos e desejo de liberdade.
Luciane Cunha: Quais movimentos sociais e religiosos Nailson Guimarães liderou em Ananindeua?
Nailson Guimarães: Fui umas das principais lideranças políticas e culturais da época, no conglomerado dos conjuntos Cidade Nova, em Ananindeua, juntamente com outros jovens idealistas. Lideramos a luta por melhores transportes, por moradia digna, ajudamos a fundar e implantar um partido político, tive participação ativa em lutas sociais no movimento eclesial, no movimento cultural. Fui um dos coordenadores do movimento católico, junto com dois padres (um deles é bispo hoje) que implantou a atual, paróquia – e agora Santuário de Santa Rita de Cássia. Tempos difíceis, mas ficaram no passado.
Luciane Cunha: Qual é o nome do livro lançado por Nailson Guimarães em 2024 na Feira Pan-Amazônica?
Nailson Guimarães:“Fragmentos Inesperados de um TDAH”, obra que fala da redescoberta da minha mente neurodivergente – somente aos 63 anos. Tem quatro estilos de escrita, incluindo crônicas, autoajuda, reflexões, poesias, e histórias pessoais. São 268 páginas de pura.
Luciane Cunha:Quantos livros, aproximadamente, Nailson Guimarães possui escritos e ainda não publicados?
Nailson Guimarães:Até perdi a conta. Sério! Tenho uma mente que inicia vários projetos ao mesmo tempo, dezenas deles finalizados, mas as vezes tem outras prioridades e aqueles vão ficando pelo caminho. Muitos deles eu finalizei somente após início do controle do hiperfoco. Todos sairão para o mundo em breve, se a Divindade ainda permitir. Pra ter uma ideia: vou lançar este ano um livro que escrevi há 25 anos!
Luciane Cunha: Qual projeto empreendedor Nailson Guimarães criou para ajudar escritores amazônidas?
Nailson Guimarães: Temos vários. Estão sendo implantados aos poucos, por absoluta falta de tempo, outros de prioridade. Temos nossa gráfica, onde produzimos somente um livro, pequenas tiragens e até milhões de exemplares, garantindo que cada autor possa publicar sua obra.
Também desenvolvemos a livraria virtual Literamazonida (www.literamazonida.com.br), iniciativa que ajuda na divulgação e venda dos livros de autores(as) de qualquer lugar do Brasil.
Vamos oferecer em breve: oficinas, concursos literários, seminários, orientações e acompanhamento para novos escritores, sempre com o objetivo de fortalecer a literatura (principalmente a amazônica) e dar voz a quem está começando.
Na nossa gráfica fazemos tudo: orientação, revisão, editoração/design, finalização, ilustração, registros ISBN, impressão, lançamento e colocação para venda. Tudo no mesmo lugar e muitas dessas tarefas eu assumo individualmente.
Há dois meses transformamos a Literamazônida em editora. Queremos ser diferentes e quebrar alguns paradigmas de exploração de novos(as) escritores(as) novos.
Breve teremos ajuda, como sócio, de um grande escritor paraense, que topou investir com a gente nesse grande projeto. Teremos novidades!
Luciane Cunha:Em qual evento internacional Nailson Guimarães foi convidado para atuar como curador?
Nailson Guimarães: Fui convidado a acompanhar – ou ser curador – do projeto “100 Mil Poetas & Músicos por Mudanças” (100 Thousand Poets For Change), que é um evento de dimensão planetária. Ressalto que fui convidado para sê-lo, na versão amazônica, pelo poeta e escritor Octavio Pessoa. Declinei do convite por falta de tempo para dedicação ao mesmo. Entretanto, a marca – ou o logotipo – do projeto amazônico, eu que criei. É o mesmo que continua até hoje.
Luciane Cunha: Quais profissões e áreas de atuação fazem parte da trajetória de Nailson Guimarães?
Nailson Guimarães:Pelo meu perfil “tedeagadista” (palavra por mim criada no último livro) sou um canivete suíço com maestria. Sou publicitário, designer gráfico, jornalista, diretor de comerciais, editor, escritor, poeta, empreendedor. Fui diretor de teatro e escrevi peças pra juventude.
Fui colunista de jornal, blogueiro. Marqueteiro político durante anos com planejamento, dirigindo campanhas no Pará e Amapá, orientando campanhas para prefeitos, vereadores, governadores e senadores. Crio sites e aplicativos. Fui roteirista, fiz programas de rádio (até hoje), compositor. Canto com vozes graves e agudas, escrevi para a imprensa alternativa e entidades sindicais durante 25 anos. Toco/tocava violão, cavaquinho, teclado, flauta, tudo de ouvido (alguns perdi a sensibilidade por falta de prática). Pintei quadros, participando inclusive de exposições. Sou palestrante, palestrei para faculdades, grupos fechados, empresas, instituições. E, por último, fundamos a Academia de Letras de Ananindeua (ALANIN), da qual faço parte. Ufa!
Luciane Cunha: Quais obras estão previstas para lançamento na Feira Pan-Amazônica do Pará?
Nailson Guimarães:Se eu tivesse mais tempo lançaria todas. E se eu tivesse dinheiro sobrando, todas seriam doadas. Mas, posso dar um spoiler: “A morada da Loucura” (continuação do livro sobre TDAh), “Crônicas Inesperadas da Existência” (somente crônicas diárias); “Pés Descalços” (escrito há 25 anos); “Poesias pra quem atura leitura” (somente poesias) e “Micropoesias das maresias” (micro poemas).
E para crianças: “Beatrix” e “O galo inconveniente”. Lógico que vou escolher desses, apenas duas obras, mas temos potencial para tanto.

1 thought on “Luciane Cunha-Entrevista Nailson Guimarães

  1. Não tinha conhecimento de um escritor tão aclamado e ainda não reconhecido em nossa lietratura brasileira. Fiquei encantada com a sua trajetória! Procurar livros pra eu ler. Parabéns e sucessos!

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