CAPÍTULO QUARTO
NO DIA do clarão, resolveu anotar exatamente tudo que lembrava desde o mínimo detalhe que fazia quando esteve com o pai no primeiro dia na padaria. E ria e como ria. Nunca riu tanto na vida. Estava ali tudo tão evidente que não contaria por medo da zombaria, resolveu guardar no cofre no banco. Se alguém algum dia por acaso conseguisse reproduzir com o mesmo sucesso os seus pães, então queimaria aquele papel. E transformadas em cinzas estariam também resolvidas todas as supostas zombarias, que estava com medo, naquele dia. A outra questão seria convencer a mãe a ficar novamente sozinha. Mas mal sabia ele, que ela já estava certa, que não poderia fazer o filho ficar, porque a mesma chama que já havia visto nos olhos de Sebastião, as via agora feito um vulcão em erupção nos olhos do filho João. Mal se encontraram, ele ficou surpreso quando ao abrir a boca a mãe o cortou de forma abrupta, quase grosseira e fez um longo, pausado e demorado discurso deixando os dois com muitas lágrimas nos olhos e a firme promessa de que iriam se reencontrar o mais breve possível. João de tudo cuidava e já tinha deixado além da situação da mãe estabilizada, também uma soma grande e tinha investimentos em algumas áreas, para garantir que não deixaria a mãe passar por qualquer aperto. Aprendera com o pai que não precisavam deixar de assentar algum alicerce para os que iriam ficar, enquanto outros iriam navegar para outro cais. Ele mesmo não tinha conseguido fazê-lo e procurou não deixar o filho cometer o mesmo erro. João então juntou uma grande carga num navio e aparentemente iria para nova estadia no velho continente, estava fazendo o caminho inverso como outros já haviam feito. Contudo aqueles não eram os seus planos, que só eram do conhecimento dos mais chegados, que estavam todos literalmente no mesmo barco. Quando o porto deixaram, ao invés de rumar para a Europa, foram direto para África. Especificamente para os países aonde o idioma era o elo de ligação. Chegando lá era tudo desolação. Já tinha acabado aquela coisa tão medonha, que era vender gente, tinha ficado a pobreza e mesmo assim era exatamente, por ali, que começaria sua empreitada. Já tinha aprendido desde cedo a brincar com as palavras, hábito adquirido com os pais. “Porque se nem só de pão vive o homem…” seus pais gostavam de citar. Quer dizer que também o pão se faz necessário. Aonde existiam bocas, sempre vai existir fome e aonde houver fome, sempre vai existir necessidade do pão. Aí João começava a perguntar daonde iria vir era a farinha para fazer tanto pão e como fazer para assar o pão para fazer o mundo inteiro comer. E seus pais riam. E ele acabava rindo também. Agora estava ali ele contando que conseguiria fazer aquela loucura acontecer. Muitas foram as dificuldades. Mas aconteceu, por acaso alguns dirão, outros por sorte, já ele sabia que, nem uma coisa, nem outra. Toda situação, tinha sido era bem estudada. Desde que esteve na Europa estudando, João sabia que em outro continente e longe de casa, a primeira coisa a fazer era não se meter em nenhuma roubada, e por mais que ele fosse bonito, rico e até elegante, procurava pensar em quase tudo, como quem está fazendo pão, ou alguma outra das coisas que fazia para comer na padaria. Seguindo a receita, tinha tudo a mão para dar certo. Era preciso atenção aos detalhes. Então passou bem toda aquela estada e aproveitou para aprender como proceder no palácio e como faria em outras terras. Em Angola o costume local era casar com alguma filha de um chefe local. Aonde se via uma terra devastada, ele procurou o melhor ponto aonde conseguir se instalar, para ter lenha e água e aonde conseguir novas remessas de farinha. Em pouco tempo e com muito trabalho já tinha prosperado. Mandou para mãe um cartão postal. Hábito que já havia adquirido desde a época da universidade, para colecionar tanto os cartões, bem como os selos e seus pais terem sempre notícias do seu paradeiro.
A mãe achava que iria ver uma das imagens costumeiras de alguma das cidades das terras lisboetas, tomou foi o maior susto quando viu a zebra ali desenhada e o selo que mostrava a juba esvoaçante de um leão, não fosse a letra do filho, teria achado que aquilo era alguma brincadeira de mal gosto. Pouco tempo depois, no mesmo porto, o navio trazia de volta seu bem mais precioso, dessa vez não vinha só, estava acompanhado, trazia mulher e filho nos braços. E, não se conteve Maria, com aquele presente chegado assim inesperadamente e nem estavam perto do natal, aquilo era a melhor coisa que não esperava. João passou o filho para os braços da agora vó e estavam reunidos mais uma vez mãe e filho.


Gratidão Johnny!!!!🙏🏼🙏🏼🙏🏼
Essa história continua sendo e sempre será muito cara!!!
Hoje, dia 16 de junho de 2026, este conto foi lido COMPLETO para turma 803, do turno da tarde, quinze alunos que, com paciência, ouviram a leitura completa. Após a mesma, nasceu a poesia que fez o registro deste acontecimento.
MAIS UMA VEZ… JOÃO
E, por quê não?
Dia dezesseis de junho do ano de dois mil e vinte e seis
A hora não liguei
O tempo esquecerei
Os erros… sei que os repetirei
Similaridades, sempre vai minha língua entortar
Depois de tantas palavras falar
Sem registro além das testemunhas oculares
Lá naquela distante cidade
Onde os ouvidos me foram emprestados
E tudo foi lido
Se bem entendido ou não
Não diminui em nada
Nem a emoção
Nem o fato
Que ler nunca e jamais
Será tempo mal gasto
Passando por cima da incredulidade
Sabendo que há uma enorme distância
Entre ouvir e querer
Alguém precisa começar
O que nunca deveria
Deixar de ser disciplinado
Pelo bem que é de fato
Alimento para alma
A leitura é como água
Uma gota que seja
Em terra seca
Já dá um alento que seja
Para o verde surgir
Não adianta só querer falar
Tem de agir
Sem nada esperar
Se vai ou não vingar
Só o tempo e o trabalho dirão
Sempre foi e sempre será o fundamento
E a função
Da instrução
Educação
Educação
Ação
Só palavra não serve não
Renato Lannes Chagas