Conto- Complexidade Na Adolêscencia – Ep 1

Sonhos…
Planos…
Felicidade!
Escrevia Mariana em seu diário, pensando em sua vida e nos acontecimentos que a esperavam.
A garota no terceiro ano do ensino médio via as modinhas do mundo e as futilidades da idade. Com seus 17 anos, cabelos lisos e belos olhos negros — os quais os óculos escondiam —, exibia sua beleza morena clara, vinda de uma mistura de índio com branco e de herança nordestina. Era uma bela moça estudiosa, chamada por várias pessoas de “nerd”, que adorava ler.
Quando lia, viajava para lugares inacreditáveis, nos quais podia ser quem queria, sem medo de falar ou enfrentar quem quer que seja. Essa era uma qualidade que sua família criticava. Sua mãe sempre lhe dizia: “Larga esses livros e pare de sonhar, menina!”. Por tantas vezes, ela teve que largar o livro no canto para que sua mãe parasse de falar.
Mariana planejava tudo em seu dia, da hora que acordava até a hora de dormir. Era vaidosa, sempre de unhas bem-feitas, as quais ela mesma fazia. Queria conquistar o mundo e viver um grande amor.
Acabara de mudar de escola e se entusiasmava com aquele lugar, tão diferente daquelas escolas de bairro onde todos os alunos moravam perto e os pais eram todos amigos e se conheciam. Na escola nova, conheceu pessoas diferentes umas das outras. O uniforme por si só era de um jeito mais descolado, as meninas estavam sempre antenadas na moda e os meninos eram de arrancar suspiros. Ela não era muito fã de esportes, mas naquela escola era empolgante ver os meninos jogando futebol, principalmente os que tiravam a camisa.
Mariana conheceu Joana, Tamires, Patrícia e Poliana, e assim formaram uma turminha — mais uma para aquela escola que já tinha várias, cada uma diferente da outra. Todas, assim como ela, eram focadas nos estudos e se entusiasmavam com os garotos. Estavam com os hormônios em alta, enfrentando as questões da adolescência, com dúvidas e incertezas.
Em uma aula de geografia na sua turma, o Terceiro C, ela sentava na segunda mesa da quarta fileira, em uma sala que tinha aproximadamente vinte alunos. Em sua frente, sentava-se Joaquim, um nerd de óculos que usava um estilo meio roqueiro. Era fã de rock dos anos 80 e adorava Legião Urbana. Poucas pessoas falavam com ele; era um jovem de poucos amigos que, na maioria das vezes, rabiscava versos em seu caderno. Seu All Star azul se destacava.
Em um belo dia, a professora Geovana os colocou como dupla em uma atividade e, pela primeira vez, Mariana conversou com o rapaz. Ela se apresentou a ele:
— Oi, eu sou a Mariana, que senta sempre atrás de você.
— Eu sou o Joaquim, que se senta à sua frente.
E assim começou a amizade entre o rapaz de poucos amigos e a moça que acabava de iniciar os estudos na escola nova.
Mariana olhou para o caderno de Joaquim, que tinha um adesivo da banda Legião Urbana com a frase da música Pais e Filhos: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Como ela pouco conhecia a banda, perguntou:
— Nossa, que frase bonita é esta.
— A música é ainda mais. Ela aborda os temas de depressão, sofrimento emocional, as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, solidão e incompreensão. Digamos que combina um pouco comigo.
— Por quê?
— Conflitos com o meu pai e a minha solidão. Não que eu seja depressivo ou coisa do tipo, mas por vezes eu engulo meus sentimentos e pego dores que não são minhas.
— Eu reparo que você não tem muitos amigos, que às vezes no intervalo está sozinho, conversa com poucas pessoas e nem joga futebol como todos.
— Sim. Às vezes me acho difícil de socializar. Não sei… São poucas pessoas que me chamam a atenção e, às vezes, quando chamam, não consigo chegar e firmar uma amizade.
— Você já procurou saber o que é isso?
— Sim, a internet me disse que sou antissocial, mas também não acho que seja isso. Talvez tenha que procurar um psicólogo, mas isso de fazer terapia é chato, e eu já me basto de chatice.
— Eu tenho o seguinte pensamento: todos nós temos que fazer terapia, principalmente nossos pais, que por várias vezes não nos entendem. Nem parece que um dia foram adolescentes.
— Sim, com certeza. Mas se a gente pensar em nossos pais, eles viveram em uma época diferente da nossa e, com certeza, os pais deles eram como eles são hoje.
Mariana e Joaquim tiveram uma conversa extremamente inteligente e sentimental. Joaquim conseguiu se abrir completamente para Mariana, que se encantou ao escutar cada palavra que aquele nerd antissocial dizia.
A aula terminou e eles foram conversando até o portão. Joaquim pegou sua bicicleta e Mariana foi ao encontro de suas amigas, despedindo-se dele.
Patrícia foi a primeira a dizer:
— Cuidado com o Joaquim, a reputação dele não é muito boa.
— Como assim?
— Quase foi expulso no ano passado.
— Mas por quê?
— Quebrou o nariz de um aluno e queria bater mais, até que os supervisores vieram e os separaram. Ele tem um comportamento agressivo e uma vez eu o vi em uma turminha de drogados.
Mariana escutou o boato das amigas, mas, mesmo assim, continuou encantada por Joaquim, que não era um garoto atlético, porém era sensível e via o mundo com os mesmos olhos que ela.
Chegando em casa, procurou na internet a música Pais e Filhos e mais sobre a Legião Urbana. Depois, escreveu em seu diário:
“Hoje eu conheci um nerd, mas boatos sobre ele surgiram. O que devo fazer: acreditar ou questionar?”
Não perca o próximo episódio! O que será que Mariana irá fazer?

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