Até que me reverti ao Islã.
Minha reversão não foi apenas uma mudança religiosa. Foi uma transformação profunda na maneira como compreendo a vida, minha relação com Deus, meu corpo e minhas responsabilidades. Passei a fazer escolhas mais conscientes, buscando alinhar minha vida à fé que escolhi seguir.
Foi nesse período que comecei a perceber mudanças no ambiente em que antes me sentia à vontade.
Os olhares pareciam diferentes. Algumas pessoas se afastavam. Comentários sobre cabelo surgiam durante as aulas, e comecei a me perguntar se minha nova identidade religiosa havia alterado a maneira como era vista naquele espaço.
Eu era a mesma mulher que frequentava o estúdio havia um ano. A diferença era que agora também era muçulmana, e minha fé havia se tornado parte essencial de quem sou.
Uma situação, em particular, ficou marcada na minha memória. Certa vez, um professor convidado afirmou que existiam as “mulheres normais” e as “mulheres de burca”.
Aquelas palavras me fizeram refletir.
Desde quando uma mulher deixa de ser considerada normal por causa da maneira como se veste? Desde quando uma vestimenta religiosa pode servir de critério para separar mulheres em categorias de normalidade?
A burca, o niqab e o hijab não são a mesma coisa. Tampouco todas as mulheres muçulmanas se vestem da mesma maneira. Há diversidade de interpretações, costumes e escolhas entre as próprias muçulmanas. Reduzir essas mulheres a uma categoria oposta às mulheres consideradas normais não é uma descrição neutra da diversidade cultural: é uma forma de estabelecer uma distinção que pode alimentar estereótipos e preconceitos.
Sou muçulmana, brasileira e nascida no Brasil. Minha fé não me torna menos brasileira, menos mulher ou menos digna de respeito.
Não preciso abandonar minha identidade para me encaixar nas expectativas de outras pessoas.
Com o passar do tempo, outras questões começaram a me incomodar. Os elementos sensuais da dança do ventre pareciam ganhar mais espaço nas coreografias. Passei a refletir sobre a maneira como desejava praticar a dança diante dos princípios religiosos que havia escolhido seguir.
Não se tratava de condenar outras mulheres, controlar suas escolhas ou afirmar que todas deveriam viver segundo minhas convicções. Tratava-se de reconhecer que minha relação com a dança estava mudando e que eu tinha o direito de estabelecer meus próprios limites.
Então, chegaram os preparativos para a apresentação anual do estúdio. O tema seria os beduínos.
E foi justamente aí que uma questão cultural passou a ocupar meus pensamentos.
Eu conheço a história dos beduínos. Sei que não se trata simplesmente de uma estética, de figurinos ou de movimentos que possam ser associados genericamente ao Oriente Médio. Os beduínos constituem comunidades diversas, com histórias, tradições, formas de organização social, poesia, música, práticas de hospitalidade e modos de vida próprios.
Uma representação cultural legítima exige pesquisa, contextualização e respeito à diversidade desse povo. A dança pode integrar uma interpretação artística, mas não deve ser confundida automaticamente com a totalidade da cultura beduína.
Por isso, comecei a me perguntar como seria construída aquela apresentação. Como representar uma cultura com seriedade quando, naquele mesmo ambiente, eu já havia ouvido uma distinção entre mulheres “normais” e mulheres de burca? Como conciliar uma proposta de valorização cultural com comentários e atitudes que me faziam questionar o respeito à minha identidade religiosa?
Não posso afirmar que conheço as intenções de cada pessoa. Mas as perguntas eram legítimas.
Minha reversão ao Islã não me tornou especialista em todas as culturas muçulmanas, assim como não me concedeu o direito de falar por todos os beduínos. Ainda assim, minha experiência e meus conhecimentos mereciam ser tratados com respeito, e não desconsiderados por causa da minha fé.
Foi nesse contexto que compartilhei outra notícia importante: eu estava grávida.
A gestação inaugurava uma nova etapa da minha vida. Meu corpo passaria por transformações, minhas prioridades mudariam e eu precisaria dedicar atenção à minha saúde e à criança que estava a caminho.
Eu não esperava que o estúdio interrompesse seus planos por minha causa. Os ensaios para a apresentação anual seriam longos, numerosos e realizados à noite. A professora deixou claro que o ritmo seria mantido independentemente das circunstâncias e, além disso, foi rude comigo.
O que me marcou não foi simplesmente a existência de um cronograma. Foi a ausência de sensibilidade diante de uma mudança tão importante na minha vida.
Eu não queria privilégios. Esperava respeito, diálogo e consideração.
E, naquele momento, as lembranças anteriores passaram a ter outro peso: os olhares depois da minha reversão, o afastamento, os comentários sobre o cabelo, a fala que dividia mulheres entre “normais” e “mulheres de burca”, o aumento dos elementos sensuais na dança e a postura da professora diante da minha gestação.
Seria possível que todos esses acontecimentos não tivessem relação entre si? Sim. Eu não podia conhecer as intenções de cada pessoa nem afirmar, sem evidências, que tudo era consequência da minha reversão.
Mas também não precisava fingir que nada havia acontecido.
Quando experiências desconfortáveis se acumulam, é natural tentar compreender se existe um padrão. Questionar possíveis atitudes de preconceito não significa condenar antecipadamente todos os envolvidos. Significa procurar entender por que determinadas situações passaram a produzir em mim uma sensação de afastamento e desrespeito.
Durante muito tempo, aquele estúdio havia sido parte da minha rotina. Talvez por isso fosse tão difícil reconhecer que eu já não me sentia da mesma maneira naquele ambiente.
Eu estava mudando, e precisava descobrir como conciliar minha história com a mulher que desejava me tornar.
A dança do ventre havia feito parte da minha vida. Minha reversão trouxe novas reflexões sobre minha relação com o corpo, a sensualidade e os limites que desejava estabelecer. A gestação acrescentou outras responsabilidades. Nada disso apagava o ano que vivi naquele estúdio, mas me obrigava a reconsiderar minhas escolhas.
Eu não precisava transformar minhas diferenças em uma guerra. Tampouco precisava permanecer em um lugar apenas para provar que era capaz de acompanhar o ritmo dos outros.
Minha fé não era uma provocação. Meu hijab não era um convite ao julgamento. Minha gestação não era um inconveniente pelo qual eu devesse me desculpar.
Eu continuava sendo uma mulher com história, interesses, conhecimentos, sentimentos e projetos. Ser muçulmana era parte de minha identidade, não uma razão para que minha presença fosse tratada como uma anormalidade.
Talvez algumas pessoas nunca compreendessem minhas escolhas. Talvez eu jamais descobrisse se os comportamentos que percebi estavam relacionados à minha reversão ou a outras circunstâncias. Mas eu podia decidir quais relações desejava cultivar e em quais ambientes me sentia respeitada.
Também podia reconhecer que representar uma cultura exige mais do que vestir um figurino ou reproduzir movimentos. Exige disposição para aprender, pesquisar e reconhecer a humanidade das pessoas que pertencem às culturas representadas.
Não é necessário ser muçulmano para respeitar os muçulmanos. Não é necessário ser beduíno para estudar a história dos beduínos. Mas é necessário ter responsabilidade para não transformar diferenças culturais e religiosas em caricaturas ou hierarquias entre pessoas.
Foi assim que comecei a compreender que pertencer não deveria exigir o silenciamento da minha consciência.
Eu não precisava negar minha fé para ser aceita. Não precisava esconder meus limites para continuar dançando. E não precisava ignorar minhas necessidades durante a gestação para demonstrar comprometimento com uma apresentação.
Talvez a minha maior mudança não estivesse em deixar a dança do ventre, abandonar o estúdio ou romper com pessoas que fizeram parte de uma etapa da minha vida.
Talvez estivesse em aprender a reconhecer quando uma relação deixava de me proporcionar a tranquilidade e o respeito que eu esperava.
Não saí dessa experiência com todas as respostas. Saí com perguntas mais profundas sobre convivência, diversidade, preconceito e pertencimento.
E compreendi que respeitar as diferenças não significa concordar com todas as escolhas de alguém. Significa reconhecer que nenhuma pessoa deve ser considerada menos normal, menos digna ou menos merecedora de consideração por causa de sua religião, de sua vestimenta ou das transformações que atravessa.
Naquele momento, eu precisava cuidar da minha fé, da minha gestação e da paz que desejava construir para mim e para a criança que estava a caminho.
O restante poderia esperar.
Porque não há apresentação cultural verdadeiramente digna quando a diversidade é celebrada no palco, mas não encontra respeito nas relações cotidianas.
E não há pertencimento verdadeiro quando, para continuar fazendo parte de um grupo, uma mulher precisa esconder aquilo que considera essencial em sua própria identidade.
✍️ Jacilene Arruda
Turismóloga | Escritora
Entre o turismo, a cultura e a literatura, dedico-me a explorar ideias, compartilhar conhecimentos e despertar reflexões que ampliem perspectivas e inspirem transformações.
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📄 Produção científica
Publicado na PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural.

