Analisando o poema de Renato Lannes Chagas- Fui convidado a comer aaru

Fui convidado para comer aaru

Lá pelos Ababá com uma fogueira na oca
Para afastar o Abaçai
A madeira usada na construção era Abacaterana
Acompanhava ainda farinha de mandioca com Aracangüira
Tomamos ainda um delicioso suco de i’bá ka’ti

Depois foi deitar na rede e sentir ainda o gosto do peixe.

Renato Lannes Chagas

Vocabulário:

Aaru. [Do tupi] Espécie de bolo.
>Ababá. Tribo indígena tupi-guarani rio Corumbiara MT.
>Abaçai. Mitologia tupi, espírito maligno que perseguia os índios, enlouquecendo-os.
>Abacaterana. [Do tupi amazonense] árvore de madeira pardacenta, compacta.
>Abacatuaia [Do tupi] v. Aracangüira [Do tupi] Peixe teleósteo percomorfo, da família dos carangídeos, [Sin.: abacataia, abacutaia, abacatuaia, abacatuia, abacatúxia, abacatina, aleto, aracambé, peixe-galo-do-brasil].
>Abacaxi [Do tupi i’bá ‘fruto’, + ka’ti , ‘recendente’.].

 

O poema em questão promove um mergulho sensorial e etnográfico na cultura indígena brasileira através da valorização do léxico tupi. Abaixo, apresento uma análise detalhada da obra e do perfil do autor

Análise do Poema
O poema funciona como uma crônica em versos de uma experiência de imersão e acolhimento em uma comunidade indígena. 
  • Construção Linguística e Identidade: A estrutura poética é minimalista no formato, mas complexa no vocabulário. O autor constrói a narrativa usando palavras em tupi como pilares de cada verso. Esse recurso, acompanhado do vocabulário, atua como um ato de preservação e reverência histórica, resgatando termos que dão nome à fauna, à flora, à culinária e à cosmologia nativa. 
  • Sinestesia e Sensorialismo: O texto apela fortemente aos sentidos do leitor. Sentimos o calor e a proteção mitológica da “fogueira na oca” contra o Abaçai; visualizamos a resistência da madeira Abacaterana; saboreamos a textura da farinha com a Aracangüira e o frescor do suco de i’bá ka’ti (abacaxi). 
  • A Conclusão e a Memória: O fecho do poema (“Depois foi deitar na rede e sentir ainda o gosto do peixe“) evoca uma sensação de paz, digestão e pertencimento. O “gosto do peixe” que permanece na boca simboliza que a experiência cultural indígena não é passageira — ela deixa marcas profundas, físicas e espirituais, no eu lírico. 
Renato Lannes Chagas

4 thoughts on “Analisando o poema de Renato Lannes Chagas- Fui convidado a comer aaru”

  1. Gratidão🙏🏼🙏🏼🙏🏼.
    Isto remete a qual episódio da nossa História?
    Este poema é uma antítese ao episódio narrado pelo Hans Stadem.
    Nasceu pelo desejo de juntar a Língua Portuguesa com o Tupi, pegando vocábulos de uma edição do Dicionário Aurélio de 1975 ou 76, da letra a, a primeira de um longo projeto de poesias que algum dia ainda será dada a devida continuidade. Quando? Não faço a menor ideia, também é bom registrar que este desejo passou a ganhar força pelo convívio com os colegas africanos e seus usos tão comuns das línguas nativas seja nas suas poesias, nas suas músicas, nas suas artes, na sua cultura de forma geral.

  2. Que poema riquíssimo! Um exacerbado conhecimento do autor da língua tupi. Uma junção de duas línguas potentes, pesquisa e História. E a análise muito profunda, bem feita. Consegui ver a cena e até sentir o cheiro e o gosto do peixe, da farinha e do abacaxi. Os órgãos do sentido no cotidiano do indígena.Parabéns Renato Lannes!!!👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾

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