João foi então para Moçambique e, como havia acontecido antes em Angola, deixava a população com um misto de apavoramento e admiração. Sua habilidade como padeiro fazia sucesso em qualquer casa, da mais simples à mais sofisticada, mas, quando as pessoas descobriam que ele era também médico, não acreditavam; custavam a aceitar que um padeiro pudesse ser doutor. A situação ficava ainda mais difícil quando sabiam que ele sequer era da África: vinha lá daquela terra ensolarada, de que haviam ouvido falar vagamente e para onde já tinha ido tanta gente.
No Brasil, cabe aqui relatar, não era muito diferente. Primeiro, as pessoas riam sem acreditar que estavam frente a frente com o dono do lugar. Depois, simplesmente não aceitavam que ele fosse até a África para abrir o mesmo tipo de negócio, e ainda faziam piadas quanto à mão de obra utilizada, questionando se a escravidão ainda acontecia por lá. Na cabeça de muitos, aquele era um local totalmente abandonado. Para esses, João nem mencionava os seus projetos, que sabia que seriam ainda mais difíceis de ser aceitos por pessoas com a mente tão fechada.
Contrariando todos esses pensamentos, João ia seguindo seu plano. A cada padaria que abria, sua fortuna só crescia. Até que um dia, uma dessas pessoas com quem sempre cruzava sugeriu, de forma banal, que ele abrisse também uma escola ao lado de cada padaria. Aquilo soou tão genial que, ainda naquele dia, ele levou a ideia ao governo local, conseguiu o terreno e abriu, junto com a padaria, a primeira escola. Além de pães, passou também a, literalmente, fabricar sonhos. Modificava todos os lugares onde uma padaria era instalada. Seguia o mesmo trajeto dos antigos traficantes de escravos, mas fazendo o caminho inverso: ali ninguém era preso e levado; a instrução, pelo contrário, libertava e garantia que aquela gente pudesse finalmente prosperar.
O projeto do dicionário continuava a todo vapor. Em Moçambique, outros tantos verbetes foram acrescentados. Era, porém, um trabalho grande demais para ser levado a cabo por uma só pessoa. Em outra de suas viagens ao Brasil, João descobriu que sua coleção de selos e postais poderia ser vendida por uma soma vultosa, o que ajudaria a quitar algumas despesas. Acabou se desfazendo da coleção.
Nessa mesma ocasião, durante o leilão, travou conhecimento com alguns intelectuais que souberam que ele era o padeiro-médico — ou médico-padeiro e empresário — que estava sempre na África. Movidos pela curiosidade, eles foram tirar a limpo aquela história. Ao iniciarem a conversa, não sabiam que começariam ali sua participação no dicionário e que terminariam a obra, a qual João lamentava não estar nem na metade. No início do diálogo, os intelectuais estavam descrentes de como seria possível um homem só acumular tanto conhecimento naquele espaço de tempo. Mesmo com dúvidas, a história era tão bem contada que, ainda que fosse mentira, já valeria a viagem. Todos foram convidados a ir ao seu escritório em um sábado para examinar o projeto do dicionário.
Ao chegarem no dia combinado, viram uma mesa com os mais variados pães, doces e tudo o que sabiam que era vendido na padaria que, naquele tempo, era a mais conhecida da cidade. João chegou com o avental ainda sujo de farinha e convidou cada um daqueles senhores para uma aula em um dia qualquer.


