SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA-BETTE VITTORINO

Renato Lannes Chagas entrevista Bette Vittorino

Renato Lannes Chagas:
Você começou a se interessar pela leitura desde que idade? Quando começou a ler Poesia? Quando começou a escrevê-las?

Bette Vittorino:
Aos seis anos de idade, já estava alfabetizada. Meu contato com os livros, foram iniciados por minha mãe que os lia pra mim. Depois eu mesma queria ler todas as histórias que conheci através dela. Novos contos de Grim (1938), edição antiga e encardida, tradução de Monteiro Lobato; As mais belas histórias (1954), Lúcia Casasanta; Fábulas italianas (1956), Ítalo Calvino. Estes foram meus primeiros amigos.

O interesse pela poesia nasceu bem precoce. Aos 12 anos lia J.G. de Araújo Jorge, Gonçalves Dias, Cora Coralina, Florbela Espanca, Cecília Meireles e Augusto dos Anjos. Esses livros pertenciam aos irmãos mais velhos. Eles, tiveram grande influência nas minhas primeiras e tímidas criações.

Nesse tempo, também tinha o hábito de escrever diários. E com isso, já arriscava alguns textos, seguindo as antigas normas, métricas e estéticas, ensinada nas aulas no ginasial.

Com o passar do tempo, fui adquirindo um certo traquejo (manha) e fui aperfeiçoando ou tentando formas diversificadas. Poesia é viciante.

Renato Lannes Chagas:
Você também escreve prosa? Se sim. Qual é a sua preferência: prosa ou poesia ou as duas? Você prefere escrever à mão ? Houve época em que usava máquina de escrever?

Bette Vittorino:
Sim. Escrevo prosa. Em alguns momentos, nos deparamos com cenas comoventes, imagens ou mesmo, situações que nos toca de certa forma. Então, pego caneta, lápis, e rascunho uma prosa.

Gosto não só dessas duas formas de criações. Mas não tenho especificamente uma preferência.

Mas a poesia é uma das minhas paixões. Ela foca nas emoções. É a criação de imagens através da palavra. Encontramos poesia em todas as outras artes. Música, pintura, escultura, etc. Ela nos permite mapear sentimentos intensos, curar almas. Também, nos remete a oralidade que é a forma mais antiga de nossa expressão humana.

Mais que um texto, ela é sensibilidade, descreve formas de interpretações da realidade, agindo como um mecanismo de sobrevivência. Une palavras delicadas, doces. Gera mistérios, reflexões e novas perspectivas. Enfim, caracteriza a subjetividade, imagens, sonoridade e vai além da beleza.

É uma linguagem universal. Gosto de rascunhar os textos no papel. Depois transcrevia em máquinas de escrever. Fui por muitos anos secretária e fiz curso de datilografia e taquigrafia. Eram requisitos para a minha profissão.

Renato Lannes Chagas:
Hoje em dia você prefere escrever à mão ou escreve diretamente em algum dispositivo eletrônico?

Bette Vittorino:
Ainda escrevo à mão. Depois passo para o dispositivo eletrônico. Aproveito com a escrita, exercitar e ativar áreas ligadas à memória e à coordenação motora. A digitação não estimula e, a prática manual, além das conexões neurais, ajuda a reter informações e organizar o pensamento.

Renato Lannes Chagas:
Na época em que trabalhou na empresa que fabricava máquinas escrever, pensou em ter mais de um modelo? Fez curso de datilogafia? Imaginava escritores, jornalistas ou mesmo estudantes naquela “sinfonia” tão peculiar que eram essas máquinas sendo usadas? Sente saudade dos sons delas?

Bette Vittorino:
Mesmo trabalhando com vários modelos diariamente, possuía alguns modelos de máquina de escrever e calculadoras. A empresa fabricava máquinas de escrever mecânicas, elétricas e eletrônicas, calculadoras mecânicas e eletrônicas, mimeográfos.

Sim, fiz cursos de datilografia.

A maioria de nós, e em todas as profissões que exigiam textos alinhados e principalmente oficiais, deviam ouvir essa, “sinfonia peculiar”, dos sons das teclas tocadas pelos dedos dos datilografos.

Sinto saudade e nostalgia desse tempo. Com a chegada da tecnologia e seus computadores, tornaram-se obsoletos.

 Renato Lannes Chagas:
Você tem uma conta ativa há muitos anos numa plataforma que, na minha opinião, é muito funcional e democrática. Como avalia a sua experiência lá no Recanto das Letras com as participações no Projeto Literário Palavras Sem Fronteiras?

Bette Vittorino:
Há um bom tempo posto meus textos no site Recanto das Letras. Sou participante de algumas antologias.

Toda avaliação têm um processo gradativo. No Recanto, a finalidade é de apresentar os textos de novos e antigos autores. Não é experimental. Mas apresenta resultados positivos, individuais e coletivos.

O Projeto Literário Palavras sem Fronteiras, tem como objetivo de cruzar mares e territórios. Unindo e somando, trabalhos de autores que falam a mesma língua, ou seja, um intercâmbio de países que se entendem de uma forma clara, por conhecer o mesmo idioma, o português.

Nesse tempo, tenho participado de antologias e entendendo como é a junção da nossa literatura com a de outros países. E, ainda, como ela vem se deteriorando nos últimos tempos. Seja por falta de interesse da própria classe estudantil, ou por negligência da plataforma da educação.

Com a extinção da maioria da bibliotecas públicas do nosso país, tornou-se preocupante essa realidade. Os dispositivos eletrônicos têm mais atrativos que os livros, e, por isso, a literatura vem perdendo espaço. A falta de incentivo nas salas de aulas das escolas, principalmente, as municipais e estaduais, colaboram pra que a nossa cultura, não só a literária, mas a cultura em geral, deixe esmaecer a sua importância. Antes, líamos os livros pra fazer resumo e provas. Hoje, os jovens pegam atalhos com resenhas, na internet. Ficam sem saber a essência principal, do que realmente o autor, colocou nas páginas não lidas.

A minha experiência no Recanto das Letras sempre teve bons resultados. Assim como, no Projeto Literário Palavras Sem Fronteiras, também. Claro, são distintas.

No Projeto Literário Palavras sem Fronteiras, os integrantes do grupo, seguem uníssono num só objetivo. Mostrar nossa arte e compartilhar interesses. Como falamos e cantamos na mesma língua, somamos forças para criar impacto num mundo que clama por inovações e resultados.

Temos ainda um contato distante, mas percebemos que nossa preocupação com a literatura e a cultura em geral, continua procurando melhoria na qualidade da educação de nossos povos.

Renato Lannes Chagas:
Você esteve trabalhando na área da educação. Quais funções exerceu? Por quanto tempo? Como era, na sua avaliação, o fomento à leitura naquela época?

Bette Vittorino:
Na área da educação, apesar das assessorias escolar e alimentar, serem na mesma sala, os assuntos inerentes às secretarias eram diferentes. Presidia o Conselho de alimentação escolar (CAE). Órgão colegiado responsável por fiscalizar e monitorar os recursos repassados pelo FNDE para a merenda nas escolas públicas.

A refeição escolar é fundamental para o desenvolvimento da capacidade cognitiva, energia e aprimorar o aprendizado. Nesse cenário, fiquei por 5 anos.

Com a educação, trabalhei ainda jovem no projeto Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL). A finalidade era erradicar o analfabetismo no Brasil. Seu foco era ensinar a ler e escrever, ou seja, funcional.

Como musicista, trabalhei até 2020. Ensinava teoria musical e instrumental num projeto criado por mim e uma amiga, também integrante da Orquestra de Flautas Pró- Música. Sempre incentivando não somente os livros referente a matéria, mas artes em geral.

Fiz algumas palestras em salas de aulas de escolas públicas, sobre a importância de ler e estudar a nossa literatura nacional. Usava alguns de meus próprios textos pra ilustrar.

Renato Lannes Chagas:
Em termos educacionais, com sua experiência, qual a importância da leitura para o aprendizado? Para a vida e cultura geral do estudante e da formação do cidadão?

 Bette Vittorino:
A leitura é de crucial relevância para a formação do estudante e pra qualquer pessoa. Ela trabalha o nosso intelecto, aguça nossa curiosidade, melhora o nosso vocabulário. Não devemos nos limitar apenas na didática, mas também ultrapassar limites de toda cultura. Assistir documentários históricos, ler romances, revistas de ciência, tecnologia e sobre tudo que acontece ao nosso redor. Ficar atualizado é base para todos os cidadãos. Não podemos viver estagnados num mundo em que a cada dia, vem se modificando. E, nos prepararmos, emocionalmente e profissionalmente, para não ignorar nossos diretos enquanto cidadão.

Renato Lannes Chagas:
Para você qual a importância, dentro da arte literária, De ter contato com os demais países falantes da língua portuguesa?

Bette Vittorino:
É gratificante poder conhecer países e pessoas onde identificamos que, temos um propósito em comum, e apesar de tantas barreiras que dificultam nossa caminhada, não impedem a nossa marcha em direção as nossas ações individuais e coletivas que tanto desejamos: a evolução literária.

Renato Lannes Chagas:
Deixe uma citação de uma obra da literatura e uma da literatura brasileira.

Bette Vittorino:
A literatura universal, além de vasta é interessante. E uma das citações que me tocou fundo foi:

《Como eu escreveria bem se não existisse! Se entre a folha branca e a efervescência das palavras e das histórias que tomam formas e se desvanecem sem que — alguém as observe…–》_ Se um viajante numa noite de inverno _ 1979_ Ítalo Calvino.

Tenho um texto que faço alusão a esse livro: Se um homem numa noite de inverno _ 2006 _ bette vittorino _ recanto das Letras.

Obras desse autor: Amores difíceis; As cidades invisíveis.

Na nossa literatura, são tantos autores que me marcaram. Durante o meu estudo da Literatura Brasileira, do quinhentismo ao contemporâneo são décadas, séculfos de cultura. Um caminhar lento e preciso, de importância primordial a cada fase. Colecionava os livros dos imortais da nossa literatura que acompanhava o jornal dos domingos. A cada semana, os devorava, literalmente.

Uma das minhas citações preferidas:《 Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.》– Manifesto Antropófago– (1928)– Oswald de Andrade.

Ensaísta polêmico, foi um dos principais autores do movimento cultural modernista brasileiro. Sua proposta antropofágica propunha uma modernidade, digamos, “devoradora”, das influências europeias. Construiu uma linguagem original, autêntica e independente. Suas obras permanecem como um convite à ousadia e a reinvenção.

Obras do autor: A marcha das utopias; Memórias sentimentais de João Miramar.

Redes sociais para quem desejar conhecer mais sobre os trabalhos da entrevistada:

https://www.facebook.com/share/1FL6g7Qvpc/

https://www.instagram.com/bette.54?igsh=MXhxMXV1ZDRsMG9sNA==

https://www.recantodasletras.com.br/autores/bbvittorino

6 thoughts on “SEM FRONTEIRAS ENTREVISTA-BETTE VITTORINO

    1. Tamo junto, obrigado você por trazer sempre pessoas interessantes que fazem um excelentissimo trabalho como o de Bette Vittorino.

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