Entre Linhas- Caminhoneiros não são escudo para golpista

Caminhoneiros não são escudo para golpista por Luis Augusto do Carmo(Alladin)


A convocação de uma suposta paralisação nacional dos caminhoneiros para esta quinta-feira escancara, mais uma vez, a tentativa desesperada da extrema-direita de instrumentalizar trabalhadores para defender interesses particulares, e ilegítimos. A pauta oficial não poderia ser mais reveladora: protestar contra a prisão de Jair Bolsonaro e pedir anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Nada tem a ver com frete, condições de trabalho ou aposentadoria. Tem a ver com salvar um projeto político derrotado nas urnas e condenado na Justiça.

Bolsonaro foi declarado culpado de cinco crimes graves: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça, e deterioração de patrimônio tombado. Está preso não por perseguição, mas por responsabilidade direta em atos que atentaram contra a República. Tentar usar caminhoneiros como massa de manobra para reverter uma condenação judicial é, além de irresponsável, profundamente antidemocrático.
E o mais simbólico: nem os caminhoneiros aceitam participar dessa farsa.
As lideranças sérias da categoria foram rápidas e categóricas. Wallace Landim, o Chorão, presidente da Abrava, disse o óbvio que muitos tentam ignorar:
“Usar o caminhoneiro para defender político A ou B? Não vou compactuar.”
Carlos Alberto Litti Dahmer, da CNTTL, foi ainda mais direto:
“Não dá para querer anistiar quem tentou transformar a democracia através de um golpe.”
Os próprios motoristas, na base da categoria, responderam com dureza e lucidez. Vídeos se multiplicaram nas redes sociais com caminhoneiros indignados, denunciando o oportunismo e rejeitando qualquer paralisação em defesa de Bolsonaro. Um deles, Silvio Martins, resumiu o sentimento geral:


“Parar por quê? Por que prendeu Bolsonaro? Prendeu porque deve. Tá com dó, vai para a cadeia junto.”
Essa reação popular desmonta uma narrativa construída por influenciadores, políticos e empresários que, mais uma vez, tentam fabricar a ideia de um país à beira de convulsão para proteger os seus heróis antidemocráticos. A verdade é outra: os caminhoneiros não querem ser usados. Não querem ser escudo de golpista. Querem trabalhar e querem respeito.
A ironia é que as pautas legítimas da categoria, piso mínimo, aposentadoria especial, condições de trabalho, só perdem força quando misturadas à agenda golpista. O que poderia ser um debate sério vira manobra ridícula, incapaz de enganar até mesmo aqueles que seriam, em tese, seus protagonistas.
E é preciso dizer com todas as letras: a extrema-direita tenta repetir, agora, a mesma estratégia de 2021 e 2022, quando buscou vincular caminhoneiros a agendas de ruptura institucional. Não deu certo antes, e não dará agora. O país já aprendeu o preço de flertar com o abismo.
A democracia brasileira continua sendo atacada, mas também continua resistindo. Parte dessa resistência vem justamente de trabalhadores que se recusam a ser manipulados por figuras que, quando estiveram no poder, pouco ou nada fizeram pela categoria que agora tentam convocar.
Os caminhoneiros não vão parar o Brasil para defender quem tentou parar a democracia.
E isso, em si, é um alívio para o país.

 

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