Nascida na Maianga, coração de Luanda, Iracelma Patrícia carrega em sua escrita as marcas da infância vivida em um bairro que, para ela, foi o primeiro grande livro de memórias. “A Maianga não é apenas o lugar onde nasci, é o solo onde finquei as raízes da minha identidade”, afirma. Cada experiência na infância, entre acolhimento e desafios, moldou sua sensibilidade literária e a capacidade de traduzir emoções humanas em poesia.
Da engenharia à poesia
Formada em Engenharia Hidráulica em Cuba, Iracelma vê uma ponte natural entre cálculos e versos. “A hidráulica estuda o movimento, a força e a condução dos fluidos; a poesia faz exatamente o mesmo, só que com as emoções”, explica. Para ela, projetar canais para a água fluir é semelhante a criar versos que conduzem sentimentos. “Sou uma engenheira de águas e de sentimentos”, resume.
Literatura como sobrevivência
A descoberta de que a literatura seria essencial em sua vida aconteceu há mais de uma década. “A escrita deixou de ser passatempo e tornou-se necessidade vital de sobrevivência emocional”, revela. O papel tornou-se espaço de liberdade, cura e reconstrução, onde seus silêncios mais profundos ganharam ordem e beleza.
O nascimento dos poemas
Iracelma descreve seu processo criativo como uma escuta interna. “Um poema nasce quase sempre do silêncio e da necessidade de descompressão”, diz. Não há rituais fixos, mas sim a observação atenta das dores e superações ao redor. Escrever, para ela, é um ato de cura e autodescoberta.
Silêncios da Minh’Alma
Sua obra de estreia, Silêncios da Minh’Alma, nasceu da vontade de dar voz às dores e reflexões guardadas no íntimo. “Quero que o leitor perceba que não está sozinho nos seus sentimentos mais profundos e que é possível encontrar beleza e força mesmo nos dias mais cinzentos”, afirma. O silêncio, tema central, é visto como refúgio e ponto de partida: “Ele é o solo fértil onde a alma se expressa com maior honestidade”.
Tecnologia e proximidade
A autora inovou ao incluir QR Codes no livro, permitindo que leitores acessem declamações em vídeo. “A poesia ganha vida quando é dita em voz alta. Quis que os leitores ouvissem a minha voz e sentissem o ritmo do meu coração”, explica. A iniciativa aproxima público e autora, criando uma experiência sensorial completa.
Publicação independente
A parceria com a Global Books foi decisiva para a distribuição da obra. A editora cuidou da logística, colocando o livro em plataformas como Hotmart (digital) e Uiclap (físico). “Isso me permitiu focar na escrita e na declamação, sabendo que a obra chegaria ao público com qualidade”, destaca.
Influências e futuro
Entre suas referências, Iracelma cita o legado de António Agostinho Neto, cuja poesia despertou sua paixão ainda na infância. Para o futuro, planeja explorar literatura voltada ao autoconhecimento e à resiliência. “Quero criar livros que funcionem como espelho e mapa, ajudando o leitor a compreender que nada acontece por acaso e que tudo tem solução quando nos levantamos e buscamos a resolução”, projeta.
Iracelma Patrícia constrói sua trajetória literária como quem projeta canais invisíveis: entre águas e sentimentos, entre silêncio e palavra. Sua obra é convite à introspecção e à cura, reafirmando que poesia é também engenharia da alma.
Na tarde de 19 de maio de 2026, às 16h, na histórica cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, a jornalista, turismóloga e escritora Jacilene Arruda assina esta reportagem para a revista Poesias e Cartas.



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