Sergio Bentes é produtor cultural há seis décadas. Tem, além de “Contos gregos” (Prêmio Editora Brunsmarck, 2025), dois livros também ganhadores de edição: “O canto e outros tantos contos” (Prêmio Associação Capixaba, 1996) e “Nos tempos de quintais – roteiro lírico e histórico de uma cidade” (Prêmio Secretaria de Cultura de Volta Redonda, 2005). Publicou dois livros de poesia: “Qualquer palavra” e “Quinta estação” (Editora Grupitrupiartes, 1999), e tem a ficção histórica “Patmos” (com o heterônimo Adib Khoury) publicada em 2025 na Amazon, além de participações em coletâneas no Brasil, Portugal, Espanha e México.
Tem prontos para edição outro livro de contos: “Das filhas de Eva” e a ficção distópica “Brasil – O fim do sonho”.
Conta com cerca de 150 canções em dezenas de CD’s e álbuns de outros artistas
nas plataformas, como letrista, músico, compositor, produtor e intérprete convidado.
Os dois hierofantes de Elêusis
Foi numa biblioteca do Cairo que eu soube pela primeira vez dessa
curiosa lenda, a qual tomo a liberdade de acrescentar alguns detalhes. Num
livro chamado Mistérios maiores e menores da Antiga Grécia, de um certo
Stanley T. Liar, há uma menção ao período em que o templo de Elêusis teve
mais de um sumo sacerdote ou hierofante, que era o título de quem ali exercia
essa função. Tradicionalmente sempre escolhido entre os integrantes das
famílias mais influentes, ele era considerado o guardião dos segredos
religiosos. Como era um cargo vitalício, essa escolha naturalmente só ocorria
por ocasião do falecimento do atual ocupante. Mas certa vez aconteceu de
isso ocorrer com um sacerdote ainda vivo. Muito adoentado, ele comunicou
seu afastamento das atividades no templo. E logo surgiram, vindos dos
principais clãs que detinham a preferência nessa escolha, dois pretendentes
ao cargo. Um e outro reinvidicavam para si a primazia, a preferência para tal.
Chegaram a um ponto em que foi preciso a intervenção dos iniciados e
assessores do templo para encontrar uma solução para o impasse. Os
experientes integrantes desse Conselho sugeriram então que, no terceiro dia
na semana da próxima lua cheia, os pretendentes fossem reunidos em Estivali.
Ali, numa praia à beira do rochedo que dava nome ao local, aguardariam um
sinal dos deuses desde o momento em que o sol nascesse até o poente. E que,
se não houvesse a escolha por manifestação divina nessa oportunidade, o
Conselho seria o encarregado da escolha de um terceiro nome, em outra
influente família.
A partir daí, nossa história tomou outros rumos. Movido pela
ambição, um dos candidatos usou de um ardil. De pronto visitou, sem
que ninguém soubesse das suas intenções, a um certo Harouk, o egípcio.
Este era um criador de pombos-correios, muito requisitados naquela época
para comunicação em guerras. Harouk os vendia ou os alugava para esses
trabalhos. Mas o pretendente o procurou apenas para combinar que, no
dia aprazado para a eventual manifestação dos céus, um pombo daqueles
aparecesse lá em Estivali. E que pousasse sobre a sua cabeça. Ou sobre seus
ombros. De preferência que fosse de cor branca. O egípcio, gabando-se da
linhagem das suas aves, mostrou para ele o Flecha, o melhor, o mais
inteligente, o mais veloz e o mais bem treinado animal da sua criação. E de
uma penugem clara como a neve. Deixou que ele tocasse na ave e após
receber pelo serviço a ser feito, garantiu que por volta das oito horas da manhã
do dia combinado, ele, o pretendente, seria o escolhido. E este, embora tenha
pagado caro pelo serviço, saiu dali satisfeito e esperançoso.
Ocorre porém que no dia seguinte, o outro pretendente, com as mesmas
intenções e sem que ninguém mais soubesse, também procurou por Harouk.
Ouviu dele as mesmas explicações e promessas, foi apresentado ao Flecha e
pagou um preço ainda mais alto. Mas saiu de lá feliz. E confiante de
que, desse jeito, seria o novo hierofante. E escolhido pelos céus, de alguma
forma.
Mas o que aconteceu no dia combinado foi muito diferente do que os
nossos principais personagens esperavam. Às oito horas da manhã, enquanto
todos aguardavam em orações desde cedo, surgiram no céu, vindos em
direção da base do rochedo, dois pombos brancos. Em uníssono ouviu-se um
burburinho entre os espectadores, que subiram o olhar seguindo aquele
inesperado vôo. Os candidatos, mesmo surpresos com o número de aves,
levantaram-se. Parados, um ao lado do outro e perfilados à frente dos seus
respectivos seguidores, cada um deles antecipou interiormente sua iminente
glória. Um e outro já saboreavam em pensamento as honras e o status que a
sua provável escolha proporcionaria.
Porém, antes que os animais pudessem chegar na área sombreada pelo
grande rochedo, ouviu-se um silvo. Longo e depois mais próximo, até cessar
repentinamente. Um farfalhar de asas seguiu-se a ele. Foi quando viram surgir
uma imensa águia negra que, mergulhando célere em direção aos pombos,
levou um deles entre as suas garras. E assim como surgira, rapidamente e de
surpresa, também sumiu nos ares acima do rochedo.
Nesse instante o pombo remanescente, assustado, descia na areia da
praia. No espaço deixado pelos fiéis, emocionados pelo que acontecera,
pousou de frente aos dois pretendentes. E como parou, ali ficou, estático,
depois de ajeitar as asas brancas e repousar, fixando o olhar inexpressivo de
ave nos candidatos, ambos desapontados com aquele desfecho.
Tudo o que ocorreu ali foi interpretado pelos integrantes do Conselho e
outros presentes como um sinal dos deuses para que desta feita os dois
fossem os escolhidos. Estava resolvido o dilema! A águia seria o próprio Zeus
ou teria sido enviada por ele. Ou pela deusa Deméter, a quem o templo de
Elêusis era consagrado. Enfim, era uma solução divina e inusitada para o
impasse criado pela litigância, pela ambição e pelo orgulho. E que surpreendeu
mais ainda aos principais interessados. Que ficaram remoendo o porquê de
terem surgido duas aves e não uma.
Pois o que nunca se soube é se Harouk, temeroso das consequências
do seu duplo compromisso, soltou Flecha e também a um outro pombo,
idêntico, esperando assim ficar bem com os ardilosos candidatos. Ou se uma
outra ave, talvez inexperiente, fugiu e seguiu o pombo escolhido no instante em
que este saiu das mãos do egípcio para cumprir a missão. Ou ainda, qual dos
dois animais foi levado pela águia. O que sei – e que não estava escrito no tal
livro – é que por meio do que chamamos de acaso, de sorte ou de coincidência,
os deuses realmente frustraram mais uma vez os planos



Parabéns pela publicação!!!👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
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Ótima história!!!! Parabéns!!!!👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Obrigado, Renato!
Que viagem! Excelente narrativa! Parabéns à Poesia e Cartas pela publicação! E ao Sergio também pela criatividade…
obrigado
Histórias sobre culturas antigas sempre nos trazem um sabor de mistério e curiosidades. Amei ❤️
Obrigado, Luciane!
Achei bem interessante. E vou querer ler outros escritos seu. Parabéns.
Intensamente, gosto desse tipo de história parabéns pela obra.