
O Vento que Não Levou as Letras
Sem saber, o momento de voltar estava mais próximo do que ela imaginava.
Era um entardecer comum.
Daqueles que parecem iguais a tantos outros.
Ela levantou da cama.
Tomou banho.
Preparou um café.
Sentou-se diante do computador.
Não procurava um milagre.
Não procurava uma resposta grandiosa.
Procurava apenas alguma coisa que lhe mostrasse uma direção.
Então digitou:
— Quando será a inscrição do Enem?
A pergunta parecia simples.
Mas algumas portas se abrem exatamente assim.
Silenciosamente.
Sem aviso.
Sem alarde.
A inscrição ainda estava aberta.
Ela se inscreveu naquele mesmo instante.
Sem saber, acabara de dar o primeiro passo de volta para si mesma.
Vieram os comentários.
Vieram os olhares de dúvida.
Vieram os deboches.
Mas ela foi.
Com a coragem possível.
Com os recursos possíveis.
Com as forças que ainda lhe restavam.
Foi fazer a prova praticamente sem enxergar direito.
Não tinha óculos adequados.
A visão já não era a mesma.
Havia anos que não estudava com regularidade.
Havia anos que a vida lhe cobrava sobrevivência em vez de conhecimento.
Mas ela foi.
E fez.
Quando o resultado saiu, ela demorou a acreditar.
Oitocentos pontos.
Oitocentos.
Depois de tantos anos.
Depois de tanta dor.
Depois de tanto silêncio.
Depois de tanto abandono.
Veio a bolsa integral do ProUni.
Veio o curso de Direito.
Veio um sonho antigo batendo novamente à porta.
Direito.
Um sonho de menina.
Um daqueles sonhos que ficaram guardados por décadas.
Esperando.
Ela entrou na faculdade sem luxo algum.
Muitas vezes sem livros.
Muitas vezes sem material adequado.
Muitas vezes com roupas simples.
Muitas vezes lutando contra a própria saúde.
Mas entrou.
E permaneceu.
Atendeu inúmeras pessoas no Núcleo Jurídico.
Aprendeu.
Acolheu.
Estudou.
Serviu.
Descobriu que amava ouvir histórias.
Amava orientar.
Amava buscar soluções.
Amava enxergar o ser humano para além do processo.
Vieram as notas altas.
Vieram os elogios.
Vieram as conquistas acadêmicas.
Vieram também as dificuldades.
Porque a doença ainda estava ali.
A depressão ainda cobrava seu preço.
O corpo ainda carregava marcas de batalhas antigas.
Mas ela continuou.
Passo após passo.
Sem desistir.
Até que chegou o dia da colação de grau.
Um dia que muitos considerariam apenas uma cerimônia.
Para ela era muito mais.
Era a prova de que os sonhos podem voltar.
Era a prova de que algumas sementes sobrevivem aos invernos mais rigorosos.
Era a prova de que a menina dos livros jamais havia morrido.
No dia 8 de abril de 2026 completaram-se dois anos daquela conquista.
Vieram as pós-graduações.
Vieram os cursos de extensão.
Veio a Psicanálise.
Um desejo antigo de compreender a alma humana.
Veio o Reiki.
A busca por cura.
Por equilíbrio.
Por acolhimento.
Hoje ela é Mestre Reiki do Eu Interior.
Estuda Psicanálise com dedicação.
Estuda Direito com amor.
E segue preparando-se para mais um sonho.
Vem OAB esse ano.
E ela sorri ao pensar nisso.
Porque já aprendeu uma verdade que a vida lhe ensinou:
Nunca é tarde para quem continua caminhando.
Aos cinquenta e seis anos, alguns dizem que ela é velha para começar.
Ela discorda.
As árvores mais fortes costumam ter raízes profundas.
E raízes profundas levam tempo para crescer.
Ela continua sonhando.
Continua estudando.
Continua aprendendo.
Continua acreditando.
E continua ajudando pessoas.
Porque descobriu que sua missão talvez nunca tenha sido apenas vencer.
Talvez sua missão seja mostrar que é possível recomeçar.
Às vezes ela ainda sente saudades.
Muitas saudades.
Saudades dos avós.
Saudades da avó Iolanda.
Saudades da avó Angélica Penckal.
Do sorriso mais bonito que já conheceu.
Dos pierogis que jamais encontrou iguais em lugar nenhum.
Saudades do avô Guilherme.
Dos panelões de sopa.
Do fogão a lenha.
Do pinhão fumegando nas tardes frias.
Do pão caseiro recém-saído do forno.
Saudades do tio Juca chegando com sua Scania para buscá-la para mais uma temporada de férias.
Saudades da menina que ensinava as primas.
Saudades daquela casa cheia de vida.
Mas existem saudades ainda maiores.
As saudades dos pais.
Ambrósio Penckal.
Dianir Margarida Rodrigues Penckal.
Dois dos grandes amores de sua vida.
Ela sente falta dos churrascos.
Do jardim.
Das verduras.
Dos legumes.
Das frutas.
Da colheita.
Das conversas simples.
Das risadas.
Da presença.
Da certeza de que existia um lugar para voltar.
Hoje essa casa já não existe.
Pelo menos não da forma como existia antes.
Mas algumas presenças permanecem.
Ela sabe disso.
Os entendedores entenderão.
Existe um pé de jasmim em sua memória.
O jasmim da infância.
Aquele que perfumava os finais de tarde.
Hoje ela possui outro.
Ainda pequeno.
Ainda crescendo.
Mas toda vez que floresce e espalha seu perfume pelo ar, ela sente o pai.
Não consegue explicar.
Nem precisa.
O amor verdadeiro dispensa explicações.
O luto também.
Cada pessoa aprende a amar a ausência de uma forma diferente.
Ela aprendeu a encontrar presença.
Em um perfume.
Em uma lembrança.
Em um sonho.
Em uma oração.
Em um silêncio.
Às vezes visível aos olhos.
Às vezes apenas ao coração.
A história que você acabou de ler é apenas um pedaço daquela menina.
Uma menina que às vezes explode, sim.
Que se revolta.
Que questiona.
Que não aceita injustiças com facilidade.
Mas que nunca perdeu a capacidade de amar.
Nunca perdeu a capacidade de sentir a dor do outro.
Nunca perdeu a capacidade de se colocar no lugar do próximo.
Talvez porque conheça o sofrimento.
Talvez porque conheça a solidão.
Talvez porque saiba que cada pessoa trava batalhas invisíveis.
Ela não é perfeita.
Nunca foi.
Mas continua tentando ser humana.
Continua tentando ser justa.
Continua tentando ser melhor do que as dores que recebeu.
Quando olha para os netos — Matteo, Lorenzo e Laura Helena — faz uma oração silenciosa.
Que eles possam conhecer as maravilhas de ter avós.
Que construam memórias bonitas.
Que carreguem amor suficiente para aquecer os dias difíceis.
E existe também um desejo guardado em seu coração.
Talvez um sonho.
Talvez uma utopia.
Mas ainda assim um desejo.
Quem sabe um dia seus filhos possam dizer:
— Mãe, você fez tudo o que podia.
E tudo aquilo que não conseguiu fazer estava além das suas forças.
Nós sabemos disso.
Estamos aqui.
Nós vencemos.
Porque foi você quem nos ensinou a levantar depois das quedas.
Foi você quem nos ensinou a não desistir.
Foi você quem nos ensinou a acreditar.
Foi você quem nos ensinou a ter fé em Jesus.
Em Maria.
E também em nós mesmos.
Talvez esse dia venha.
Talvez não.
Mas enquanto existir esperança, ela continuará caminhando.
Porque algumas pessoas não são definidas pelas dores que sofreram.
São definidas pela coragem de continuar.
E a história que você acabou de ler é apenas um pedaço daquela menina.
Uma menina que atravessou ventos, perdas, silêncios, injustiças, lutos e recomeços.
Uma menina que voltou pelas letras.
E que continua escrevendo.
Dedicatória
Dedicado à vida.
Aos ensinamentos do Cristianismo.
A Jesus Cristo.
A Maria.
A José.
Aos meus avós.
Aos meus pais,
Ambrósio Penckal
e
Dianir Margarida Rodrigues Penckal.
Com gratidão por tudo o que me ensinaram.
Frases Autorais
“As feridas contam o que aconteceu; a coragem conta quem nos tornamos.”
“Os sonhos não morrem quando são interrompidos; apenas aguardam o momento de voltar.”
“A infância me ensinou a ler livros. A vida me ensinou a ler almas.”
“Quem atravessa o inverno sem perder a ternura já venceu metade da batalha.”
“Ainda que me roubassem quase tudo, não conseguiram levar aquilo que Deus escreveu em mim.”
“Quando o perfume do jasmim chega sem avisar, meu coração sabe exatamente quem veio me visitar.”
“Sobreviver foi necessário. Recomeçar foi uma escolha.”
“A fé não apagou minhas cicatrizes; ela me ensinou a caminhar com elas.”
Com amor,
Célia Penckal
18 de junho de 2026
Curitiba – Paraná – Brasil

