Violência de Gênero e o Resgate do Feminino Sagrado

Redatado por Jacilene Arruda – turismóloga, escritora, jornalista, filantropa e muçulmana

A violência contra a mulher é um fenômeno estrutural que atravessa fronteiras e culturas, manifestando-se em diferentes intensidades ao redor do mundo. No Brasil, os números são alarmantes: segundo o Atlas da Violência/Ipea, foram registrados 1.350 feminicídios em 2020, 1.366 em 2021 e 1.437 em 2022. Em 2023, conforme a Agência Brasil, o número chegou a 1.438, e em 2024, de acordo com o Ministério da Justiça, foram 1.464 casos. Já em 2025, o Monitor de Feminicídios da UEL contabilizou 1.470 mortes, o que representa quase quatro mulheres assassinadas por dia.

No cenário internacional, a situação também é grave. O SESNSP do México aponta cerca de 700 feminicídios anuais entre 2023 e 2025. Na Europa, dados do Eurostat indicam 107 casos na França em 2024, cerca de 120 na Alemanha e 60 na Espanha. Já na Ásia, a ONU Mulheres estima que a Índia registre aproximadamente 20 mil mortes anuais relacionadas à violência doméstica ou aos chamados “dowry deaths”, enquanto o Paquistão contabiliza cerca de mil crimes de honra por ano. Globalmente, o UNODC e a ONU Mulheres informam que 83 mil mulheres foram assassinadas em 2024, sendo 50 mil por parceiros íntimos ou familiares.

Diante dessa realidade, o Brasil avançou legislativamente com a aprovação, em março de 2026, da lei que criminaliza a misoginia, equiparando-a ao racismo. O projeto prevê penas de dois a cinco anos de prisão e torna o crime inafiançável e imprescritível. Essa medida amplia a proteção das mulheres, reconhecendo que a violência não se limita ao âmbito físico, mas também se manifesta em discursos de ódio e práticas simbólicas que reforçam a desigualdade.

Entretanto, superar a violência exige mais do que leis: é necessário transformar mentalidades. Nesse sentido, o conceito de sagrado feminino oferece uma perspectiva simbólica e espiritual que valoriza a mulher como portadora de ciclos vitais, intuição e sabedoria. A Lua, com suas fases — nova, crescente, cheia e minguante —, é tradicionalmente associada ao feminino e aos ritmos naturais do corpo da mulher. Enquanto o calendário gregoriano, de base solar, reflete uma visão linear e racional do tempo, os calendários islâmico (lunar) e hindus ou chineses (lunissolares) revelam uma percepção cíclica e espiritual, mais próxima da lógica do feminino sagrado.

Portanto, ao unir dados concretos sobre feminicídio e violência de gênero com reflexões culturais e espirituais, percebe-se que o enfrentamento desse problema deve ser multidimensional. As estatísticas evidenciam a urgência de políticas públicas eficazes, enquanto o resgate do feminino sagrado aponta para uma mudança de mentalidade capaz de inspirar respeito e equilíbrio. Somente ao integrar legislação, educação e cultura será possível construir uma sociedade em que a energia feminina seja reconhecida e a violência de gênero finalmente superada.

Fontes:

  • Atlas da Violência/Ipea (2020–2022)
  • Agência Brasil (2023)
  • Ministério da Justiça/G1 (2024)
  • Monitor de Feminicídios da UEL (2025)
  • SESNSP México (2023–2025)
  • Eurostat/Euronews (França, Alemanha, Espanha, 2024–2025)
  • ONU Mulheres e UNODC (Relatórios globais 2023–2024)
  • Senado Federal (Lei da Misoginia, aprovada em março de 2026)

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