Entrevista Especial- Marcondes Araujo

Rose Giar nos traz um poeta e escritor de grande sabedoria Marcondes Araujo da cidade Altos-Piaui.
Acompanhe e conheça um pouco deste fabuloso e incrivel

Rose Giar: Nome completo, algum heterônimo?
Marcondes Araujo:  Marcondes Gomes de Araújo, sempre procurei me identificar como Marcondes Araújo. Em determinada época passei a utilizar o pseudônimo magoar, atento às inicias do meu nome completo, posteriormente percebi que não parecia adequado e voltei a assinar simplesmente Marcondes Araújo.
Rose Giar:  De que cidade e estado você é?
Marcondes Araujo: Nasci na cidade de Teresina, capital do Piauí, onde vivi toda minha infância e adolescência. No início dos anos 80 fui estudar no Rio de Janeiro, de onde colhi significativas experiências que influenciaram minha concepção de vida, mas sempre jungido às minhas origens. Hodiernamente moro na cidade de Altos, que dista cerca de 40 km da capital Teresina. Aqui pude exercitar muito do que aprendi na minha trajetória de vida, mormente quanto ao exercício da advocacia e da gestão escolar, posto que fundei, com minha esposa uma escola de educação básica, onde já atuamos desde a educação infantil até o ensino médio. Uma experiência incrível…
Rose Giar: Quais são suas principais ocupações como escritor?
Marcondes Araujo: Na prática, eu não dependo da literatura e a tenho como fundamento espiritual para praticar os atos comuns de minha vida laboral. A literatura passou a ser uma companheira indissociável desde a infância, quando dividia com ela minhas agruras, incertezas, paixões e frustrações. Uma espécie de contubérnio que me auxiliava a compor alternativas de procedimentos. No princípio, costumava desabafar em versos, compostos sem preocupações com métricas justapostas. Adiante, arrisquei a escrever também prosas, sempre retratando cenários mais emergentes das dores do meu povo. Quando enveredei para a filosofia, meu repertório melhorou e novas inspirações e instigações passaram a me consumir. Confesso, contudo, que no presente, tenho lido bem mais que produzido textos, uma vez que busco conceitos mais profundos da subjetividade que permeia a humanidade em nossos tempos atuais, mas sempre me postando como um homúnculo diante da amplitude de grandes autores da nossa época.
Rose Giar:Sua infância, pais, como era sua vida, sua infância?
Marcondes Araujo: Venho de uma família de oito irmãos, muito unida e efervescente nos debates das questões sociais da contemporaneidade. Com eles aprendo bastante e constantemente, dialogando sobre os cenários de incertezas da humanidade e a preocupação com o meio ambiente, com nosso planeta e nossas relações sociais. Estar ao lado deles é sempre motivo de comemoração e prazer. Nossos pais foram cidadãos comuns, vindo do interior da cidade de Pedro II, no Piauí. Ambos sempre tiveram uma grande preocupação com a educação dos filhos, tanto no que tange à escolarização, quanto a formação moral. Foram realmente o suporte que até os dias atuais sustentam nosso modo de ser e de viver, sem ambições extravagantes e calcado numa formação onde solidariedade, compaixão e empatia sempre foram o norte da trajetória de vida. Meu pai deixou o ofício no labor de construção de estradas para tornar-se oficial de justiça do Tribunal do Trabalho. Já minha mãe, sempre muito zelosa com os filhos, velava pelo lar, o bem-estar e a nos ensinar os valores simples de sua formação oriunda do sertão, onde fora criada para ser prendada aos labores do lar, da criação dos filhos e da dedicação ao marido. Guardo somente recordações positivas…
Rose Giar:  Qual sua formação escolar e qual seu trabalho?
Marcondes Araujo: Sou graduado em Direito, Administração, Filosofia e Geografia, com especializações em todas essas áreas e mestrado em Filosofia, mas minha verdadeira profissão será sempre ser estudante. Sou ávido por novos conhecimentos em todas as áreas epistemológicas. Na prática, atuo como advogado atuante e diretor de uma escola de educação básica, pensada, edificada e construída com minha esposa Silvana Monte. E dessa escola que crio estímulos para acreditar na juventude e em novos ideais. Também sou servidor público aposentado da Universidade Federal do Piauí.
Rose Giar: Quando a poesia entrou na tua vida?
Marcondes Araujo: Como dizia o poeta Paulinho da Viola, “foi um rio que passou em minha vida /  e meu coração se deixou leva…”. Mas confesso que os primeiros estímulos de poesia vieram quando criança no interior da cidade de Pedro II. Naquela época, alguns cantadores passavam pelas fazendas e se apresentavam animando as pessoas dos povoados. Eles improvisavam rimas circunstanciais envolvendo pessoas da plateia e achei isso fascinante. Eu tentava imitá-los, tentando descrever o cotidiano dos moradores e da minha família. A coisa foi pegando e me estimulando a produzir. No início trarei como mera diversão, mas depois entendi que poderia ir me aperfeiçoando e adaptando a uma perspectiva mais identitária. Passei a ler livros de poesias e me interessei pela literatura. Minha terceira infância foi bastante envolvida nessas leituras e na fase de adolescência passei a cultuar o hábito de ler e produzir poemas, tudo ainda sem muitas pretensões, mas a escola me permitiu desenvolver minhas habilidades e consegui alguns destaques naquele período, sendo premiado em eventos literários no ensino fundamental e médio. Posteriormente, passei a escrever poesia quase que como hábito, mas tinha muito receio em publicar. Após incentivos de professores, amigos e alguns escritores já consagrados na literatura piauiense, passei a arriscar publicações em antologias. Hoje, escrever poesia passou a ser uma necessidade orgânica diária.
Rose Giar:Quantos anos você tinha quando começou a escrever?
Marcondes Araujo: Não tenho a precisão do período, mas tenho a percepção de que iniciei por volta dos nove a dez anos de idade, mas eram produções esparsas e apenas para refúgio da alma. Concretamente, debrucei-me a escrever com maior intensidade após leituras de publicações poéticas e contos literários já na adolescência, após os treze anos de idade.
Rose Giar: Quais livros que você leu, que marcou ou te influenciou?
Marcondes Araujo: Quando era adolescente, viajava de férias para a cidade de São João dos Patos, no Maranhão onde morava meu irmão Chico Wilson, que fora aprovado no concurso do Banco do Brasil. Naquela época ele também já tinha gosto pela literatura e, como tinha mais recursos financeiros, cultivava uma biblioteca particular com vários clássicos da literatura mundial. Eu passava minhas férias enfurnado na casa onde ele morava, apenas lendo aqueles clássicos. Era fascinante. Naquela época li Robinson Crusoé, (Daniel Defoe), Dom Quixote (Miguel de Cervantes), Hamlet (Sheakspeare), A Divina Comédia (Dante Alighieri), Utopia (Thomas Morus), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Vidas Secas e Angústia (Graciliano Ramos), entre tantos outros. Um deles me marcou significativamente: Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe). Fiquei muito emocionado com essa leitura. Também passei a gosta da literatura russa, mormente com Os irmãos Karamazov (Dostoiévsky) e Ana Karenina (Tolstói).  Nesse período eram romances que me estimularam a escrever poesias.
Na língua pátria, me chamou atenção a poesia rebelde de Gregório de Matos, fiquei deslumbrado pelos desabafos construídos em forma poética. Também me marcou a vida o texto Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga; o texto O Navio Negreiro de Castro Alves ainda hoje me marca. Destaco ainda a poética do maranhense Gonçalves Dia e a sublime lírica da carioca Cecília Meireles. Posteriormente, senti-me influenciado pela produção sombria de Augusto dos Anjos. Deslumbrado pela versatilidade estilística de Carlos Drumond de Andrade e Vinícius de Moraes e pelas produções lusitanas, principalmente de eclético Fernando Pessoa e a pureza de Florbela Espanca.
De minha terra piauiense, também são várias relevâncias poéticos que me influenciaram e ainda influenciam, tendo como destaques Mário Faustino, Da Costa e Silva, Torquato Neto, Elmar Carvalho, dentre outros tantos talentos que produzimos. Enfim, sou facilmente influenciado
Rose Giar: Cite um autor ou escritor que te inspira, porque?
Marcondes Araujo: São vários, com destaque especial para Johann Wolfgang von Goethe, principalmente pelo seu subjetivismo de cunho sentimental; aprecio a versatilidade de Fernando Pessoa. Mas tenho também muito apreço e influência dos filósofos como Rousseau, Hanna Arendt, Theodor Adorno, Jürgen Habermas e os brasileiros Ailton Krenac e Marilena Chuí. São vários e fica difícil escolher apenas um.

Rose Giar: Qual seu estilo poético preferido e o que te inspira a escrever?
Marcondes Araujo: Confesso que me inspiro sempre no cotidiano do meu povo e por essa razão tenho um instinto rebelde e um tanto irônico para expressar minhas sentimentalidades. Procuro inspiração sempre no contexto social cotidiano das amarguras da minha gente e nas esperanças frustradas e alvissareiras por elas vividas. Em relação ao estilo, sou versado em poesias rimadas, fruto do estilo cordel, desenvolvidas em sextilhas ou octilhas, com temáticas sugestionadas pelo cotidiano da sociedade e com viés filosófico.
Rose Giar:Qual a importância da Literatura na Arte para você?
Marcondes Araujo: Criar textos literários, em qualquer modalidade, representa um alimento para meu espírito. Sou instigado instintivamente a escrever para satisfazer minha alma. Não importa se irei agradar a quem quer que seja. Às vezes até repenso o que produzi, visando aperfeiçoar o sentimento original da escrita, mas ele continua sobrevivendo como expressão da minha concepção de criatividade. Quando imagino um fato para discorrer em poesia, forma-se um estado de tensão em minha mente, como se estabelecesse uma pressão, da qual exige um grito de liberdade que somente se consuma com o extravasamento da ideia em forma de letras. Após isso, instala-se uma aura de calmaria e satisfação interna.

Rose Giar:O que você acha do uso da Inteligência Artificial (IA) em textos, poemas, letras de músicas?
Marcondes Araujo: Qualquer tecnologia que venha auxiliar ou atenuar os esforços físicos do homem, liberando o mesmo para novos atos de criação são bem-vindas. Já a utilização das inovações tecnológicas visando substituir a criação e o talento humano, considero reprovável. No mesmo sentido, é preciso compreender que a instrumentalização do poder de criação artística não pode estar à mercê de controles automatizados, de padronizações superficiais, as quais terminam por moldar as produções artísticas em protótipos convencionais para mero objeto de consumo.
Rose Giar: Quais são suas esperanças e desesperanças com respeito a literatura brasileira no geral?
Marcondes Araujo: A gente é levado a crer que com mais acesso à educação, ter-se-ia maior produtividade cultural. É certo que o Brasil avançou em indicadores de educação, como também é certo que houve mais investimentos na cultura, através das leis de incentivo e dos editais do Ministério da Cultura. O que percebo é uma onda cada vez mais crescente de produções literárias despontando pelas cidades do interior de nossos estados, ao mesmo tempo em que crescem também as academias de letras e outros coletivos de poesias. Nesse sentido, entendo como alvissareiras as perspectivas no campo da literatura, inclusive o próprio cenário de mudanças sociais e tecnológicas induzem a se produzir mais textos literários. Sobre as academias de letras, percebe-se também uma espécie de transição, no momento em que os perfis dos acadêmicos estão deixando de ter um caráter hermético e erudito, conferindo espaços para a literatura mais popular.
No mesmo sentido, novas aberturas de publicações de livros ganharam mais espaço, com novas editoras, mais abertas e menos burocráticas, oportunizando a participação de um maior número de interessados em escrever e publicar. Além disso, as plataformas digitais abriram oportunidades para o mercado de livros. Acresça-se ao fato da promoção de várias feiras de livros nas diversas cidades do país. Por tudo isso, e mais outras coisas, só tenho expectativas promissoras. Além disso, a despeito dos momentos sombrios que já passamos, a pujança da nossa criatividade literária sempre deixou suas marcas positivas.
Rose Giar: Qual o papel das mulheres na literatura? Você acha que elas são e foram importantes para a literatura? Como?
Marcondes Araujo:  A mulher desde sempre foi da maior importância na história da literatura mundial, primeiramente porque representavam as divas de inspirações dos contextos literários, cantada e decantada pelos homens, diante de uma sociedade patriarcal que lhe tolhia direitos e oportunidades. Porém, evoluíram por força de sua própria luta e resistência para o papel de protagonistas, fazendo valer sua voz, sua vez e seus talentos. Entendo que essa superação de obstáculos deslocou o papel de passividade para proatividade, revelando equidade de vocações e aptidões vocacionais. Mas é curial que entendamos que desde sempre convivemos com produções literárias femininas, tendo a maioria delas se perdido em cadernos e baús corroídos pelos tempos. Contudo raros exemplos lograram reconhecimento no passado, graças a bravura daquelas que não se renderam ao cenário machista do patriarcalismo. Ainda bem que existiram essas desbravadoras…

Rose Giar:Quais gêneros literários Marcondes Araujo atua como escritor, contista e poeta?Marcopndes Araujo: Escrevo poesias e contos, mas também faço pesquisas, principalmente no campo filosófico, entretanto, me identifico com as elucubrações da subjetividade, dos estados emocionais e de espiritualidade que envolve o cidadão médio de nossos tempos, buscando sempre um viés lírico para desenvolver minha humilde poética ou minha ousada tentativa de ser contista.
Rose Giar: Na sua opinião, o que o escritor ou poeta, precisa fazer pra ser bem sucedido em nosso país?
Marcondes Araujo: Confesso que não me preocupo com isso. Nunca acalentei sonho de escrever um best seller ou despontar na lista dos 10 mais vendidos. Sempre escrevi por satisfação pessoal e, desde que perdi o receio e a timidez de expor minhas produções, tenho me sentido melhor e com mais liberdade. É fato, porém, que nunca dependi da produção literária para sobreviver e acho que precisamos de atentar para a profissionalização do escritor, posto que tem muita gente boa produzindo literatura e necessita de maiores espaços para repercutir seus dotes e viver da literatura. Convivo e respeito a obstinação de alguns amigos que optaram em viver da venda de livros e apostar na carreira de literato. Precisamos dessas pessoas na contemporaneidade.

Rose Giar:Você participa de alguma Academia Literária?
Marcondes Araujo: Sim, sou membra da Academia de Letras e Línguas Nativas de Altos (ALLNA), da qual estou atualmente exercendo meu quarto mandato como Presidente. Tive dois convites para outras academias, mas declinei porque precisaria de tempo para dedicação, uma vez que o ofício de presidente consome bastante nosso tempo e temos que ter muitas responsabilidades para desempenhar um bom papel.
Rose Giar:Você acha que as mídias sociais e plataformas ajudam na divulgação do trabalho do escritor? Conte-nos como as usam?
Marcondes Araujo: Entendo que as modalidades de difusão das produções literárias estiveram até pouco tempo à mercê dos jornais de grande circulação, das emissoras de rádio e da televisão. Isso proporcionava um certo elitismo porque muitos escolhiam o livro a partir da visão do crítico literário, ou seja, calcado na visão dele o livro tenderia ao sucesso das prateleiras. Hodiernamente, com a intensificação das plataformas digitais essa realidade mudou e as oportunidades para novos talentos cresceu. Entendo a relevância das mídias sociais, mas faço vista grossa com os novos influencers que estão dominando essas redes, com milhares de seguidores, encarnando e disseminando lixo literário e conceitos perigosos na mente, principalmente, dos novos leitores.
Rose Giar:Quais os nomes dos concursos que você já ganhou?
Marcondes Araujo: Fui contemplado em alguns poucos concursos literários de colégio e de faculdade, mas deixei de concorrer quando justamente passei a organizar concursos de poesias e contos, principalmente através da academia de letras que represento.

Rose Giar:Você tem livros ou obras autorais publicadas, cite os nomes e onde podem ser adquiridos?
Marcondes Araujo: Sim, tenho dois livros autorais e participação de algumas antologias. Gosto muito de antologia, pois entendo vir de um trabalho coletivo, onde o leitor pode apreciar diferentes pontos de vista e de estilos. Entre meus trabalhos autorais e coletivos, destaco:

  • Transumanismo – Discussões sobre eugenia liberal e dignidade da vida humana – Ed. Diálogos Freirianos
  • Fragmentos cotidianos de um operário do direito – Ed. Clube do Livro;
  • Farinha Altoense – antologia poética – Ed.Uiclap
  • Kactus – Antologia do Piauí Poético – Ed. ATL
  • Oxente – Poemas nordestinos – Antologia do Piauí Poético – Ed. Uiclap.
  • Nau lírica – Antologia do Piauí Poético – Ed. Anum
  • Antologia Brasil Poética – De todos os cantos e encantos – Ed. ATL.
  • Coletânea Poesia não tem cor – Ed. Parle.
  • Coletânea Rio abaixo, sertão acima – Academia Piauiense de Letras – Ed.
  • Altos – Contando histórias e estórias – Ed. Uiclap
    Rose Giar:Quais seus projetos futuros?
    Marcondes de Araujo: Tenho dois livros autorais prontos que pretendo lançar ainda neste ano de 2026 (Mentes que brilham e Poesia triangular). Também estou escrevendo outro livro de ficção romântica, ainda sem título final, mas que guarda estreita ligação com a problemática da eugenia liberal, questão que foi objeto da minha tese de mestrado. Também continuo envolvido em vários projetos da academia de letras que participo na minha cidade de Altos-PI. De resto, estou empenhado em ler bastante obras de escritores piauienses e da nossa região.
    Rose Giar: Deixe seus perfis em redes sociais para que possam te #seguir
    Marcondes Araujo: Confesso que não movimento minhas redes sociais, mas tenho e-mail: [email protected] e instagram: #marcondesaraujo

 

1 thought on “Entrevista Especial- Marcondes Araujo

  1. Meu amigo, Coin! Amigo de adolescência e juventude. Sempre uma cabeça pensante. Instigativa. Por força do nosso distanciamento territorial, confesso que desconhecia alguns dos seus merecidos títulos e ofícios. Excelente entrevista.

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