O TEMPO ia passando, João os estudos terminava, os negócios do pai estavam mais do que o esperado, porque já vendia não só para o palácio, vendia para todo bairro e em pleno centro da cidade, já abria mais de uma padaria e João tudo negociava, todos os preços conhecia e quando ia para cozinha, alguma mágica acontecia, que nem ele, nem seu pai, nem sua mãe ainda tinham conseguido perceber, mas seus pães ficavam melhores, maiores, mais frescos e saborosos e esses eram os preferidos dos monarcas. E João passou a ser o único a fazer os pães para realeza e, claro, eram os que eram servidos também na sua casa e quando iam fechar algum grande negócio. João tinha resolvido que iria para universidade, com o apoio e financiamento do pai e com a discordância da mãe. Ela via que a saúde do seu amado se esvaia, tal qual um punhado de farinha, quando deixado escorrer pelas mãos. Sem João por lá, como iriam manter os negócios em pé? Como iriam viver, agora que estavam acostumados, a toda aquela prosperidade? Aos confortos da vida na cidade? Mas os homens já estavam resolvidos e dois acabam convencendo um, nesse caso uma, a família real voltava. O imperador ao trono abdicava e João foi convidado para continuar na sua função, não só durante a viagem, mas também no palácio, em Lisboa, e com a universidade paga pelos cofres da coroa. Aceita a proposta, embarcaram sem demora. Foi aquela choradeira e era justamente numa sexta-feira. Chorou ele, chorou ela, chorou o pai, a mãe, até mesmo uma cadela, vira lata, que do seu pão já provara. Até quem não era do palácio ficou meio desiludido com a partida de João, porque até aquele momento eles não tinham noção do quanto João era sinônimo de pão. Nem mesmo o próprio João. Era melhor assim, se soubesse o que o esperava a frente, poderia se acovardar e nem seguir em frente. Isso tem de bom no amanhã. O não saber é o que permitiu aquele embarque, naquela tarde, em meio a tantas lágrimas, mas a maior parte das dele de saudades, porque era a primeira vez que saia de casa e não queria demorar para retornar, porque a saúde do pai também o preocupava, mas ele sabia e seus pais também que precisava continuar crescendo e se desenvolvendo. E foi. E a viagem foi melhor do que imaginava. Seguiu o pedido do pai e não colocou os pés no cais do local aonde ele partira, porque ali nada de bom acharia. Lá em Portugal achou a terra toda uma beleza. O tempo do estudo foi bem empregado. Se fez primeiro médico. Voltou. Tentou cuidar do pai, fez o melhor que pôde, mas o pai seguiu o caminho que a todos estamos destinados. Choraram, prantearam e mais uma vez ficaram surpresos com o tamanho da popularidade que Sebastião tinha na cidade. E também com o tamanho da fortuna deixada para a família. Era difícil entender que aquilo tudo era fruto colhido de farinha.

João Um Romance sobre Panificação Cap.2


Show!!! Muito obrigado!!!!
História maravilhosa, com certeza João tinha futuro com pão.