Entrevista com Litera Munthu

30 de abril de 2026, às 11:02 da Cidade de Ouro Preto, Estado de Minas Gerais, no Brasil

Por Jacilene Arruda — jornalista, turismóloga e escritora na revista Poesias e Cartas

A literatura angolana tem revelado vozes que se destacam pela profundidade filosófica e pela valorização cultural. Entre elas, está Litera Munthu, pseudônimo que carrega em si a força da escrita e da identidade africana. Nesta entrevista, ele compartilha sua trajetória, suas inspirações e sua visão sobre o papel da literatura na preservação da cultura e na formação das novas gerações.

1. Identidade e formação

Quem é Litera Munthu e como nasceu esse pseudônimo?

Litera Munthu: É um pseudônimo que significa pessoa que escreve. Este pseudônimo tem duas origens: uma latina e outra de Tchokwe. Litera do latim significa arte, escrita, expressão. E Munthu tchôkwe (língua africana, faz parte do Bantu e fala-se em Angola) significa pessoa.

Nasceu de uma simples curiosidade. Litera porque gostava assaz de Literatura (considerando o meu envolvimento) e Munthu surge de uma inspiração muito forte que tinha por um herói da Resistência de Angola que se chamava Mutu-ya-kevela. Vendo que Mutu é uma expressão Ngangelense (língua bantu, falada em Angola), decidi nasalizar a expressão para o Tchôkwe, que ficou Munthu. Tanto em Ngangela como em Tchôkwe significa pessoa. Neste caso, associei o “útil e o agradável”.

Como sua formação em Filosofia e Magistério influencia sua escrita poética e literária?

Litera Munthu: A minha FORMAÇÃO em FILOSOFIA e MAGISTÉRIO serviram como ponto de partida para a minha jornada no mundo da escrita. A base catapultadora da escrita, tive nestas formações. Foi o trampolim perfeito para este realizamento. O aprender a PENSAR e a MINISTRAR influenciou-me de que maneira para que eu pudesse adoptar este perfil literário poético.

Você se define como “médico dos corpos e das almas”. O que significa essa expressão para você?

Litera Munthu: “Médico dos corpos e das almas” significa uma pessoa que é convocada a atender os problemas dos outros. É uma figura que ilustra a posição de um verdadeiro guerreiro e exemplo de vida, garantindo a empatia, solidariedade, humildade e sabedoria.

2. Trajetória literária

Como foi sua experiência como revisor e editor na Editora Letras de Ouro e na Editora Esperança?

Litera Munthu: Como REVISOR, na Editora Letras D’ouro (Cuito — Bié) foi um desafio, pois estive a começar (grandemente) no mundo da arte. Fui apanhado de surpresa para ser revisor e dali em diante fui me superando e aperfeiçoando-me. Já na Editora Esperança – Brasil, fui um membro normal, contribuindo pois para o lançamento de uma obra.

Qual foi o impacto de ter vencido o Gala de Letras Awards na sua carreira?

Litera Munthu: Sendo sincero, a emoção de ter vencido o GALA DE LETRAS AWARDS foi tanta e impactante. Fiquei boquiaberto porque foi o meu primeiro concurso e a minha primeira manifestação.

Entre as antologias que participou (Poemas Sem Vogal, A Lua Cheia, A Esperança Que Habita em Mim), qual delas mais marcou sua trajetória e por quê?

Litera Munthu: A que marcou a minha trajectória foi POEMAS SEM VOGAL — publicada no Brasil—, porque desafiou-me a mim. Foi uma estrutura nunca ainda vista por mim.

3. Obras próprias

O que motivou a escrita de A Sabedoria do Morto e como o público recebeu essa obra?

Litera Munthu: A SABEDORIA DO MORTO, apesar de ter sido lançada só no Brasil longe da minha terra, a recepção foi sui generis. Tive vários elogios de escritores fabulosos e fora de séries. E isso me cativou bastante.

 

 

 

 

 

 

Agora você está lançando Kusola, o Tchandjangombe da Felicidade. Qual é a principal mensagem que deseja transmitir com esse livro?

Litera Munthu: Quero transmitir a questão da IDENTIDADE CULTURAL, ANTROPONÍMIA, VALORIZAÇÃO CULTURAL E ESPÍRITO DE EMPATIA E COOPERAÇÃO.

 

 

 

 

 

 

Sua escrita mistura crítica social, filosofia e espiritualidade. Como você equilibra esses elementos?

Litera Munthu: É simples. Eu gosto de fazer um estudo paralelo para mostrar a minha mundividência a partir de várias pontos de vistas. Trazer várias visões com pontos similares ajuda melhor a compreender a coisa.

4. Visão cultural e social

Qual é o papel da literatura na preservação da língua e da cultura em Angola?

Litera Munthu: Reveste-se de capital importância a LITERATURA, pois ajuda na preservação da Língua e da Cultura através dos seus ensinamentos, pois Literatura é vida.

Como você enxerga a juventude angolana no cenário literário atual?

Litera Munthu: Vejo que ainda tem muito que aprender sobre Literatura. A sociedade angolana passa por uma decadência que os coloca à margem da escrita e do seu envolvimento. Os poucos que ali estão fazem esforços e não são reconhecidos por uma questão económica. É triste, pensa-se.

Que desafios os escritores africanos enfrentam para serem reconhecidos internacionalmente?

Litera Munthu: Os desafios que os escritores africanos enfrentam são elencados da seguinte maneira:
1-Racismo;
2-Aceitação;
3-Reconhecimento;
4-Apoio;
5-Acompanhamento.

5. Futuro e legado

Quais são seus próximos projetos literários e editoriais?

Litera Munthu: Os meus próximos projectos revestem-se de novidade, porquanto trarei algo novo. Alguns deles girarão em torno do género dramático. Tais são: O Cachim do Copo; Cantíflas, O Paraíso dos Angolanos; Minhas Três Mães.

Que conselho você daria a jovens escritores que estão começando agora?

Litera Munthu: Aos NOVOS ESCRITORES, desejo muita prudência, paciência e, sobretudo, fortaleza. Sei que não é fácil. É difícil mas não é impossível. Trabalhem com tranquilidade e sobriedade. Portanto, tudo há de correr bem. Tem-se dito que o hábito faz o monge e assim será.

Como gostaria de ser lembrado no mundo da literatura?

Litera Munthu: Eu gostaria de ser lembrado como alguém que contribuiu na Literatura e no progresso para o desenvolvimento deste mundo. Com uma imagem simples e certa faríamos o enquadramento da nossa posição.

A entrevista com Litera Munthu revela não apenas um escritor, mas um pensador comprometido com a valorização da cultura angolana e africana. Sua obra é marcada pela fusão entre filosofia, crítica social e espiritualidade, sempre com o propósito de despertar consciência e preservar identidades. Ao se definir como “médico dos corpos e das almas”, ele reafirma seu papel de guia e inspiração para novas gerações. Seu legado, sem dúvida, será lembrado como uma contribuição significativa para a literatura e para a cultura universal.

3 thoughts on “Entrevista com Litera Munthu

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *